Como disse uma vez Samuel Benchimol: “…o futuro da Amazônia passa por uma nova relação entre desenvolvimento e meio ambiente, permeada por um conceito e prática da sustentabilidade que deve ser socialmente justo, economicamente viável, politicamente correto e ambientalmente equilibrado”

Coluna Follow-Up

A Amazônia e o Cerrado pedem socorro. O negacionismo climático pode comprometer, sem retorno, as contribuições desses biomas ao país e ao planeta, e a qualidade de vida de nossa gente, assim como o negacionismo sanitário nos fez perder quase 600 mil brasileiros, com prejuízos incontornáveis para centenas de milhares de famílias. Ainda há tempo de corrigir este desequilíbrio, comprovadamente provocado pela ação humana, e manter nossa jornada de conquista de uma relação mais harmoniosa entre homem e natureza. O mesmo dilema da Amazônia padece o Cerrado, um Brasil açoitado pela política vesga da destruição. Na discussão sobre o papel da Ciência, nesse contexto e em tantos outros da civilização tropical, precisa haver mais Ciência, e mais investimentos em Ciência como a melhor saída, instrumento e esperança de uma nova consciência e de uma economia robusta e equilibrada.

Ações preventivas e corretivas

As concentrações de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, resultado da queima de combustíveis fósseis e de atividades agrícolas em formatos insustentáveis, impedem a dissipação de calor e ameaçam a sobrevivência humana na Terra. São combinações trágicas entre as sequelas do descompromisso negacionista e fenômenos naturais que se repetem com assustadora excepcionalidade. No que se refere à ação humana temos que acelerar as ações preventivas e corretivas e investir numa postura de pedagogia do clima, apostando no processo educativo das ações que favoreçam a saúde climática.

Amazônia do Futuro

A economia do Amazonas e de toda a Amazônia Ocidental contribui, de modo fortuito, para a conservação da floresta e sua biodiversidade. Mais do que nunca, além dos empregos e tributos gerados por nossa economia, é preciso apostar na diversificação de uma economia descarbonizada, que reduza drasticamente as emissões dos gases do efeito estufa. Estão contidos no programa Amazônia do Futuro as trilhas que nos desafiam. Trata-se de uma proposta de gestão pioneira e visionária da geração de emprego, renda e redução drástica de emissões.

Onde tudo começou 

Há 10 anos, com a mobilização de 70 atores atuantes na região, incluindo professores e pesquisadores da FEA/USP, UFAM, UEA, INPA, EMBRAPA, alertamos para a necessidade da diversificação de nossa economia – batizamos de novas matrizes econômicas – transformando nossos ensaios iniciados em 1998 – com o lançamento da pedra fundamental e início da construção do Centro de Biotecnologia da Amazônia, o CBA – em ações mais decisivas e agressivas na direção da Bioeconomia e da produção sustentável da piscicultura, fruticultura e agroecologia coerente com a economia descarbonizada do Polo Industrial de Manaus.

Arquipélago de Anavilhanas Novo Ayrão AM – Foto: Cristy Farias Lopes

Moysés Israel e Mário Guerreiro

Este evento encerrou a Mostra dos Pioneiros e Empreendedores da Amazônia e sua inserção na galeria do pioneirismo nacional. Este resgate de nossa economia – pós quebra dos dois ciclos da borracha na Amazônia – atraiu uma iniciativa da FEA/USP, doutorado de Administração, coordenado pelo Professor Jacques Marcovitch, no contexto da Gestão da Amazônia, que destacou a figura de Samuel Benchimol. Havia uma pergunta que desencadeou o célebre evento – que contou com a presença honrosa de Moysés Israel e do fundador do CIEAM, Mário Guerreiro: o que proporiam os pioneiros e empreendedores da Amazônia, que implantaram uma nova economia para o século XX, para o futuro da região?

Samuel e a saga do desenvolvimento

Pois bem: dez anos depois, as recomendações daquele encontro dos 70 novos promotores do desenvolvimento da Amazônia, podem ser sintetizadas no alerta do professor e empreendedor Samuel Benchimol e seus contemporâneos: “ … o futuro da Amazônia passa por uma nova relação entre desenvolvimento e meio ambiente, permeada por um conceito e prática da sustentabilidade que deve ser socialmente justo, economicamente viável, politicamente correto e ambientalmente equilibrado”.

Diálogos da Amazônia

Foi nesse contexto de diversificação e de novos desafios, e com a contribuição direta da família Benchimol Minev, que estudos de economia e econometria foram levados a efeito por uma equipe renomada de especialistas de altíssimo nível, coordenada por Márcio Holland. Foi, então, elaborado, com a colaboração e apoio da inteligência local, o estudo decisivo sobre o “Programa Zona Franca de Manaus, impactos, efetividade e oportunidades”. O passo seguinte foi a elaboração mais detalhada para diversificação e adensamento da economia do Polo Industrial de Manaus, com os estudos e resultados de debates obtidos com os Diálogos da Amazônia, da FGV. Estamos falando do Documento Amazônia do Futuro.

Debates e análises

São preciosos momentos de análises e debates com celebridades amazônicas e do cenário nacional, com 20 edições programadas para este ano e até aqui realizadas  12 edições. Amazônia do Futuro, lançado no final de julho, é um documento preliminar que está disponível no site da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas, no portal do CIEAM e do BrasilAmazoniaAgora. A ideia está centrada naquilo que ouvimos em muitos diálogos do Denis Minev e Daniel Vargas em artigo no Estadão, além de dezenas de estudiosos e empreendedores que reforçam a ideia que não há saída para Amazônia que não seja o desenvolvimento associado a sustentabilidade econômica e ambiental. Eis nossa mais robusta contribuição.

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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