No mundo dos brinquedos

“Quem escolher para nos governar: algum super-herói teimoso, que diz resolver os problemas pela força; os vingadores dos mais pobres que desejam mantê-las pobres para melhor manobrá-las?

Em pleno tempo de luta no cipoal partidário e político em busca do poder, quando alguns prometem por prometer, outros prometem de propósito para enganar e poucos falam a verdade e o que sentem, fui cumprir uma das missões mais gratificantes dos últimos anos: comprar presente para o neto mais velho, menino levado e inteligente.

Adentrando a loja, mais uma vez percebi o mundo de ilusão e fantasia no qual as novas gerações estão vivendo encantadas com os filmes e seriados pela televisão, vídeos e revistinhas, mas, sobretudo, pela diversidade de brinquedos de todos os tipos, cores, gêneros, formas, tamanhos e funções. Um mundo verdadeiramente a parte da realidade que nós, adultos, estamos presenciando nesse País que segue quase à deriva, batendo água como velho batelão prestes a ser abandonado no porto de lenha.

O meu mundo de brinquedos era bem outro.

Verdade que já faz algum tempo, mas nada me sai da lembrança, talvez porque aquelas eram alegrias que brotavam de coisas simples como o carrinho de rolimã, o trator-de lata de leite, a bola de meia, a perna de pau, o jogo de varetas, o velocípede, o jogo de damas, o time de botão feito de caroço de tucumã ralado na pedra, engraxado com primor e lustrado com cera de carnaúba, no qual jogavam todos os grandes craques da seleção brasileira campeã do mundo. Como era bom ver saltear a bola de ping-pong de um lado para outro, sem velocidade e força, como se fosse menina elegante doida para mostrara roupa nova, desfilando diante dos nossos olhos.

Não tinha super-heróis. Ficava contente com as revistas do Zorro, Tio Patinhas, Zé Carioca, Mickey, Capitão Marvel e outros personagens que não passavam de figurinhas animadas com as quais conversava sem pressa como se as horas não fossem passar. A descoberta do “pequeno príncipe”, lido e relido sem cessar, mesmo quando ainda precisava soletrar algumas daquelas palavras difíceis de entender, alargou a minha curiosidade e fez brotar mil perguntas, muitas das quais o próprio “príncipe” veio responder anos mais tarde, depois de uma dezena de leituras quando jovem e quando adulto.

Na loja de hoje pude ver como a meninada fica impressionada e sem saber o que comprar. Alguns desejam levar a loja inteira. Outros se debatem na dúvida cruel de qual brinquedo escolher dentre a enorme variedade, cada qual com seu mistério, seu sabor e sua razão de ser. A sedução é que preside a decisão e, não raro, o chororô acaba presidindo a escolha, às vezes tomada depois de muitas idas e vindas por prateleiras e corredores à procura de tudo.

Enquanto o mundo infantil se depara com essa indecisão na seleção do brinquedo para festejar o aniversário, nós estamos diante da necessidade de tomar importante decisão que vai repercutir no futuro imediato do País e desses meninos e meninas, porque é agora que preparamos o amanhã que vão viver. Tanto quanto eles, alguns de nós estamos sem saber o que fazer diante desse cenário tenebroso em que nos vemos envolvidos no campo político-eleitoral.

Quem escolher para nos governar: algum super-herói teimoso, que diz resolver os problemas, pela força; os vingadores dos mais pobres que desejam mantê-los pobres para melhor manobrá-los; alguém que diz que ordenará os serviços e imporá moralidade pública; os velhos ou novos caciques; ou qualquer um porque no fundo no fundo todos seriam iguais? Creio que vou ouvir as crianças, pois elas acabam escolhendo o melhor presente.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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