“Apaixonando-se pelo Amazonas (…) esse rapaz alto e elegante se aventurou em outro embate, tomando armas para combater na guerra do Acre.

Dentre os muitos embates levados a cabo no Arraial de Canudos, nos anos primeiros da República brasileira, por extremo equívoco do governo que se instalava e que mancharam a nossa história com a grave nódoa de luta entre irmãos, um deles teve a participação de forças da polícia amazonense, partida de Manaus com salva de tiros, bandeira estadual recém-lançada, armas e munições, a qual foi ao encontro de forças federais destinadas a derrubar a resistência de Antônio Conselheiro, tal como sucedeu.

Sob o comando do coronel Bento Thomas Gonçalves e do major Lídio Porto, dentre tantos militares, um brasileiro das Minas Gerais formou na linha de frente. Anos mais tarde, ainda jovem, sediado em Manaus, faria longa e proveitosa carreira política e na imprensa diária como repórter e diretor de jornal.

Apaixonando-se pelo Amazonas e crendo firmemente em futuro glorioso que sempre era anunciado por entre toques firmes de trombetas, esse rapaz alto e elegante se aventurou em outro embate, tomando armas para combater na guerra do Acre, integrando uma expedição que, composta por inexperientes mas bravos soldados, de tão frágil e apressada foi chamada de “expedição dos poetas” porque reunia mais intelectuais, políticos e jornalistas do que combatentes experimentados nessas agruras sangrentas.

Pelo seu passado ou por sua firmeza e teimosia em defesa das terras amazonenses ameaçadas por interesse estrangeiro, ele assumiu o importante posto de capitão-assistente do comando das nossas forças, sob as ordens de Orlando Corrêa Lopes e em par com João Barreto de Menezes, Trajano Chacon, Pery Delmare, Manoel Domingos Gomes, José Maria dos Santos, dentre outros que retornaram felizes pelo dever cumprido, mas sem conseguir assegurar nosso patrimônio fundiário e altamente produtivo.

Depois, sem apartar-se do Amazonas, cursou direito na Faculdade Nacional do Rio de Janeiro, e, retornando a Manaus, em 1910 estava novamente de arma em punho na defesa da legalidade e em favor do governo de Antônio Bittencourt contra o bombardeio levado a efeito por navios da Marinha do Brasil, por ordens de Pinheiro Machado. Na ocasião esteve sob o comando do coronel Pedro José de Souza perfilado com Adriano Jorge, Júlio Pedrosa Filho, Pedro Guabiraba e outros.

Em 1917, mais uma vez, armou-se sem capa e sem espada, mas com arma pesada, para defender a posse de Pedro de Alcântara Bacellar, governador eleito, ameaçada pelo intenso tiroteio provocado por seus opositores, numa intentona que foi difícil de vencer e assustou a cidade durante horas.

Contador do foro, por concurso, diretor do jornal “O Diário do Amazonas”, deputado federal em vários mandatos a partir de 1911 e até 1925, secretário da Câmara Federal e membro da Comissão de Instrução Pública, terminou eleito governador do Estado em 1925. Em 1929 chegou ao Senado da República em cujo mandato foi alcançado pela revolução getulista e por esta levado à Junta de Sanções -o tribunal revolucionário – no qual foi absolvido por sentença prolatada por J. J. Seabra, mas, mesmo assim, não deixou de ser perseguido pelas forças simpáticas ao tenentismo e a Getulio Vargas, e foi obrigado, por suas convicções e espirito de sobrevivência, a aderir à revolução constitucionalista de 1932, inclusive, com sistema de rádio comunicação próprio, armado em sua residência de forma clandestina. Pouco depois, foi chamado para deputado constituinte federal em 1934, por Minas Gerais.

O combatente em Canudos, como visto, lutou em muitas batalhas em defesa do desenvolvimento do Amazonas, mas seu busto, erguido em praça pública na avenida que leva seu nome, foi furtado pouco anos depois de sua inauguração, e seu nome é constantemente usado de forma torta em desrespeito à sua memória: Ephigênio Ferreira de Salles.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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