São muitos os pontos de decepção e frustração com o Brasil redemocratizado. Uma das grandes questões que afligem a sociedade é entender o porquê de o País haver se deteriorado em tantos  aspectos após o fim do regime militar e o retorno do governo aos civis, eleitos democraticamente pelo voto direto.

Não são poucos os atores que participaram a partir de 1982 dos movimentos pelas Diretas-já e a redemocratização, que integraram a Constituinte e legaram à nação a “Constituição cidadã” de 1988. Alguns desses nomes, manchando suas biografias integram enormes quadrilhas que vêm saqueando os cofres públicos em várias frentes. Afinal, onde estão os ideais de decência, moral e lisura defendidos pelos movimentos estudantis e sindicais dos anos 60 e 70? Certamente acomodados aos encantos do poder e ao afã de enriquecimento rápido por meio de cargos públicos estrategicamente ocupados.

Notoriamente, caudal mar de corrupção e desmandos vêm tomando conta dos governos democráticos, especialmente do Partido dos Trabalhadores desde que o Sr. Lula da Silva assumiu o poder em 2003. A questão que intriga a sociedade, entretanto, diz respeito ao porque o brasileiro vem tolerando tantos desmandos. É o que se discute amiúde na imprensa e, principalmente, via redes sociais.

O que sucede com a Petrobras, e daqui a pouco com o BNDES, deveria ser enfrentado por movimentos populares de forma contundente, como no passado. Apenas cair a popularidade da presidente Dilma Rousseff não é o suficiente. Devido a total falta de condições morais, políticas e por incompetência gestora deveria, isto sim, deixar o poder de imediato. Por vontade própria ou tangida pelo povo por meio de processo de impeachment.

Ao que presumo, a razão da tolerância e contenção de sentimentos de revolta e insatisfação do brasileiro em relação à caótica situação do Brasil contemporâneo decorre essencialmente do baixo nível educacional e cultural da classe estudantil especialmente, e da sociedade como um todo. É muito forte esse fator inibidor. Parece-me bem nítida a sensação de aparvalhamento, desorientação, de perda de rumo que grande parcela do povo brasileiro claramente vem demonstrando, tornando-se, em consequência incapaz de reagir e assumir posicionamentos firmes e objetivos de moralização do governo e das instituições.

Quadro conjuntural bastante diverso do que tínhamos nos anos 60 e 70, quando o nível cultural e político dos estudantes, dos trabalhadores e das representações parlamentares era infinitamente superior ao padrão sustentado por essas classes nos dias de hoje. Mais grave ainda, o Brasil, contrariamente àquele período não tem mais líderes, nem estadistas. É inevitável, por conseguinte, que suas instituições  regridam a níveis tão rasteiros. É devastadora a repercussão sobre esse processo o resultado do último ENEM em que 539 mil redações de Português levaram zero.

A seguir um balanço sumário dos principais casos de corrupção que vêm balançando a estrutura política e governamental do País:

Mensalão

Grave crise vem  se deparando o Brasil ao longo destes os últimos 12 anos, sobretudo a partir do esquema de financiamento do Pt por meio do mensalão, o escândalo de corrupção política mediante compra de votos de parlamentares no Congresso Nacional ocorrido entre 2005 e 2006, ainda no início do primeiro mandato do ex-presidente Lula da Silva. O esquema foi denunciado pelo deputado Roberto Jefferson, do PTB, partido da base aliada do governo, e um de seus operadores mais influentes.

A Ação Penal 470 (o processo do mensalão) foi julgada pelo Supremo Tribunal Federal. Após um ano e meio e 69 sessões, culminaram na condenação de 24 dos 38 réus. Foram mandados para a cadeia pelo STF, entre 2013 e 2014, os mentores do esquema, os chefes da quadrilha José Dirceu, Delúbio Soares e José Genoino junto com os demais operadores do esquema.

PTrolão 

Quando todos acreditavam que a corrupção avassaladora que havia tomado conta do Palácio do Planalto havia sido domada, eis que surge um esquema muitas vezes superior ao mensalão, que fez o Fiat Elba do Collor parecer troco: o PTrolão, revelado pela Operação Lava-Jato. Deflagrado  a partir da compra da Refinaria de Pasadena, no Texas, que causou um prejuízo superior a US$ 1 bilhão e 200 milhões de dólares à Petrobrás, o processo hoje chegou a números inimagináveis que já causaram prejuízos à estatal petrolífera, mensurados até agora de R$ 88,6 bilhões de reais.

Isso sem levar em conta o volume de propinas pagas por empreiteiras gigantes a diversos diretores da empresa e ao próprio PT, que teria abastecido os cofres do partido com cerca de US$ 200 milhões (em torno de RS$ 600 milhões) por João Vaccari Neto, o secretário de Finanças e Planejamento do Partido dos Trabalhadores. Bem a propósito, Vaccari Neto é ex-presidente da Bancoop (Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo), conhecida pelo Caso Bancoop, supostamente usada para beneficiar o caixa dois do PT. É gente do ramo, por conseguinte.

Evidentemente, todo esse esquema tinha (e continua tendo) como fundamento a formação de fundos destinados à sustentação do mega projeto por meio do qual o PT pretendia tomar de assalto o governo brasileiro e perpetuar-se no poder. Inspirado no bolivarianismo venezuelano e no comunismo cubano, dele se apoderar para sempre. Afinal, Fidel e seu irmão Raul Castro mantêm-se à frente do governo em Cuba há quase 60 anos. Eternizar-se no poder, afinal, é o objetivo maior de qualquer ditadura. Foi e é assim na Libia, no Iraque, na Siria, no Egito, na Coreia do Norte, em inúmeros países africanos, e também latino-americanos até os anos 1980. Alguns deles ainda se sustentam até hoje: além de Venezuela e Cuba, muito provavelmente o mesmo também deverá ocorrer na Bolívia e Equador.

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Osíris Silva
O economista Osíris M. Araújo da Silva é consultor de empresas, ex-secretário Municipal de Economia e Finanças da PMM, ex-secretário da Indústria, Comércio e Turismo e ex-secretário da Fazenda do Amazonas. É presidente da AMAZONCITRUS – Associação Amazonense de Citricultores, membro do Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos (GEEA), do INPA, e articulista econômico de A Crítica.

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