o cadidato calheiros

Há em Itacoatiara um intelectual e advogado que honra sobremodo a terra onde nascemos. É um dos pretendentes a ocupar uma cadeira na Casa Legislativa do Amazonas. O caminho é árduo, as dificuldades diversas, mas temos que construir uma via democrática para tornar as instituições mais sólidas. É um idealista, nome que promete, uma esperança. Ele lutou contra forças poderosas para a materialização da AIL – Academia Itacoatiarense de Letras, fundada em 2009, inaugurando a Semana de Arte Moderna no Vale de Serpa, como afirma em seu discurso de posse como primeiro presidente daquele Silogeu. A primeira entrevista da série é com o professor e advogado Francisco Calheiros, tem 49 anos de idade, cinco livros publicados e um no prelo – romance Maria Odete.  A seguir um pingue-pongue com o pretendente ao cargo de deputado estadual:

JRL – Pincelado desde o livro Provável Poesia (1996), o senhor vive um determinado passado. Qual o motivo da recorrência?

Prof. Calheiros – O que escrevo tem muita influência de Manuel Bandeira: meus avós, a rua Estrada Stone, onde passei minha infância, o barco dos pescadores, o mercado do Jauary, hoje entregue às ruínas, enfim, momentos que ajudaram na minha formação de professor e de advogado.

JRL – No Ensino Fundamental e Médio, paralelamente ao trabalho que desenvolvia como menor aprendiz, o senhor elaborava reportagens semanais e era editor de um jornal escolar. Qual foi o aprendizado?

Prof. Calheiros – Era o jornal O Estudante, uma forma de mobilizar a pacata vida acadêmica que nos rodeava. Ainda hoje guardo um exemplar desse jornal, que era feito em máquina de datilografia. Serviu de inspiração para os livros que escreveria depois, principalmente o romance Quadro Negro (2012), que faz um painel da nossa decadência política e econômica.

JRL – Seu desejo na juventude era cursar Medicina… Por que a guinada brusca para a Literatura?

Prof. Calheiros – Ainda menino, andava com minha avó pelo hospital e achava tudo muito bonita. Pode-se dizer que, àquela altura, a pobreza me tirou da Faculdade de Medicina, pois vi para Manaus e dormir inclusive embaixo da ponte do Bairro de São Jorge, por não ter onde morar. A literatura teve início quando ganhei um concurso de redação na oitava série. Depois os primeiros poemas e o primeiro livro que o Governo do meu Estado se recusou a editar. Publiquei dez anos depois com os meus próprios recursos.

JRL – O material de trabalho do poeta, segundo o dramaturgo Ariano Suassuna, é a Língua Portuguesa. Como se dá esse processo?

Prof. Calheiros – O escritor tem de dar um bom exemplo. A matéria-prima da literatura é o idioma nacional. Um texto bem escrito fica para a posteridade, não importa se poesia, romance, teatro ou música popular. Lamento hoje o baixo nível da MPB. O que se produz hoje no Brasil, em regra, é a cultura do lixo.

JRL – O senhor encontrou resistências ou dificuldades para a edição de seus livros? Quais?

Prof. Calheiros – Nunca recebi apoio de ninguém, principalmente do Governo do meu Estado. Um antigo Superintendente Cultural jogou o original de Provável Poesia (1996) no chão porque o Estado não tinha interesse em publicar. Isso ocorreu há mais de 30 anos. Uma triste lembrança!

JRL – Como se deu a participação na fundação da Academia Itacoatiarense de Letras?

Prof. Calheiros – A criação da AIL foi liderada pelo Mestre Francisco Gomes da Silva, uma das maiores referências na minha formação. Foram várias reuniões. Fui eleito o primeiro presidente. Liderei a reforma do prédio cedido pelo Governo do Estado. Um trabalho muito solitário, com a ajuda da saudosa escritora Auricélia Fernandes e da pedagoga Ester Araújo. Lutamos contra os poderosos. A uma semana da inauguração, o Governo queria ceder o prédio parta o SENAC. Ameacei fazer greve de fome e me acorrentar em frente ao Palácio da Compensa (sede do Governo). Recebi um telefonema do então governador, dizendo que não fizesse aquilo, porque o prédio seria cedido para a AIL.

JRL – A Academia Itacoatiarense de Letras trabalha a Literatura. Mas ela tem uma função social?

Prof. Calheiros – Hoje a AIL tem o reconhecimento da sociedade, é reconhecida pelas pessoas, tem atendimento ao público e desenvolve um trabalho junto às escolas. Vejo a instalação da AIL como o marco inicial do Modernismo em Itacoatiara, assim como foi a Semana de Arte Moderna para a cultura e as artes no Brasil.

JRL – O Amazonas é o maior estado da federação. Em um discurso o senhor propõe a educação sem distância, enfatizando a instituição de uma Universidade Aberta. Que caminhos são esses?

Prof. Calheiros – É um Estado continental. Hoje, as tecnologias de informação podem ajudar a implantação de cursos em comunidades aonde o Estado não consegue chegar, seja por falta de interesse, seja pelas dificuldades geográficas. Vou ajudar a criar a Universidade Aberta da Aldeia Correnteza, no rio Urubu, hoje totalmente abandonada pelo poder público.

JRL – São 30 anos trabalhando no magistério amazonense, especialmente em Manaus, onde é bastante conhecido e respeitado? Cite 4 projetos na área educacional.

Prof. Calheiros – O incentivo à leitura a partir das séries iniciais, pois hoje o nosso jovem escreve e fala mal porque não lê; curso preparatório presencial para o vestibular, como forma de compensar o baixo nível de ensino que a escola pública oferece; o resgate da cultura popular, hoje esquecida; a criação de uma biblioteca de referência em cada um dos municípios do Estrado.

JRL – A cultura itacoatiarense não é tão valorizada pela maioria da população. De que modo pretende estimular projetos para a área?

Professor Calheiros – Se tirarmos o FECANI, não sobra nada. São pelo menos 40 anos de paralisia. Bons projetos podem viabilizar recursos estaduais, federais e privados. Fazer cultura é um investimento financeiro caro e sem projetos tudo voltada para a estaca zero.

JRL – Como pretende auxilias Itacoatiara como operador do Direito?

Prof. Calheiros – A Defensoria Pública foi instalada recentemente. Um grande avanço. Trabalhar para dinamizar os serviços desse importante órgão. Fazer ciclos de palestras sobre diferentes temas. Existe na nossa sociedade uma ignorância jurídica muito grande. Um dos nossos projetos é a disciplina Noções de Direito nas escolas da rede pública e particular de ensino.

JRL – Por que o senhor é candidato?

Prof. Calheiros – Porque é muito fácil dizer que está tudo errado, criticar por criticar e cair no rol do que eu chamo de irresponsabilidade cidadã. O Amazonas terá um dos melhores deputados estaduais da sua história. Outro ponto é a renovação: não se pode continuar elegendo essa classe política velha e apodrecida, que nos escraviza e nos envergonha.

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J.R Lopes
É jornalista. Natural de Itacoatiara (AM).

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