*Djamila Ribeiro

Nós, brasileiros, somos perseguidos pelos fantasmas que não foram devidamente enterrados na história.

Nessa última semana, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul hasteou em sua sede a bandeira do Brasil Império, “como sinal de reconhecimento aos ideais libertários e de respeito à Constituição”. Em 1822, marco da homenagem do órgão aos “ideais libertários”, a população negra era escravizada e seguiu sendo durante a grande parte do século 19.

No Facebook e no WhatsApp, uma corrente de fake news em curso há mais de ano “informa” as pessoas que dom Pedro 2º era um bravo líder que “por mais de 40 anos lutou contra poderosos fazendeiros pela abolição da escravatura”.

Quem quiser ver Pedro 2º na versão romântica, como um líder sensato, que respeitava a população negra no último país a abolir a escravidão na América, basta ver a novela das seis da maior emissora do Brasil.

Cenas da novela ‘Nos Tempos do Imperador’

Pilar ( Gabriela Medvedovski ), Jorge / Samuel ( Michel Gomes ), Luisa Condessa de Barral ( Mariana Ximenes ), Dom Pedro II ( Selton Mello ) e Teresa Cristina ( Letícia Sabatella ) João Miguel Júnior/Globo

Jerusa (Carolina Ferman) e Floriano (Lucci Ferreira) jogam Tonico (Alexandre Nero) Globo

Floriano (Lucci Ferreira) descobre traição Globo

Floriano (Lucci Ferreira) flagra Tonico (Alexandre Nero) e Jerusa (Carolina Ferman) Globo

Somos transportados a um outro país. É realmente engraçado o que uma liberdade de roteirização pode fazer. Como diz um provérbio africano: “Até que os leões tenham seus próprios historiadores, a história da caça sempre glorificará o caçador”. Pessoas negras não detêm concessões públicas, nem poderio econômico para criar as suas próprias novelas.

Como nos ensina Chimamanda Adichie, em “O Perigo da História Única”: “É impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo -‘nkali’. É um substantivo que se traduz ‘ser maior do que o outro’. Como nossos mundos econômico e político, histórias também são definidas pelo princípio do ‘nkali’. Como é contada, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder”.

Como vivemos uma história única contada há décadas no país de “Escrava Isaura”, “Sinhá Moça”, “Terra Nostra” e tantas outras produções, os brancos no poder do regime escravista se tornam os mocinhos da história. Nem parece que vivemos no último país da América a abolir a escravidão. Nem parece que foi o mesmo país que massacrou populações negras quilombolas e indígenas, que manteve “leis para inglês ver”.

Seguindo com Chimamanda, “poder é a habilidade de não só contar a história de outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa. O poeta palestino Mourid Barghouti escreve que se você quer destituir uma pessoa, o jeito mais simples é contar sua história, e começar com ‘em segundo lugar’. Comece uma história com as flechas dos nativos americanos, e não com a chegada dos britânicos, e você tem uma história totalmente diferente. Comece a história com o fracasso do estado africano e não com a criação colonial do estado africano e você tem uma história diferente”.

Parece que foi em outro país que o Brasil Imperial instituiu como política pública o incentivo da vinda de imigrantes europeus, como forma de branquear a população. Uma política formulada por teóricos do racismo científico, que acreditavam que a população negra era biologicamente inferior à branca.

Ao mesmo tempo, vemos intelectuais ressentidos com o protagonismo negro no debate público, em vez de aceitar que precisam estudar autores negros e abrir mão de falácias argumentativas para justificar seus racismos. O ostracismo deve doer a ponto de se abrir mão da honestidade intelectual para impor aquilo que se quer provar.

Realmente a branquitude não se enxerga, pois se recusa a reconhecer os lugares construídos a partir da opressão de outros grupos, a pauperização histórica da população negra que possibilitou a concentração de renda nas mãos brancas, a tentativa de culpabilização de pessoas negras por um sistema que as oprime. É uma total inversão lógica, ética e política.

Como já escrevi aqui, fazendo referência à artista multidisciplinar Grada Kilomba, a escravidão e o colonialismo, enquanto histórias mal-resolvidas, funcionam como fantasmas.

Fantasmas comumente são vistos como aqueles espíritos errantes com fim traumático e que ficaram presos ao plano terreno. Seguimos assombrados pelos fantasmas que não tiveram seus devidos fins, não foram devidamente enterrados. Não houve rituais fúnebres condizentes, então eles permanecem, nos assustam, mas a verdade é que sempre estiveram aqui, em um país que se recusa a enfrentá-los.

Temos o fantasma do marco temporal em um país que não respeita os povos indígenas; o fantasma do golpe em um país que nunca condenou os torturadores da ditadura e ainda os homenageia com nomes de ruas; temos o fantasma do colonialismo, que mata e persegue a população negra e que tenta pôr algozes como heróis, que faz com que seja possível intelectuais racistas julgarem que sabem teorizar sobre racismo sem investigar seu próprio grupo racial, e tantos outros fantasmas que fazem do Brasil um país mal-assombrado.​

*Mestre em filosofia. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 09/09/2021.
Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui