“(…) eis que fico a pensar se não está na hora de promovermos novo rufar de tambores à moda da euforia cívica que nos move como verdadeiros. brasileiros (…).

Foi ao ouvir o rufar dos tambores que deram o ritmo dos desfiles cívicos do dia da autonomia política do Amazonas, experimentando lembranças doces que me vieram ao coração por horas lindas de amor com a minha Rosa que, embora recolhido ao recanto da minha biblioteca em conversa íntima com meus fiéis amigos – os livros que me acompanham desde menino -, me dei conta, mais uma vez, deque recuperar os fatos da nossa história em exposição objetiva que sirva ao amplo conhecimento do povo como ainda se faz necessário.

Eis a razão pela qual entendi reavivar a memória dos que estudaram certas passagens da história amazonense, e lançar luz sobre as trevas que devem se abater sobre outro grupo que não teve a ventura de estudá-las ao tempo da escolarização “primária” ou “ginasial”.

Para começo de conversa é necessário dizer que foi árdua a luta dos nossos antepassados embusca da autonomia em relação ao Estado do Maranhão e ao Estado do Grão-Pará. Afinal, a região do Rio Negro, a mais distante dos confins da Amazônia, não tinha como ser governada de São Luiz ou de Belém, por muitas razões. Por vários motivos, principalmente o interesse da Coroa Portuguesa em nossas riquezas naturais, estivemosvinculados às Cortes, com deputados à Assembleia Constituinte de Portugal provocada pela Revolução do Porto, e, enquanto festejávamos essa libertação, o governo central do Pará tramava manter seu domínio sobre nós, acabando por conseguir.

Mudando de reinado, de Portugal para o Império do Brasil que estava sendo organizado naquele 1822, fato que, só conhecemos mais de um ano depois, resolvemos aderir e jurar respeito e submissão ao Imperador e salvador do Brasil, o senhor D. Pedro I,com base na Constituição do Império, e, mais uma vez, tivemos nossa libertação esmaga da pela fúria do governo central do Pará impondo nova submissão política, tudo por que, ele próprio, havia impedido de estarmos representados na primeira Assembleia Nacional Constituinte do Brasil quando boicotou as correspondências de José Bonifácio que convocavam o Rio Negro a se fazer presente naquele colegiado.

A luta continuou, quase insana, entre discursos no parlamento, tomada de armas com revoltas e rebeliões, embate nas Lajes do Rio Negro e muita confusão por entre interesses justos, injustos, legítimos e ilegítimos e com graves brigalhadas políticas entre civis, militares e religiosos, os mesmos que haviam expulsado outros estrangeiros de nosso rios admitindo, somente, a presença portuguesa nessa parte do “novo mundo das Américas”.

No Parlamento do Império e na Assembleia Provincial do Pará os projetos em defesa da autonomia amazonense se sucediam e sempre eram emperrados por forças que não se apresentavam com dignidade à luz do dia para serem combatidas. Os subterfúgios que costumam ser utilizados pelo poder político e pelos interesses econômicos foram retardando a nossa autonomia enquanto nosso trabalho ia bamburrando de patacas de ouro os cofres centrais do império e do Pará.

Depois de muito tempo, desde os gritos de liberdade mais antigos que ressoaram por primeiro pela voz e armas dos índios Manaó que eram os donos da terra que os brancos invadiram, destroçaram e dominaram, foi que o Parlamento do Império resolveu acolher projeto de lei que criava a Província do Amazonas de forma autônoma à do Pará, estabelecia governo próprio para a região rionegrina e nos permitiria sonhar com o que chamamos de desenvolvimento.

Foi sonho e foi realidade durante algum tempo, progresso, crescimento e decadência, mas não temos do que nos arrepender porque, sem dúvida, passamos a errar e a acertar por nossa conta e risco. Traçado um paralelo com as atuais investidas sobre nosso território e patrimônio, desde os discursos e ameaças de “santos” internacionais a anúncios de medidas salvadoras da economia nacional com base no corte e desmontagem de nosso parque industrial, eis que fico a pensar se não está na hora de promovermos novo rufar de tambores à moda da euforia cívica que nos move como verdadeiros brasileiros que a tudo resistem para, de uma vez por todas, fazermos o Brasil assumir que é um País amazônico antes de tudo. Que rufem os tambores da nossa nacionalidade brasílico-amazônica!

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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