claudio bernardes
*Claudio Bernardes 

Três questões principais devem ocupar planejadores urbanos: habitação, ambiente e mobilidade

Segundo o relatório “Global Status Report”, de 2017, publicado pela ONU (Organização das Nações Unidas), nos próximos 40 anos, a demanda mundial para a construção de novos espaços nas cidades será de 230 bilhões de metros quadrados, o que significa adicionar ao planeta uma Paris a cada semana durante as próximas quatro décadas.

Esse espetacular crescimento físico das áreas urbanas não poderá ocorrer sem que as questões operacionais, energéticas e materiais ligadas aos processos construtivos sejam consideradas. Muito além disso, devemos decidir onde toda essa área será construída nas cidades e, dependendo da localização, compreender os efeitos sobre a movimentação das pessoas nesses espaços.

Com esse cenário impressionante, em que pesem os inúmeros problemas específicos de cada localidade, podemos afirmar que, na grande maioria das cidades do mundo, três questões principais devem ocupar o foco dos planejadores urbanos em um futuro próximo: habitações acessíveis, equilíbrio ambiental e mobilidade.

 

Deve-se consolidar a compreensão do papel da regulamentação do uso e ocupação do solo na viabilização econômica da produção de moradias e no controle da qualidade da ambiência urbana.

Aprofundar o entendimento dessas relações, identificando, com objetividade, os fenômenos de causa e efeito que as controlam, pode trazer novas perspectivas e caminhos para os atuais modelos de planejamento.

A estruturação territorial centrada nas pessoas é conceito defendido por muitos há algum tempo.

Contudo, a criação de modelos que possam identificar as necessidades emocionais e antecipar os sentimentos pode se constituir em ingrediente extremamente relevante para integrar a composição de um planejamento voltado para os cidadãos e as suas carências.

Os planejadores urbanos devem encontrar maneiras mais criativas de inserir o ambiente natural no tecido urbano. Bolsões de natureza, na forma de pequenas intervenções estratégicas, irradiam qualidade ambiental e podem oferecer pontos de alívio para as pessoas.

A segregação da população de mais baixa renda em zonas específicas da cidade, criadas para produção de moradias exclusivamente para esse público, deve ser revista. O aperfeiçoamento de conceitos e disposições que induzam fortemente a produção pela iniciativa privada de unidades acessíveis à população com menor renda em várias regiões das cidades, tendo como contrapartida incentivos urbanísticos ou outros mecanismos de fomento, deve resultar em modelos mais eficientes.

As mudanças climáticas, que têm resultado em frequentes alterações nos regimes pluviométricos, merecem atenção. As cidades precisam ser estruturadas para se tornar resilientes também sob esse aspecto, minorando, dessa maneira, as graves consequências que afetam regiões urbanas totalmente despreparadas para absorver esses tipos de impactos.

Pensar as macrometrópoles como um sistema policêntrico e equilibrado de cidades, que resulte numa nova relação entre áreas rurais e urbanas, é um caminho necessário. Da mesma forma, modelos institucionais novos e um arcabouço legal para governar e administrar as macrometrópoles precisam ser desenvolvidos. Como consequência, devem emergir novas formas de consumo de espaço, estilos de vida e rotinas de trabalho para os habitantes dessas regiões.

Na verdade, o rápido crescimento das áreas urbanas no mundo nos dá a chance de repensar o ambiente construído e sua operação com um olhar voltado para a resiliência, preservação e bem-estar das pessoas.

Esperamos que essa oportunidade de reflexão sobre o futuro nos permita entender como integrar as cidades à natureza de maneira mais inteligente, ao mesmo tempo em que enfrentamos os desafios mais urgentes da nossa era.

*Engenheiro Civil. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 25/02/2019.
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