Minha evocação de Glauber Rocha no domingo passado tocou a curiosidade de alguns de meus sete leitores, que pediram que contasse o que se passou naquela noite em Paris, durante o jantar no Procope, com a presença de Darcy Ribeiro e Cláudia Zarvos. Como sempre Darcy estava com à corda solta e, sem mais nem menos, nos enveredou sobre as razões que entravavam o estabelecimento no país de uma sociedade mais justa e democrática. Nossa mesa era ruidosa para os padrões franceses, mas os garçons sabiam que ali estava um Ancien Ministre e por isso tivemos a liberdade de desenvolvermos algumas das mais fantasiosas teorias sobre as origens’ do Brasil. Foi nesta inesquecível noite que quase consegui converter Glauber ao catolicismo-logo eu que não sou religioso argumentando que devido a presença quase central do culto à Virgem Maria, o catolicismo tinha um certo quebranto feminino. Ou seja, o protestantismo, com o seu espírito beligerante do velho testamento, era uma religião com excesso de testosterona, enquanto o catolicismo era uma religião que menstruava. Essa ideia de progesterona com teologia deixou Glauber a mais de mil e o Papa não sabe até hoje o quanto a sua Igreja esteve perto do caos. Meu último encontro com Glauber, em Lisboa, na casa de João Ubaldo Ribeiro e Berenice, eu não quero recordar. Ele já estava próximo do fim, mas conservava a capacidade de galvanizar uma conversa, de espalhar alta tensão em tudo o que fazia. Toda a nossa geração morreu um pouco com Glauber. Escrever sobre o homem Glauber, e sobre o seu espírito de agitador cultural, dono de um dos raciocínios mais privilegiados que já se viu, não é coisa para fracos de entendimento. Por isso, é preciso afirmar o quanto são afoitos os que escreveram sobre o grande agitador baiano. Glauber não conseguia separar a, política da poesia. E certo que política e poética são coisas opostas. A política trabalha com a especulação e a conciliação de opostos. Política é senso de oportunidade mais audácia, Quanta a Poética, esta é sempre radical. Como na antinomia vida/morte, a poética e a política se anulam. Esta foi a grande tragédia de Glauber, e de tantos outros artistas apocalípticos que não conseguiram conciliar suas visões de nacionalidade e a realidade injusta imposta pela contingência. Da mesma forma que José de Alencar, Castro Alves e Carlos Gomes que tentaram articular um destino ao país, utilizando com argamassa a estética, Glauber Rocha exercitou essa tarefa fulgurante deixando um rastro de fogo e mistério. Marcado pelo sinal do gênio, homem de personalidade perturbadora, ao mesmo tempo era de fácil convívio, afável e amante das mulheres. Foi de todos os gênios trágicos do Brasil, o que mais soube colher resultados no esforço de fazer da arte uma política, uma estética e um ato de transformação. Castro Alves e Carlos Gomes, que não viveram suas ansiedades criativas no mesmo caldo ideológico de Glauber, não fizeram mais do que seguir o modelo de José de Alencar, ou seja, a necessidade de inventar o Brasil, tirar um país inteiro das convulsões sócio econômicas de uma sofrida ex-colônia com vocação para a retaguarda. Infelizmente o tempo de Glauber não lhe permitiu a generosa ingenuidade de seus antecessores, por isso a sua própria ingenuidade de poeta o transformou em supernova. A supernova Glauber Rocha.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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