O ciclo da borracha, ocorrido entre 1870 e 1914, foi um período de fausto e ostentação que transformou o ambiente amazônico. À época, segundo Márcio Souza, “Belém e Manaus mantiveram uma agitada vida cultural. Investiram na construção de óperas suntuosas, que acolhiam temporadas líricas anuais. O lado oficial desse período áureo era a paisagem urbana, a fortuna de ambas capitais amazônicas, onde imensas somas de dinheiro corriam livremente. O coronel da borracha, ou seringalista, seria o grande astro dessa comédia. Ele era o patrão, o dono e senhor absoluto de seus domínios, um misto de senhor de engenho e aventureiro vitoriano; o cavaleiro citadino em Manaus e Belém e o patriarca feudal no seringal. A face oculta do látex residia nas estradas de seringa, estradas secretas escondidas no infinito emaranhado de rios, onde o seringueiro vivia em condições abaixo do nível humano”.

No caso particular do Amazonas, as rendas de exportação da borracha enchiam os cofres públicos e o governo do Estado se esmerava em criar as melhores condições para transformar Manaus em uma cidade moderna. Segundo Selda Costa, “A aldeia decadente de 1850 despira-se de suas feições indígenas, desabrochara e transformara-se na pujante metrópole dos trópicos ganhando os noticiários do velho mundo”. Todavia, segundo Edinea Mascarenhas Dias, “O fausto da borracha, com suas noites brilhantes e sons alegres, não era capaz de esconder a miséria e a fome que rondavam a periferia da cidade. O outro lado triste e sujo do rosto de Manaus vinha estampado nas páginas policiais dos jornais, enquanto na primeira folha louvava-se a ‘calma’, a ‘ordem’ e a ‘tranquilidade pública’ da capital”.

O fato concreto é que a supremacia da borracha sofreu forte declínio com a concorrência promovida pelo látex explorado no continente asiático. A brusca queda do valor de mercado fez com que a maioria dos aviadores amazônicos fossem obrigados a vender toda sua produção em valores muito abaixo do investimento empregado na produção. A crise levou muitos deles à falência e endividou os cofres públicos. O Plano de Defesa da Borracha, editado no governo do presidente Hermes da Fonseca, em 1912, foi um paliativo, não resolveu o problema. Para variar, a grande guerra de 1914/1918 ampliaria ainda mais o quadro de isolamento.

Foi neste contexto marcado pela depressão econômica que nasceram a Universidade Livre de Manaus (1909), embrião da atual Universidade Federal do Amazonas; o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (1917) e a Academia Amazonense de Letras (1918).

********

Manaus absorveu quase todo o rush da borracha. Enquanto na capital o progresso fluía sem encontrar empecilho, as cidades interioranas continuavam mergulhadas no atraso. Melhor sorte teve Itacoatiara. Graças à sua posição estratégica, à margem do Amazonas e pouco distante da foz do Madeira, aquele período faustoso trouxe-lhe muitos benefícios nos setores social, econômico e cultural.

Entre 1870 e 1912 um clima de euforia tomou conta da antiga de Serpa. Às vésperas de receber foros de cidade, em 1874, passou a editar o primeiro jornal editado no interior e sediou uma alfândega imperial. Aos poucos foi ganhando uma forma estética, as ruas ordenadas, o casario reformulado. Centro médio de exportação de produtos regionais e comprador de mercadorias estrangeiras, sediou agências de navegação do Lóide Brasileiro, da BoothLine e da Amazon River, e casas de comércio com matrizes em Belém e no exterior. Vários seringalistas locais eram donos de embarcações propiciando-lhes uma perfeita interação entre a cidade e regiões produtoras de látex.

No Município de Itacoatiara não somente o setor econômico propriamente dito ganhou com o advento do período áureo da borracha. Este também refletiu positivamente nos setores político-administrativo, de informação e cultura em geral. Desde que instalada, até 1917, a cidade produziu 14 jornais, editados em maquinário próprio importado da Europa.

Na primeira década do século XIX, quando seus administradores começaram a nominar os logradouros públicos locais, três das principais ruas centrais foram aquinhoadas com os títulos de Igualdade, Fraternidade e Liberdade, aludindo aos ideais da Revolução Francesa de 1789 – prova de que a elite pensante da antiga Serpa era bastante atualizada. Tais denominações persistiriam até à proclamação da República.

