O nome original da Academia
O nome original da Academia

“Impossível conhecer as verdadeiras razões, visto que nenhum deles se deu ao prazer de explicar o fato em qualquer artigo ou crônica”.

Durante muito tempo andei embatucado com o nome que, originalmente, foi conferido à atual Academia Amazonense de Letras quando, lá pelos idos de 1918, reunidos no salão de conferências do jornal O Imparcial, vinte e cinco escritores resolveram organizar uma entidade literária e de amor à arte sob a denominação de Sociedade Amazonense de Homens de Letras. E mais do que isso, por que dois anos depois resolveram modificar essa designação para Academia Amazonense de Letras.

Impossível conhecer as verdadeiras razões, visto que nenhum deles se deu ao prazer de explicar o fato em qualquer artigo ou crônica. Nem mesmo Pericles Moraes, um dos inspiradores da agremiação e que sobre isso escreveu artigo em 1946, nem ele esclareceu esse fato.

Depois de cascabulhar por todo canto, falar com um e outro dentre os mais antigos acadêmicos e não obtendo esclarecimento, parti para o campo da investigação mais incisiva levantando uma primeira hipótese: a existência precedente de entidade assemelhada no País. E não deu outra. Eis que a denominação original como a que se fixou, devem advir, antes de tudo, de influência francesa, berço de tais sociedades culturais e artísticas, especialmente as de culto ao idioma pátrio.

O Rio de Janeiro, centro da grande opinião literária e no qual conviviam os nomes mais exponenciais das artes, da política, das letras e do jornalismo desde pouco antes da transição dos séculos XIX e XX, aproveitando o burburinho dos cafés e conferências de escritores, centro de expressivo número de jornais e revistas, recheado de poetas em todas as esquinas e recanto em que parnasianos e simbolistas estiveram em rivalidade, foi ele o berço da ideia de criação de Sociedade de Homens de Letras.

A primeira entidade do gênero de que se tem notícia foi estabelecida ao tempo do Império, em 24 de agosto de 1873, denominada Sociedade de Homens de Letras do Brasil, criada por Olavo Bilac e Emilio de Meneses, bem a moda da Sociedade de Homens de Letras de Paris, da qual Maurice Bedel e Georges Lecornteforarn presidentes, na qual em reunião de 1878, em França, o barão de Sant Arma Nery como representante brasileiro defendeu o direito do autor de forma universal.

o germe dessa associação frutificou depois, com movimentos claros a partir de 1911, e os rumores nos jornais cariocas eram de que não teria feitio acadêmico, mas seria “sociedade de defesa, uma sociedade de luta e de trabalho”.

Organizada em 1914, a Sociedade inspirou outra no Recife, um ano depois, e permitiu o debate sobre o que seria o homem de letras e porque uma entidade somente de homens. Seriam, “poetas, jornalistas, romancistas … e toda a gente”, empregados públicos que são poetas, alfaiates medíocres que cultivavam os romances, soldados e bacharéis que são cronistas, padres que exploram o drama e a comédia, e “sapateiros que manejam melhor a pena do que a sovela … “., como diziam os jornais da época.

Pouco tempos depois, em Manaus, nos fins de 1917, ainda em dezembro, Benjamin Lima, Péricles Moraes e José Chevalier deram início ao movimento para criação de entidade congênere, firmada em 1 de janeiro de 1918, com o nome de Sociedade Amazonense de Homens de Letras, modelo francês bem próprio para cidade que pretendia ser a Paris dos Trópicos como sucedida com Manaus, cujos habitantes mais ou menos abastados viviam aspirando as viagens ao rio Sena e aos cafés e terrasses.

A isso juntou-se a homenagem prestada pela Société de Gens Letres de France, em junho de 1918, a Gaspar Guimarães, um dos fundadores da nossa Sociedade influenciando neste sentido. E assim ficou até 1920, quando Raul de Azevedo propôs a alteração para Academia Amazonense de Letras, tudo o mais nos moldes de Academia Brasileira. E só para homens.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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