marcelo coelho
*Marcelo Coelho

Criticas à visão de mundo petista, embora imprecisas, têm razão de ser. O que ‘pega’ no PT é a arrogância. 

Deixo de lado as visões mais paranoicas, do tipo: “Dilma está aliada com a Venezuela para implantar uma ditadura bolivariana”, ou “O PT ensina homossexualidade e marxismo para as criancinhas”.

Também não é preciso insistir no óbvio, como o desastre econômico destes últimos anos e o escândalo da Petrobras.

Tento analisar alguns argumentos teóricos contra o PT, formulados ocasionalmente por seus adversários mais sofisticados.

Há uma espécie de convicção sincera, mas não sistematizada inteiramente, de que o PT se dá mal com a própria ideia de democracia.

Um exemplo corrente dessa visão é a de que os petistas levam para a política uma atitude nociva, a do “nós contra eles”.

Seria, digamos, a tradução brasileira da teoria, claramente totalitária, de Carl Schmitt (1888-1985), que entendia a política a partir da dualidade “amigo-inimigo”.

Essa teoria é muito errada, a meu ver. Mas também não acho o caso de considerar absurda qualquer divisão do tipo “nós contra eles”. Em qualquer disputa, é natural que se pense nesses termos.

Além disso, há praticamente uma contradição lógica em condenar o “nós contra eles”. Basta completar a frase: “Eles” estão errados porque pensam em termos de “nós contra eles”. Evidente que, quando digo que “eles” estão errados, também estou dividindo o mundo entre “eles” e “nós”.

Mesmo assim, a ideia de que o PT “divide” a política em dois campos parece convencer seus adversários.

É que o tucano, muitas vezes com passado de esquerda e horror à ditadura militar, sente-se incomodado quando vê o PT repetir uma atitude que foi a sua durante as décadas de 1960 e 1970.

A saber, a de colocar o debate num plano moral, e não estritamente político ou técnico. É mais ou menos assim: o não petista pode achar necessárias algumas medidas liberais, a favor do capital estrangeiro ou do agronegócio.

O petista irá criticá-lo porque encara tais propostas como uma simples defesa de interesses privados –enquanto vê a si mesmo como defensor das classes menos favorecidas.

O tucano se sente, desse modo, acuado moralmente. Ainda que um aumento dos juros seja ótimo para quem tem muito dinheiro no banco, ele acha que isso é o mais racional a fazer, dadas as circunstâncias da economia e do sistema capitalista.

Sente-se injustiçado se o petista sugerir (mesmo sem ser tão explícito) que ele não passa de um “lacaio do capital financeiro”.

É fácil compreender a raiva do tucano quando, depois de sofrer tantas acusações morais, flagra o PT em casos de corrupção, sem contar os conluios com bancos, empreiteiras e capitalistas em geral.

Em todo caso, ainda que se entenda essa indignação, me parece duvidoso que o comportamento petista seja necessariamente antidemocrático por causa disso.

Aqui entra outro termo corrente no debate: o “projeto de poder”. Outros partidos se esbaldaram em roubalheiras. A do PT é pior porque está a serviço de um “projeto de poder”.

Mais uma vez, a caracterização me parece imprecisa. Todo partido tem seu “projeto de poder”, e a emenda que garantiu a reeleição de Fernando Henrique Cardoso (olhe que fui a favor) se revestia, ademais, de um personalismo indisfarçável.

O continuísmo é desejo de todo governante. Ataque à democracia, sem dúvida, foi fazer pagamentos diretos a deputados, como ocorreu no mensalão. Distribuir cargos entre aliados, contudo, é algo que não distingue o PT de seus adversários.

Novamente, o que “pega” no PT é a sua arrogância. As queixas dos partidos menores, a começar pelo PTB de Roberto Jefferson, e mais ainda durante o governo Dilma, é que os petistas sempre encaram seus aliados como oportunistas e fisiológicos, enquanto se colocam num patamar histórico e doutrinário superior.

Talvez até por isso, quando se entregam à corrupção, encarem tudo como um pacto faustiano. Não digo Lula, que é menos ideológico nesse ponto. Mas outros petistas assumiram a propina do mesmo modo com que, antes, assumiram a luta armada: tratava-se de conjurar forças diabólicas, na certeza de uma incorruptibilidade moral própria.

Isso machuca os adversários, mas não chega a ser antidemocrático. E, quanto à democracia, não acho que defender o impeachment ao lado de Bolsonaro seja exemplo de tolerância com resultados eleitorais.

*Jornalista e escritor. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada C8, de 27/04/2016.
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