*Daniel Furlan 

Não há sorriso de criança que me fascine mais do que um idoso cabeludo.

Fui escolhido para ser padrinho do Otto. Não o músico, embora tivesse o maior prazer em batizá-lo caso fosse convidado.

Meu primeiro passo foi passar numa loja de brinquedos e comprar algo grande e barulhento, sempre garantia de um presente de sucesso para qualquer idade. Aproveitei e levei uma saboneteira infantil de sapo de borracha para mim. É um sapo feliz de barriga para cima, onde você deposita o sabonete. Ele está sorrindo, então não parece se sentir explorado, de modo que julguei se tratar de uma saboneteira que transmite uma energia boa. A moça da loja perguntou se era para presente também, e respondi com algum constrangimento que esse era para mim.

Na cerimônia, como era de se esperar, o pequeno Otto tentou desesperadamente fugir a todo custo do próprio batismo, correndo sem rumo, se debatendo nos braços de parentes ou tendo súbitos ataques de sono, embora sem sucesso.

Aparentemente houve até um curso preparatório para a cerimônia, ao qual não compareci, Otto provavelmente também não, mas aproveitei para termos nossa primeira conversa séria, sobre o significado daquele ritual. Dali para frente éramos padrinho e afilhado, o que quer dizer que ele agora será responsável por cuidar de mim para sempre, me levando medicamentos como finasterida durante minha velhice. Alguém alertou sobre a possível perda de libido causada por esse medicamento, o que a meu ver se trata apenas de mais uma preocupação que ele elimina.

E o que mais me chamou atenção no evento, sem querer desmerecer todo o aspecto simbólico-religioso e todo o carisma das crianças presentes, foi o avô de Otto, meu querido Afonso, no alto dos seus mais de 70 anos de idade e todos os cabelos na cabeça.

Não há sorriso de criança que me fascine mais do que um idoso cabeludo (fascínio com uma pontinha de melancolia, devo admitir). Até porque em batizados as crianças raramente sorriem, dando preferência ao choro de indignação diante de mais um ritual no qual são as grandes estrelas sem serem consultadas.

Talvez se o tema da cerimônia em vez de Jesus pudesse ser Batman, Frozen, Minecraft, Cristiano Ronaldo, Luccas Neto ou algum outro super-herói que cativasse mais a criançada, houvesse menos lágrimas e mais alegria. Mas ninguém consultou esse padrinho aqui.

*Ator, comediante e roteirista. Matéria na Folha de São Paulo. Caderno Opinião, de 24/06/2019.
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