*Alvaro Costa e Silva

Lima Barreto e Pixinguinha não entenderam o futebol e o samba na época do seu surgimento.

Lima Barreto chegou a criar uma Liga Brasileira Contra o Football, cuja adesão foi pífia. Nem seus companheiros de copo no Café Papagaio, na rua Gonçalves Dias, toparam a ideia. Aos olhos de hoje, sua aversão ao “esporte do ponta-pé” costuma ser explicada com o argumento de que, na época em que o escritor viveu, futebol era coisa de rico, de quem ia estudar na Inglaterra ou na Suíça e, deslumbrado, importava a novidade. E ainda havia Coelho Neto, antípoda e inimigo literário do autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, o qual era um amante da bola e pai do Preguinho, um de nossos primeiros craques.

Em seus romances, contos e crônicas, ninguém entendeu melhor a alma sofredora dos subúrbios cariocas do que Lima Barreto. Mas nessa, desculpe, ele papou mosca. Abusou do nacionalismo que cega.

No livro recém-lançado “Metrópole à Beira-Mar”, Ruy Castro conta que –aí incluídos os preferidos da galera, Fluminense, Botafogo, América e Bangu– já existiam 77 clubes de futebol no Rio em 1907. Em 1915, com as chegadas de Flamengo, São Cristóvão e Vasco, eles já eram 216. Bairros como Leme, Humaitá, Cosme Velho, Cascadura, Realengo, abrangendo as zonas sul, norte e oeste, tinham os seus.

O incrível personagem Chico Guanabara, mestiço, capoeira de aluguel –que bem poderia figurar em um dos livros de Lima Barreto–, era em 1904 o torcedor símbolo do, pasme, Fluminense, considerado aristocrático e elitista. Nas arquibancadas do campo de Laranjeiras, Chico berrava, vaiava, xingava o juiz.

Mas não foi só o Lima que pegou o bonde errado da história. O santificado (com razão) Pixinguinha declarou a um repórter de O Jornal, em 1925: “Quando se fizer a desinfecção, isto é, quando o povo estiver enfarado, o samba voltará ao seio das macumbas e dos candomblés, de onde saiu para prejudicar a boa música e o bom gosto”. Durma-se com um choro desses.

*Jornalista. Matéria na Folha de São Paulo, de 07/12/2019.
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