*Djamila Ribeiro

É completamente absurdo que essa realidade não choque e que pessoas ainda coloquem a culpa na mulher pela violência sofrida.

Divulgado nesta semana, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, uma das mais importantes fontes para pesquisas no país, nos trouxe dados muito importantes. Um foi repercutido na imprensa durante toda a semana: a cada oito minutos, uma mulher é estuprada -57,9% das vítimas tinham no máximo 13 anos.

Quando escrevi minha coluna da última semana, busquei elencar um estupro por dia que identifiquei em uma rápida pesquisa.

Nesta semana poderia fazer o mesmo, e mais um artigo denunciando o que deve ser, de fato, discutido estaria feito. Posso falar sobre a jovem de Itanhaém de 23 anos, arrastada junto ao filho e mantida em cárcere privado por cinco dias pelo ex-namorado de 39 anos e obrigada a gravar vídeos do estupro na frente da criança.

Não há paz em um país que odeia mulheres e as estupra a cada oito minutos.

Não há paz em uma sociedade que se recusa a discutir os efeitos da indústria pornográfica bilionária que exibe vídeos humilhando mulheres à distância de um clique para consumo de homens, adolescentes e crianças. Onde estão campanhas públicas de conscientização, regulação e compensação pelos danos decorrentes dessa realidade?

Não há paz possível em um país que privilegia homens em detrimento de mulheres em todas as relações. Estamos em ano eleitoral, é necessário que estejamos atentas aos projetos políticos que defendemos e se os mesmos têm como pauta fundamental políticas de enfrentamento à violência contra mulheres e meninas.

É completamente absurdo que essa realidade não choque e que pessoas ainda queiram pôr a culpa na mulher pela violência sofrida, se estava bêbada ou não, que roupa estava usando, em vez de se investigar as origens sociais das desigualdades e de ver que se trata de uma questão estrutural.

Não há paz em um país onde mais de uma dezena de milhões de crianças crescem sem o nome do pai na certidão de nascimento, mas o aborto legal de uma criança estuprada mobiliza a misoginia a agir.

O aborto no país que odeia mulheres e as estupra continua sendo um crime. Estamos em 2020 e continua um crime.

Um crime que penaliza majoritariamente as mulheres, as mesmas que são a cada oito minutos estupradas e que chefiam os lares brasileiros enquanto os homens vão embora, muitos deles ainda se recusando a usar camisinha “pois não gostam e incomoda”. Mas é contra o aborto que o governo do estupro se levanta.

Diga-se de passagem que milhões de mulheres já morreram em abortos inseguros, mas essas vidas, como a de qualquer mulher, pouco ou nada importa.

Uma discussão séria, mas que no momento atual enfrenta ainda mais resistência, uma questão de saúde pública vista pela perspectiva religiosa.

Também importante citar que o Brasil é o campeão mundial em assassinato de pessoas trans e travestis, um dos mais violentos para a comunidade LGBTQ. Um outro recorde triste é o de ser o quarto país em casamento infantil, confinando meninas num ciclo de exclusão e violência.

Um país no qual a mulher acorda e pode apanhar em casa, ser importunada ou estuprada a caminho do trabalho. Onde, no trabalho, se vê em face dos comentários e assédios de seus colegas e, na volta para casa, quando a noite está no céu, vê toda essa situação ficar ainda mais perigosa.

Uma mulher que passa por isso ganhando salário menor e com receio de que seus filhos possam ser estuprados em casa. Diga, isso é um país ou um abatedouro de mulheres?

Um outro dado do Anuário chama a atenção, porém não vi tanto alarde sobre ele: o crescimento de 7% na já altíssima taxa de feminicídio, nos quais 66,6% das vítimas são negras.

Ora, quando estamos falando de homens que violentam mulheres, não há classe ou raça que dê conta do assunto.

Homens pobres batem em mulheres, homens ricos batem em mulheres. Porém, quem são as mais vulneráveis a acessar um sistema de proteção do Estado? Mulheres negras e indígenas sofrem o impacto desproporcional por vivenciar o gênero racializado em todas as mazelas sociais.

Para além de se conscientizar, devemos cobrar: estamos falando de políticas públicas, que dependem de um governo.

Estamos falando de publicidade e campanha de conscientização tão grandes quanto o massacre que se apresenta.

Estamos falando de uma mudança estrutural, algo que é mais do que um mero repúdio moral ao estupro.

Parafraseando Angela Davis, não basta não ser machista, é necessário ser antimachista.

 *Mestre em filosofia. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 23/10/2020.

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