“Na verdade, tratava-se de um ano atípico em que os recursos oficiais estavam minguando pela queda da borracha, o que, de certa forma, justificava as reações. 

Construído para residência de súditos alemães, o palacete de Waldemar Scholz edificado durante alguns anos na Avenida Municipal, atual Sete de Setembro, acabou sendo hipotecado ao seringalista Luiz da Silva Gomes, portentoso senhor de rios e mais rios de estradas de borracha pelas bandas do Madeira, e, tempos depois, alugado e vendido ao Estado, ao tempo do governo Pedro Bacellar.

Era residência das mais chiques, clássicas, elegantes e moderna para os padrões da época, até que, em razão da sede tradicional do governo ser emprestada – alugada da Prefeitura Municipal de Manaus – na Praça D. Pedro II, Bacellar resolveu pedir autorização da Assembleia Legislativa para aquisição pelo Poder Público. Concedida a ordem legal foi comprado ao preço de duzentos contos de reis, e logo começou o disse-me-disse daqueles que gostam de denuncismo por qualquer coisa.

Parte da imprensa local ficou a favor do governador e sob a alegação de que o Estado não possuía lugar condigno para o Chefe do Estado como sucedia com outros governos, e ainda afirmava, soberanamente, que era “um belo edifício, moderno, esmeradamente construído e por preço cuja modicidade diz eloquentemente da lisura do atual governo.” Na verdade, tratava-se de um ano atípico em que os recursos oficiais estavam

minguando pela queda da borracha, o que, de certa forma, justificava as reações contrárias à compra do palacete, porém, de outro lado, o Município continuava reclamando a posse e uso do Paço Municipal e uma decisão precisava ser tomada naquela ocasião.

As reclamações da oposição que não encontravam tanta guarida na imprensa de Manaus acabaram sendo feitas nos jornais da capital da República, especialmente “A Tribuna” que desancou o pau no governador naquela de ouvi dizer, ou coisa de encomenda tão comum no meio político, especialmente daqueles anos.

O caso só foi esclarecido devidamente quando Evaristo José de Almeida, genro de Luiz da Silva Gomes, resolveu enfrentar as denúncias e esclarecer a negociação feita com Bacellar. E o fez em carta enviada a Benjamin de Souza, diretor do Diário Oficial e membro da Academia Amazonense de Letras, recém-criada e agora centenária instituição cultural.

Para calar a oposição, defender o sogro e salvar o governo estadual do vexame de ficar dando explicações infindáveis, disse que “é falso que o palacete foi hipotecado ao meu sogro pela quantia de 140 contos … é caluniosa a afirmativa de que o edifício fora oferecido ao governo transato. com 150 contos e mais tarde por 100 contos … o que é verdade e afirmo é que o dito palacete foi hipotecado por 400 contos, recebeu obras de 34 contos e vendido por 200 contos,” portanto, nada devendo ser questionado a respeito porque quem ainda perdeu dinheiro foi o próprio seringalista e não o Estado.

Acostumado a encrencas políticas, acusações infundadas e condutas levianas, eis que o governador Pedro Bacellar, baiano que conhecia bem a trupe local desde que fora inspetor de ensino, médico e prefeito do Município de Humaitá não deu ouvidos aos opositores, comprou o palácio, organizou a sede do governo no térreo e a sua residência oficial no andar superior, pagou à vista, passou a escritura, registrou, deu o nome

de “Palácio Rio Negro”, e, por certo, salvou o belo prédio de demolição ou abandono como estavam ficando outros imóveis da cidade diante do seu esvaziamento pela fuga das famílias, comerciantes e exportadores, em razão do aprofundamento da queda da economia da borracha e das consequências da Grande Guerra Mundial.

Tenho convicção que, se ele não tivesse tomado esta providência não poderíamos usufruir desse belo patrimônio do povo, símbolo da “belle époque”, recheado de fatos notáveis e muitas histórias, porque tendo sido sede do governo desde 1918 a 1995 e a partir de 1997 sido transformado em Centro Cultural muito bem movimentado, foi tombado como patrimônio histórico, restaurado e protegido da sanha modernosa que vem se abatendo sobre nossa cidade nos últimos trinta anos.

E as comadres faladoras ficaram com a cara no chão.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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