Um mascarado empunhando um revólver e dizendo “a bolsa ou a vida” era a imagem de infância que eu tinha de um assaltante.

Hoje já reciclei essa imagem. Nestes tempos de modernidade líquida, diversidade é algo que existe até entre os assaltantes. E dentro dessa diversidade, podemos encontrar o meliante que frequenta palácios e parlamentos, utiliza armas que matam sem deixar autoria. E não usa máscaras. Nem mesmo na pandemia.

Os Originais do Samba alertavam:

“Se gritar pega ladrão
Não fica um, meu irmão.”

“Lugar meu amigo é a minha baixada
Que ando tranquilo e ninguém me diz nada
E lá camburão não vai com a justiça
Pois não há ladrão e é boa a polícia
Lá até parece a Suécia, bacana
Se leva o bagulho e se deixa a grana
Não é como esse ambiente pesado
Que você me trouxe para ser roubado”

Augusto Heleno, durante reunião de apoio ao então candidato Bolsonaro, fez paródia:

“Se gritar pega Centrão
Não fica um meu irmão,
Se gritar pega Centrão,
Não fica um…”

Infelizmente, o pagode do general não passava de uma “sambada”. Enganou a todos. O general não botou o Centrão pra correr. Ninguém nunca pegou o Centrão. Pegar… como assim? Pegar só se for para chamar de seu. O Centrão é que pega. Pega os altos escalões, pega a Câmara e o Senado. E isso tudo com a camaradagem do capitão presidente, que tem suas conveniências da hora. Precisa do Centrão nas fileiras de defensores, inclusive para encarar possíveis processos de impeachment.

O Centrão é assim. Se tiver tudo certinho, ele está dentro. E, estando dentro, segura qualquer onda, desde que tenha carta branca para surfar no mar das emendas parlamentares, pra não dizer coisa pior.

E, ainda assim, o Centrão não é aliado. Sabe-se que, depois de encastelado, fica difícil retirar seus privilégios. Fernando Henrique, Lula, Dilma tiveram suas experiências. Experiências que, no entanto, não geraram aprendizado. O Centrão nunca foi descartado. É uma carta na manga pra qualquer governo. Sempre à espreita. Chamou, ele comparece. Faz questão de dividir a foto. E, logicamente, diverte-se no baile dos sem-máscaras, que ninguém é idiota.

Aliás, o político idiota não se cria, como ouvi certa vez de um cacique amazonense. Se você é um desses políticos rodados, que já encaixou sucessivos mandatos, sabe do que estou falando.

E também sabe que as mudanças de opinião ditam as regras no mundo político. O general e o capitão mudaram de opinião e não precisaram explicar. Tá tudo normal para os parâmetros em voga. Tudo certo, como assim diria Severino Cavalcante, que foi presidente da Câmara dos Deputados, quando teve que enrolar a imprensa que queria saber porque o deputado afirmava uma coisa num dia e no dia seguinte voltava atrás.

– Só um doido é que não muda de opinião. E eu não sou doido.

Não ser doido e nem idiota é requisito para participar do baile dos sem-máscaras, que funciona com aparente legalidade. Até certo ponto, é claro. Vejamos.

O Planalto abre o orçamento para emendas parlamentares. Emendas garantem recursos a Estados e Municípios. Governadores e prefeitos contratam empreiteiras e fornecedores. Abre-se as oportunidades para os superfaturamentos. São esses superfaturamentos que garantem o retorno dos favores. Apoio às campanhas ou reforço ao caixa dois. E recomeça todo o ciclo. O baile só dá certo porque os protagonistas garantem o giro.  Não pode haver quebra da contradança macabra.

Baile dantesco que distorce o ensinamento franciscano de que “é dando que se recebe” e que desvirtua a doutrina dos gregos sobre a solidariedade de que “uma mão lava a outra”. Expressão essa a qual os nossos descobridores lusitanos acrescentaram “e as duas lavam a cara”. Certamente que lavam, sim, a cara de pau dos que nem se dão ao trabalho de ao menos usar máscaras para escondêla.

*Amazonense de Itacoatiara. Advogado. Compositor premiado inúmeras vezes no FECANI e no CONPOFAI. Escritor plantonista.
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Alírio Marques
*Amazonense de Itacoatiara. Advogado. Compositor premiado inúmeras vezes no FECANI e no CONPOFAI. Escritor plantonista.

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