O tempo a que quero me referir é aquele em que grande parte da população de Manaus se voltava a frequentar, por muitas noites seguidas, o estádio general Osório, tradicional campo entre a Avenida de Epaminondas e a Rua do Luiz Antony.

Não pense o leitor que vou tratar da vida e da obra pujante de Luís Alves de Lima e Silva, o herói nacional de grandes méritos. O tempo a que quero me referir é aquele em que grande parte da população de Manaus se voltava a frequentar, por muitas noites seguidas, o estádio general Osório, tradicional campo entre a Avenida de Epaminondas e a Rua do Luiz Antony, hoje cedido para o Colégio Militar.

Era sempre nesta época do ano, e todos éramos apropriadamente levados para os festejos das fogueiras e de São João e São Pedro, indo participar e prestigiar o Festival Folclórico do Amazonas, evento que se tornou tradição e foi criado nos anos 1940 pelo professor Mário Ypiranga Monteiro, no bairro da Cachoeirinha, creio que aproveitando a quermesse de Santo Antônio no arraial do Pobre Diabo.

Depois, ganhando o patrocínio de “O Jornal” e “Diário da Tarde”, do governo do Estado e da prefeitura de Manaus, mudando a forma de organização e com outros critérios, se transformou no famoso “festão do povo” e passou a embalar sonhos de vitória e se tornou rinha de grandes disputas entre grupos folclóricos, fossem tribos, pássaros, danças regionais, quadrilhas, cordões, brigues, boi-bumbá e garrotes, que se submetiam ao julgamento de especialistas como o próprio Mário Ypiranga, André Araújo, José Braga, João Corrêa, Herculano Castro e Costa, Guanabara de Araújo, Gebes Medeiros e João Walter de Andrade, dentre outros.

Era um grande espetáculo. A abertura davase com os desfiles de todos os grupos inscritos, presença de autoridades, políticos e grande massa popular que, animadamente, compunha torcidas organizadas das agremiações folclóricas ou, simplesmente, se dignavam a prestigiar o evento. Tenho firme na lembrança as minhas preferências, mesmo que ainda menino: bumbá Corre-Campo, tribo dos Andirás, garrote Luz de Guerra, dança do Tipiti.

Durante várias noites, e até alta hora, seguiam-se as apresentações no imenso tablado de madeira armado no centro do campo de futebol, especialmente, para o festival que era apresentado pelo jornalista Bianor Garcia e que, ao mesmo tempo em que estimulava e registrava as nossas mais caras tradições, animava a economia com as vendas em pequenas barracas com comidas típicas e brincadeiras próprias da ocasião e servia de pista de desfile para a moda junina, namoricos e paixonites.

Certa feita, animado pela participação no movimento escoteiro, compondo o Grupo “Ribeiro Junior” que funcionava no Sindicato dos Comerciários, em fases distintas sob a chefia de Roberto Kahane, Gonzaga Pinheiro, Edmilson Rosas, dentre outros, lá estive “patrulhando” a organização do festival. Uma dessas vezes vi a arquibancada se levantar em gritos exacerbados saudando o governador Plinio Coelho que, logo depois, deposto do posto de chefe do Poder Executivo, desceria a rampa de madeira do tabladão. E descia ovacionado… grandemente ovacionado.

Nada tirava o brilho da festa mais popular que conhecíamos. E muitas vezes fomos nós, estudantes do curso ginasial do Instituto de Educação e do Colégio Estadual do Amazonas que fomos dar mais brilho ao festão apresentando as danças dos Imperiais, do Aro, do Jacundá, o Tipiti, o Xote do Interior e a Dança do Congo, todas elas recolhidas e registradas por mestre Mário Ypiranga, ensaiadas por José Braga no IEA e avivadas pela nossa juventude.

Era uma grande animação brincar nas festas do santo das fogueiras e adivinhações, vestir as roupas bem tratadas e demonstrar a destreza apreendida em muitas horas de repetição e insistência, algumas vezes vencendo a monotonia que a própria dança exigia demonstrar e para a qual a música dolente acabava por nos conduzir.

Ainda tenho comigo a memória daquelas noites de grande alegria no tempo do general Osório que procurei reproduzir, anos mais tarde, quando organizei o festival na praça Francisco Pereira da Silva

Compartilhar
Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui