Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

Conhecimento científico, medicina, tecnologia, direitos humanos, tudo custa muito dinheiro.

Hoje, façamos um exercício de olhar filosófico neste novo ano. Olharemos para três objetos de forma filosófica: a beleza, a sociedade de mercado e a política. Esse tipo de olhar se diferencia do senso comum porque carrega consigo um repertório maior do que o senso comum suporta -dá trabalho montar esse repertório, afinal- e, além disso, não busca agradar ninguém. Querer agradar é para os fracos.

Imagine um casal num restaurante num domingo no almoço. Uma mulher e um homem, a quem você daria mais de 70 anos. Entretanto, você percebe que ambos passaram por várias intervenções plásticas. Os rostos estão esticados, sintecados, inchados, enfim, deformados pela crescente e jovem ciência da beleza.

Celebrações do Ano-Novo e funeral de Desmond Tutu marcam primeiro dia de 2022

Italiano Walter Schirra pula e mergulha no tio Tibre como parte das tradições de Ano-Novo em Roma Alberto Pizzoli/AFP

Governo da Bahia visita comunidades atingidas pelas fortes chuvas no estado; há ao menos 25 mortos e milhares de desalojados Manu Dias/Divulgação/Governo da Bahia

A Torre Eiffel, em Paris, é iluminada em azul para celebrar o início do período em que a França presidirá a União Europeia Christian Hartmann/Reuters

Na mesa ao lado, outro senhor acompanha a cena e fala: “Por Zeus, por que fazem isso?”. Você coloca o Google Tradutor em ação e descobre que ele falou em grego ático.

Enfim, seu celular acaba por lhe informar que essa pessoa é Platão (427-347 a.C.) em carne e osso. Emocionado, tem o impulso de levantar-se, ir até ele e pedir uma selfie.

Para Platão, a beleza é uma forma perfeita, imaterial e eterna. A matéria participa dessa beleza na forma da natureza e dos corpos. Portanto, o que vemos no corpo de alguém que nos atrai é essa ideia plena da beleza mesma.

Entretanto, Platão nos adverte que o corpo, sendo matéria, não suporta a beleza pura e eterna –porque a matéria, sendo imperfeita, degenera.

Sabemos que para o grego a sabedoria está em buscar a beleza da alma, em mim e nos outros, pois a alma é essa realidade em nós que habita o corpo –a matéria– e o mundo das ideias plenas, perfeitas e eternas, ao mesmo tempo.

O que aquele senhor grego da mesa ao lado estava vendo, horrorizado, era a tentativa vã de retermos a beleza num corpo que não suporta a eternidade. Portanto, a beleza abandona o corpo.

O que o Platão viu foi o ridículo –o oposto da beleza– de um corpo em degeneração que ignora o fato que, com os anos, o belo possível é o da alma, que, aliás, se revela sempre mais permanente, apesar de difícil acesso. Uma intervenção plástica qualquer sempre custa mais barato do que qualquer forma consistente de sabedoria.

Discute-se muito a sociedade de mercado –ou o capitalismo, como queira. Liberais afobados correm a afirmar as evidentes vantagens do capitalismo no que se refere à produção de riqueza em todos os sentidos. Conhecimento científico, medicina, tecnologia, direitos humanos, tudo custa muito recurso. Apesar da afobação dos liberais, eles não deixam de ter razão nesse aspecto.

Protestos contra o Capitalismo

Manifestantes com mascaras de porcos, vestidos de terno e gravata em frente à galeria de Arte de Vancouver no movimento Ocupe Vancouver, Can Jeff Vinnick

Mulher carrega placa que satiriza as eleições norte-americanas no movimento Ocupe Boston, nos Estados Unidos. A placa é como uma cédula de v Brian Snyder

Abigail Garrett (6) de Hamden, Connecticut (EUA), segura um cartaz com os dizeres, “olha mãe, sem futuro” no movimento Ocupe New Haven Jessica Rinaldi

Entretanto, se convidássemos Adam Smith(1723-1790) para um desses programas em que especialistas discutem economia e similares, ele provavelmente destoaria de grande parte da discussão.

A questão é que Smith traria aspectos que podemos chamar de morais quanto ao desenvolvimento da riqueza e seu acúmulo. Simplificando, para Smith há um risco moral no desenvolvimento das sociedades comerciais na medida em que elas, no final do dia, se alimentam e alimentam sentimentos morais duvidosos. Ganância, egoísmo, mentira, competição desenfreada.

Claro que nada disso nega o que os liberais afobados afirmam. Entretanto, a sociedade de mercado mente sistematicamente sobre essa realidade de fundo, enquanto avança no estrago generalizado dos sentimentos morais que dão sustentação à vida comum. O capitalismo organiza a vida moral miserável, vestindo-a com salto alto para festas.

E a política? Se um jornalista especializado em política perguntasse a Nicolau Maquiavel (1469-1527) o que ele pensa da política atual aqui e no mundo, ele responderia em poucas palavras: toda política é sobre violência, não se enganem. O político quer o poder e pronto.

Estando na mesma coletiva, Alexis de Tocqueville (1805-1859) lembraria ao nosso jornalista que os representantes sempre esquecem dos representados e trabalham apenas para a sua própria classe.

Mesmo aqueles que vendem a ideia de que fazem política para o nosso bem sempre o fazem para eles e seus colegas de profissão, inclusive quando eles estes são da oposição.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Colunas & Blogs, de 02/01/2022.
Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui