Rafael Andery
*Rafael Andery

O autor amazonense Milton Hatoum termina novo livro, vê suas obras adaptadas para TV, cinema e HQ e se prepara para não escrever mais.

A porta de entrada coberta por rabiscos coloridos, repleta de desenhos infantis que fazem referências a “Guerra nas Estrelas” e Harry Potter não deixa dúvidas: tem criança no apartamento. O dono da casa, o escritor amazonense Milton Hatoum, 62, não se incomoda com a bagunça e dá nome aos pequenos artistas, seus filhos João e Gabriel. “Dois irmãos”, diz.

Antes de João e Gabriel, Yaqub e Omar foram os outros irmãos que transformaram a vida do escritor. Personagens centrais do romance “Dois Irmãos”, de 2000 (Companhia das Letras, 272 págs.), os gêmeos fazem parte de uma história de sucesso raro na literatura brasileira contemporânea, com 150 mil exemplares vendidos e publicação em 15 países, da Grécia à Etiópia.

E, se a obra de Milton já está bem estabelecida na literatura, agora ela começa a atravessar outras fronteiras. Dois livros e um conto do autor estão sendo adaptados para o cinema, e “Dois Irmãos” ganhará uma minissérie na TV Globo “”além de uma versão em quadrinhos lançada há pouco. O escritor ainda trabalha em seu novo livro, “O Lugar Mais Sombrio”.

Reais ou literários, os irmãos que habitam a vida de Milton alteraram a rotina do pai e criador, cada dupla a sua maneira. João, 11, e Gabriel, 7, renovaram nele o interesse pelo tênis de mesa (“chamar de pingue-pongue é quase um insulto, porque tem uma técnica ali”), esporte ensinado ao autor, quando ele era criança, por um tio de Manaus.

Já Yaqub e Omar foram responsáveis por colocar o escritor em evidência. O segundo livro do autor é o seu maior sucesso de vendas, e não raro faz parte da lista de leituras obrigatórias para vestibulares, além de ser sua publicação mais estudada pela academia.

Foi por causa dos filhos que Milton deixou de trabalhar no apartamento, onde mora com eles e sua mulher, a editora Ruth Lanna, 48, e alugou uma edícula na mesma rua, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. “Não gosto de sair da minha rua. Para mim, o melhor lugar do mundo chama-se largo da Batata.”

Mantendo o costume amazonense mesmo após 16 anos em São Paulo, acorda bem cedo “”brinca que “o Espírito Santo sopra com mais força de manhã””” e trabalha até as 13h em seu escritório, onde escreve seus livros a mão. “Uso uma caneta, qualquer uma.”

“O pensamento e a imaginação obedecem mais ao ritmo da minha mão do que ao da máquina. Fico atrapalhado se escrever no computador”, diz. “Na verdade, passo mais tempo lendo do que escrevendo em meu escritório.”

 

A PRESSA É INIMIGA

A preferência pela leitura à escrita e o hábito de redigir seus textos à mão ajudam a entender o pequeno número de obras publicadas pelo autor. Seu primeiro livro, “Relato de Um Certo Oriente”, saiu quando Milton já tinha 37 anos, em 1989. Desde então, lançou apenas outros quatro romances. “Não tenho a ânsia de publicar”, diz. “Quando você quer escrever, não quer escrever bobagens, coisas que durem uma ou duas estações. Talvez por isso eu sempre me pergunte: ‘Será que ainda vale a pena?'”

Depois de seu livro de estreia, muito bem recebido pela crítica, mas nem tanto pelo público, essa pergunta ressoou na cabeça dele por um bom tempo. Em 1996, o autor chegou a terminar uma obra de 600 páginas chamada “Um Rio Entre Dois Mundos”, um romance que mesclava sua história pessoal com a de seu Estado natal, o Amazonas. “Era um livro que sofria de elefantíase”, diz. “Trabalhei muito nesse manuscrito, mas nunca tive vontade nem disposição para reescrevê-lo depois de mostrar para meu editor, que o achou muito grande.” O romance ficou na gaveta.

O período foi difícil para o escritor. “Eu estava morando em Manaus há dez ou 12 anos, desde que havia voltado da Europa, onde fui estudar. Estava angustiado com a degradação da cidade, amargurado com o meu trabalho de professor na universidade, meu casamento havia acabado e alguns parentes próximos morreram. Era como se fosse um romance terminando, um romance da vida, da desilusão, vivido ao vivo.”

Foi aí que Yaqub e Omar entraram na vida dele. “A ideia do ‘Dois Irmãos’ começou a fervilhar na minha cabeça em 1996 e eu fui fazendo minhas anotações”, conta. De lá para cá, o autor abandonou a sua terra natal pela segunda vez. “Quando deixei Manaus aos 15 anos, intuí que algum dia voltaria. Na vez seguinte, sabia que jamais retornaria”, diz. “Às vezes, a província faz envelhecer muito rapidamente.”

 

ECOS BIOGRÁFICOS

Em 1999, Milton se mudou para São Paulo, para fazer doutorado em literatura na USP. O namoro com a academia não durou muito tempo. “Abandonei a faculdade, juntei meus caraminguás e me entreguei totalmente ao ‘Dois Irmãos’.”

O livro conta a história do drama familiar dos gêmeos Yaqub e Omar, filhos de imigrantes libaneses que moram em Manaus. Narrado pelo filho da empregada da família, a obra mostra a construção da identidade dos dois irmãos, movimentando-se entre passado e presente.

Com ecos autobiográficos, a construção do romance é inspirada também nas muitas leituras de Milton, fã dos grandes romances do século 19 e começo do século 20. Loas a autores como o polonês Joseph Conrad (1857-1925), o americano William Faulkner (1897-1962) e o francês Marcel Proust (1871-1922) são comuns nas conversas com o escritor.

Desde que a história de Yaqub e Omar foi publicada, ela já vendeu milhares de exemplares, ganhou um prêmio Jabuti e garantiu a Milton, que não publicava um romance há 11 anos, sua subsistência como escritor. “Mas não foi um best-seller instantâneo”, diz. “Esses são thrillers americanos ou livros de erotismo de terceiro grau que aparecem e desaparecem por causa da indústria cultural.”

O autor credita o sucesso da obra a um fenômeno gradual, com os livros ganhando espaço em escolas e universidades e depois alcançando maior sucesso entre o público geral.

 

MAIS IRMÃOS

Outros dois irmãos ilustram bem essa tese. Leitor de primeira viagem da obra, o quadrinista Fábio Moon, 38, foi atraído pelo tema, a relação conturbada entre irmãos gêmeos. Seu próprio gêmeo, Gabriel Bá, leria o livro quase dez anos depois, em 2009.

“Ao contrário do Yaqub e do Omar, a gente se dá bem”, diz Gabriel. Trabalhando em conjunto, os irmãos ganharam três prêmios Eisner, os mais prestigiosos do mercado de quadrinhos. E tiveram a HQ “Daytripper” como líder da lista de gibis mais vendidos no “NY Times”.

Em 2009, durante uma Flip em que tanto o escritor quanto os gêmeos participaram, surgiu a ideia de adaptar a obra de Milton para os quadrinhos. Os irmãos quadrinistas já haviam feito algo parecido em 2007, ao transpor para o universo das HQs o livro “O Alienista”, de Machado de Assis.

“Quem teve a ideia foi o nosso editor na Companhia das Letras”, conta Fábio. “O Milton achou legal, abriu um sorriso, mas, ao mesmo tempo, vimos que seria muito trabalho”, diz. De fato, como tudo o que cerca a obra de Milton, o desfecho não foi rápido. Fábio e Gabriel anunciaram que estavam trabalhando no projeto em 2011 e, somente quatro anos depois, conseguiram concluir a obra, recém-lançada no Salão do Livro de Paris (Quadrinhos na Cia) e já à venda no Brasil.

“Milton fala devagar, é bem manso”, diz Gabriel sobre o autor, cuja calmaria parece ser contagiante. “Ele nos ensinou a ter paciência, a não nos apressarmos ou ficarmos ansiosos para lançar logo”, diz.

O escritor também elogia os rapazes, embora confesse uma pontinha de inveja. Arquiteto de formação, costuma fazer desenhos e esquemas gráficos antes de começar a escrever suas obras. “Me peguei pensando se eu conseguiria fazer um quadrinho”, conta. “Mas vi que era impossível, só de imaginar o trabalho que eles tiveram”, diz, garantindo que não interferiu no trabalho desses gêmeos.

“Só conversei com eles, não tenho ciúme nenhum do que escrevo.” Deu apenas seus pitacos, garante, no desenho final de Zana, a mãe dos irmãos do livro.

 

MULTIMÍDIA

Além da versão em quadrinhos, “Dois Irmãos” também vai virar minissérie na Globo, dirigida por Luiz Fernando Carvalho, com Juliana Paes, Antonio Fagundes e Cauã Reymond no papel dos gêmeos.

Outros dois livros do autor serão adaptados para o cinema: “Relato de um Certo Oriente” (1989), com direção de Marcelo Gomes, ainda não tem previsão de lançamento, e “Órfãos do Eldorado” (2008), de Guilherme Coelho, deve chegar aos cinemas no segundo semestre. O conto “O Adeus do Comandante” também ganhará uma versão, dirigida pelo cineasta Sérgio Machado.

Para Milton, é tudo uma questão de confiança. “A adaptação funciona um pouco como a tradução, você tem que confiar na pessoa.”

A roteirista Maria Camargo que o diga. Quando “Dois Irmãos” foi lançado, no começo dos anos 2000, ela trabalhava na Globo, garimpando textos para serem adaptados, e se apaixonou pela obra, a primeira que havia lido do autor.

“Ninguém deu muita bola naquela hora”, diz Maria. “Mas fiquei com aquela ideia fixa de adaptar o livro.” Sem espaço na emissora, a roteirista se apresentou pessoalmente ao escritor e mostrou um argumento para um longa inspirado na obra. “Milton gostou muito, mas o projeto não andou porque não foi aprovado pelo Ministério da Cultura.”

“Na época eu não tinha nem produtora, era só a pessoa física mesmo”, lembra Maria. “E ele acabou topando vender os direitos de adaptação para mim na base da confiança.” Alguns anos depois, o diretor Luiz Fernando Carvalho convenceu Maria a levar o projeto de volta para a Globo, onde se encontra em produção.

Além de escrever o texto da minissérie, ao lado de Luiz Fernando, Maria também trabalha nos roteiros de “Relato” e de “O Adeus do Comandante”. “Milton nunca teve um apego muito grande ao que escreve. Chegou até a falar que a minissérie nem precisava usar gêmeos, que por ele tudo bem.”

 

POLÍTICA, NEM MORTO

O perfil tranquilo e apaziguador do escritor é notado por muitas pessoas de sua convivência. Só perde a calma quando fala de política. “Os políticos de Manaus ficaram furiosos comigo porque dei uma entrevista ao ‘New York Times’ falando que era uma das cidades mais violentas do Brasil e que há bairros lá onde não posso nem entrar”, conta. “Mas é verdade, o que eu vou fazer?”

Da província à capital, as críticas continuam. “O Brasil sofre com uma série de problemas estruturais, um acúmulo de erros. Acho que deveríamos falar mais sobre isso. O que são Eduardo Cunha, Collor e Renan Calheiros senão a consequência de 21 anos de interrupção democrática?”, questiona.

Admirador de Graciliano Ramos, “pela sua postura ética, tanto na literatura quanto na política”, Milton não passa nem perto de cogitar a militância. “Tenho tios em Manaus que acham que eu deveria ser político, até parei de falar com um deles por causa disso”, conta. “Eu dizia que ele queria a minha morte. Não gosto de conchavo. A política tem um lado feroz que você tem que engolir. Tem que gostar disso.”

Sem meter o bedelho na política ou nas muitas adaptações de suas obras, sobra tempo para Milton se dedicar aos livros. Seu último romance, “Órfãos do Eldorado”, foi lançado há sete anos. O escritor hoje trabalha nos detalhes finais do livro “O Lugar Mais Sombrio”, o primeiro narrado por uma mulher e que aborda o exílio da personagem em Paris durante os anos 1970 e 1980.

A obra ainda terá uma espécie de “segundo volume”, que se passa em 1968. “Gastei os últimos sete anos trabalhando nessas duas narrativas”, diz. “Uma já está pronta, a outra ainda não sei se terminei, ou se estou terminando.”

“Sinto que o essencial de toda a minha experiência está nestes dois livros, se eu vier a publicá-los”, diz. E faz previsões sombrias para quem espera por mais narrativas suas. “Estou me preparando para não escrever mais. Não é fácil parar, mas eu certamente vou conseguir. Depois desses dois livros, talvez não tenha nada mais para dizer.” Difícil concordar com ele.

 

*Jornalista. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada E6, de 2903/2015.
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