Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

A modernidade será quase sempre incapaz de produzir qualquer sabedoria; por quê?

Modernidade e sabedoria são duas palavras que não vão bem na mesma frase. Sei que hoje está na moda a palavra legado, mas, ela já não significa nada. Tem gente de 16 anos que fala que tem um legado.

Por que modernidade e sabedoria são palavras quase antagônicas? Porque a modernidade pressupõe a ruptura como estrutura de todo o processo. Hoje se usa muito a palavra disruptive (disruptivo). No mundo corporativo, essa distopia perfeita, algumas pessoas gozam quando usam essa palavra. Homens preferem sonhar com atitudes disruptivas no seu lugar de trabalho do que sonhar com mulheres fazendo sexo oral neles no meio do expediente.

Sim, a modernidade pressupõe a ruptura como estrutura de todo processo. Isso significa que a modernidade será quase sempre incapaz de produzir qualquer sabedoria. Por quê?

O passar do tempo pressupõe experiências acumuladas e testadas ao longo das diferentes idades e eras. Na ideia de sabedoria está presente o pressuposto de que o passado detém alguma forma de conhecimento “depositado no solo das eras”. E este conhecimento se revelou válido ao longo de muito, muito, muito tempo. O que falam os patriarcas no “Livro da Sabedoria” da Bíblia Hebraica (ou Antigo Testamento, como falam os cristãos) significa máximas que nos levaram até ontem porque eles tinham um conhecimento testado na experiência. A mesma coisa para a sabedoria das avós passada de mãe pra filha e neta.

Do ponto de vista do fetiche das rupturas como paradigma histórico e moral, qual a sabedoria que existe num iPhone 3? Um iPhone 3 vai pra lata de lixo (uso o iPhone aqui como metáfora do processo de avanço abismal do mundo contemporâneo). A mesma lata de lixo em que vai toda ideia que não tenha surgido semana passada. Os idiotas da inovação pensam que só o que é novo vale. Mas eles têm razão. A modernidade detesta o passado e o passado pouco agrega de valor ao camarote ou aos lucros. O exílio do passado nos condena a uma forma de estupidez científica que nos torna, a cada dia, mais alienados de nós mesmos. Mas isso não tem retorno.

A ideia de sabedoria está intimamente ligada a hábitos, costumes, tradições e, acima de tudo, a ausência de mudanças e falta de opções. A permanência no tempo implica a baixa frequência de mudanças. Quando mudamos, questionamos muitos dos procedimentos e hábitos que outrora eram considerados óbvios. Os idiotas do progresso acham que isso se aplica unicamente a superação dos preconceitos.

Não. As rupturas modernas destruíram o tecido do passado nas suas inúmeras camadas de vínculos, expectativas e valores, esses mesmos que têm gente por aí que acha que você constrói num workshop depois da piscina. É esta devastação que os românticos sentiram no ar e traduziram no famoso mal-estar romântico.

O mundo contemporâneo acha que pode ter iPhones 100 e ainda assim brincar de budistas ou similares. Não pode. Um pouco de materialismo histórico mostraria para esses idiotas da inovação que quando se muda de iPhone se muda de valores – exagerando um pouco para deixar o argumento mais claro.

As mudanças técnicas, econômicas, políticas e sociais ao longo do processo modernizador queimaram as caravelas. Não há como voltar a respeitar os mais velhos (que nada entendem de iPhone 100), nem como ter famílias “dos anos 1950”, nem como estar seguro acerca dos afetos, nem fazer planos de carreira para além de cinco minutos.

Isso não significa que o mundo ficará melhor ou pior, significa que sua sustentação técnica e econômica está se movendo cada vez mais rápido, o que dilacera sua supraestrutura social e política, e o resultado é um mundo desorientado. Os protocolos da mentira, isto é, o marketing de comportamento, continuarão no seu trabalho de maquiar o abismo que nos espera.

E a sabedoria nisso tudo? A sabedoria precisa de milênios para se constituir. Num mundo em que tudo muda o tempo todo, só vai restar, por ora, workshops ridículos pra te ensinar a abraçar árvores silenciosas. Talvez o silêncio delas nos ensine algo, porque de nós só restará ruídos.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 02/12/2019.
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