Um dos mais graves problemas a desafiar a nova administração municipal é o sistema de transporte público de Manaus. Como em quase todas as cidades do país a oferta de coletivos e a mobilidade urbana configuram um nó que parece impossível de desatar. No caso da mobilidade urbana a cidade de Manaus, que nasceu cartesiana, com suas avenidas e ruas largas, com amplas calçadas, foi empurrada para o aglomerado medieval das invasões, graças à incúria e o populismo de seus administradores. A malha urbana herdada do ciclo da borracha hoje importa muito pouco no emaranhado caótico dos becos e ruelas estreitas e sem calçadas, mal pavimentadas, que servem apenas para o tráfico de animais de tração. A moderna capital dos barões do látex naufragou nesta chaga urbana, onde o pedestre não tem vez e só o automóvel impera. O mais grave é que os paliativos tentados pelo poder público, fruto da visão curta e do voo raso dos prefeitos, foram sempre para beneficiar o automóvel, que em nosso país é considerado um brasão que dá direitos divinos aos seus proprietários. A profusão de automóveis, invés de um símbolo do progresso e da prosperidade, é sinal de atraso e subdesenvolvimento. Pior, a profusão de motocicletas como meio de transporte é sinal de barbárie. Em país que se dá ao respeito as cidades desde antes da segunda guerra mundial tratam de pensar políticas de mobilidade urbana e de transporte coletivo que atendessem com qualidade e dignidade a maioria da população. É o papel de qualquer sociedade democrática. Excetuando algumas raras cidades, o Brasil renunciou aos transportes de tração elétrica, por exemplo, optando pelos de motor de explosão. Ou seja, nada de bondes, de trens ou metrô de superfície, que hoje dão conforto aos habitantes de Amsterdã, Antuerpia, Shangai e São Francisco. Exceto a implantação do modelo de Curitiba, criado por Jaime Lerner, o resto do país escolheu o engarrafamento. O drama dos habitantes de Manaus é ainda mais deprimente, porque absolutamente nada foi feito para minorar a situação. A ampliação de vias de escoamento em andamento, como a Avenida das Torres, segue o velho ramerrão da primazia do automóvel, mas as pistas asfaltadas foram abertas sem nenhuma sinalização e dom uma engenharia de circulação que parece ter sido inventada pelos Trapalhões. Mesmo com a inclusão de Manaus como uma das sedes da Copa do Mundo de 2014, as administrações do estado e do município se fecharam em copas, provavelmente jogando com a possibilidade de decretar emergência e burlar a lei de licitações. Minhas desconfianças quanto a isso vêm da insistência do governo estadual em construir o Monotrilho, obra inadequada para a resolução do problema, mas que pela insistência deve ter algum motivo escuso que me escapa. No caso dos transportes coletivos, Manaus é a última cidade do país refém de uma máfia oriunda de outras plagas, capaz de mudar de razão social conforme as circunstâncias, tal qual um camaleão. Como resultado desse quadro perigoso e explosivo há as consequências. O péssimo e caro serviço de ônibus empurra a população para a motocicleta e para a aquisição de automóveis. A segurança precária das motocicletas tem aumentado o número de acidentes com morte ou invalidez. Calcula-se um acidente grave por dia em Manaus. E a falsa facilidade de comprar automóvel jogou nas ruas motoristas despreparados, imbuídos de que são superiores aos transeuntes e aos outros veículos mais frágeis, que não respeitam a faixa do pedestre, trafegam com enormes caixas de som expelindo lixo sonoro, entupindo as ruas. Artur pode ser a virada.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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