A primeira leva de imigrantes judeus aportou na cidade no final do século XIX. Vinham somar com colonos portugueses e, mais tarde, com árabes, espanhóis, italianos, etc. Entre 1873 e 1920, face à enormidade de sua colônia lusitana, Itacoatiara sediou um vice-consulado português. Além da assistência social e humanitária prestada às famílias imigrantes, referida agência consular festejava febrilmente todos os anos a data nacional de Portugal.

A comunidade judaica, também em número bastante expressivo, que teve forte influência na política, no comércio e especialmente na exportação de borracha; que auxiliou na implantação da maioria dos prédios que compõem o centro histórico da cidade – durante anos disponibilizou a seus correligionários uma sinagoga e um cemitério.

O mais visível do chamado período áureo da borracha são os prédios históricos que ainda hoje destacam Itacoatiara no cenário urbanístico da grande região amazônica, conferindo-lhe o terceiro lugar no setor, antecedida apenas de Belém e Manaus.

A primeira exibição de cinema ocorreu em Itacoatiara quinze anos após a introdução do cinematógrafo em Paris, ou seja, em setembro de 1909. Nos anos subsequentes vários sucessos seriam apresentados: casos policiais, comédias e pequenos filmes “cantados” por músicos locais, postados atrás das telas.

Em 1913 o operador cinematográfico Pedro César Botelho atuou no Cine Teatro Virgínea, fundado no início daquele ano, e até 1915 privilegiaria seus frequentadores com a exibição de várias películas. Por outro lado, a empresa cinematográfica de Theodoro Dias & Cia., durante algum tempo, operou no Teatro Cinco de Setembro, fundado em meados de 1913. Ali, a 29 de junho do mesmo ano, o músico italiano Giuseppe Sandri deu um concerto de violino.

A 7 de Janeiro de 1918 foi exibido no Teatro Virgínea o filme “Judex”, drama policial, e dois dias depois “Os Vampiros”, obra do mesmo gênero. A mesma casa de espetáculos estreou em 2 de fevereiro de 1918 o filme “Enigma da Máscara” e, no dia 24 desse mês e ano, a película “Naná”, adaptada do famoso romance do escritor francês Emílio Zola – e entre seus espectadores estava o senador Silvério José Nery que, àquela altura, visitava Itacoatiara.

Por fim, releva informar que o antropólogo, etnógrafo e biólogo Manoel Nunes Pereira (1892-1985) ativou uma paixão por Itacoatiara, onde chegou logo após ter ajudado a fundar, em Manaus, a Academia Amazonense de Letras. Veterinário do Ministério da Agricultura, acumulou essa função em nosso Município, após nomeado em 1920  pelo superintendente Francisco Olympio de Oliveira (1920-1922) – e, por que decidira aprofundar seus conhecimentos sobre a natureza e as gentes amazônicas, deixou a função e foi fazer pesquisas nas regiões do Madeira, Maués, Autazes, Amatari e Urubu, que as visitou até meados de 1950.

Mais conhecido por Nunes Pereira, na velha Serpa o sábio maranhense fez-se amigo da elite local, participou de reuniões políticas e externou seu lado boêmio. Padrinho de um ilustre filho de Itacoatiara, Sebastião Higino de Vasconcellos Dias (mais tarde gerente local do Banco do Brasil e superintendente regional em Manaus), nesta cidade pôs em ordem o acervo histórico e iconográfico que colhera em suas andanças pelos sertões do médio Amazonas e, finalmente, foi aqui que ele escreveu a maior parte de seu monumental“Moronguetá – um Decameron Indígena”.

Como dito acima, Nunes Pereira “ajudou a fundar a Academia Amazonense de Letras”, integrando a lista de 30 personagens, homens da prosa e da poesia, naturais da terra e imigrantes que o ciclo da borracha carreara para o Amazonas, entre eles Péricles Moraes, Benjamin Lima, Adriano Jorge, Alcides Bahia, Álvaro Maia, Araújo Filho, Araújo Lima, HeliodoroBalbi, Huascar de Figueiredo, João Leda, Jonas da Silva, Raimundo Monteiro e Thaumaturgo Vaz – todos de saudosa memória.

É autor, dentre outros, dos seguintes livros: “O Pirarucu”, “A tartaruga verdadeira do Amazonas”, “O Peixe-boi da Amazônia”, “Os índios Maués”, além de sua obra mais conhecida, “Moronguetá”. Conviveu com os cientistas Roger Bastide e Claude Lévi-Straus. Além do português, do tupi-guarani, nheengatu, dominava o o inglês, o francês, o alemão e o italiano.

Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui