(Discurso proferido por Elson Farias, na noite de 21 de novembro corrente, na Academia Amazonense de Letras, em sessão comemorativa ao Jubileu de Ouro Acadêmico do autor) 

Peço permissão para que me concedam narrar a minha trajetória até chegar a esta Casa. Vim de avião catalina, aeronave anfíbia alvo da sensação de viajar numa igarité a remo,nas suas manobras no rio antes de alçar voo. Nasci num lugar onde não existia luz elétrica. A noite era iluminada por lamparinas, faróis e luz de vela. Mas na casa do meu pai existia uma pequena biblioteca. Lembro-me de três livros: O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, O moço loiro, de Joaquim Manuel de Macedo e uma História Sagrada, feita pelos educadores Salesianos,destinada a ensinar a Bíblia às crianças. Os dois primeiros livros me atraiam por sua feição gráfica, impressos em brochura, exalando, ainda, um cheiro de papel misturado com tinta. NaHistória Sagrada prendeu-me o zelo pelas figuras de Deus e dos santos, em ilustrações coloridas. Foi o primeiro livro lido e relido. O encantamento abriu-me um espaço na imaginação.A magia daquelas vidas sobrenaturais despertava-me uma elementar manifestação de poesia. Mas, em verdade, o meu mundo estava no Paraná de Serpa, no grande rio Amazonas, na floresta cheia de pássaros e nas águas brilhando de peixes, onde o meu pai construiu a nossa casa.Estava na mesa de carpinteiro do tio Luís, instalada sob o cacaual na beira do rio. Havia umpássaro vistonuma única vez voando pelo cacaual, jamais esquecido por seu nome exótico,chamado tangurupará, também conhecido porchora chuva de cara branca, arisco à baladeira dos meninos. Noutro dia vi chegar uma revoada de borboletas multicoloridas, para se juntar às outras que viviam por ali voando de flor em flor. Mais tarde aprendi sobre a função das borboletasno meio-ambiente. Onde existem muitas borboletas é sinal de uma boa natureza, permanentemente renovada com o pólen distribuído por esses insetos voadores todo o tempo. No Roseiral existiam muitas borboletas. Aí se iniciou a minha caminhada.

Em Itacoatiaratomei contato com a civilizaçãofora dos livros. O incômodo foiusar sapatos. Aquilo me comprometia o conforto e a liberdade, habituado em andar sobre as folhas secas descalço ou sobre o verde do capim novo.Conheci a maravilha da energia elétrica, a iluminação da cidade e das casas, o cinema e o sorvete. Por onde andava ia aprendendo a ler e a apreciar o mundo com olhos bem abertos. Olhos que fizeram guardar na fantasia o movimento da cunhantã descendo e subindo os caminhos para apanhar água no rio Uatumã e, mais tarde, nesse mesmo rio,os recém-casados num banho surpreendentemente singular. No Paraná de Urucará apanhei patos do mato. No rio Uaicurapá tive notícia de um lugar chamado Tauacuéra, designação decidade abandonada em Nheengatu. Dizia-se na redondeza ser esse um lugar perigoso de caminhar, posto nele existirem, cobertos pelo mato, enormes poços fornecedores de águas aos antigos moradores, talvez indígenas, cavados na terra firme efatais a quem fosse tragado por eles. O povo contava isso com o tom respeitoso de uma lenda.

Em Parintins se encerrou a infância e ganheicalça comprida.Jamais deixei de ler tudo o que me caia às mãos. Serviu-me ao hábito da leitura a biblioteca da cidade que funcionava em uma das salas da Prefeitura. Aí encontrei o livro de poemas intitulado Ritmos da inquieta alegria, de Violeta Branca. Com um grupo de colegas fundamos um grêmio literário. Criamos uma biblioteca e lançamosum jornal mimeografado, objetodas primeiras dores de cabeça no lidar com as pessoas. O objetivo de A flama, esse o nome do jornal, era divulgar as nossas coisas, crônicas, poemas e contos. Mas, determinado dia, para que o jornal ganhasse calor e maturidade, aconteceu de um dos colaboradores criticar o banheiro de um salão de bilhar existente na cidade e necessitando de uma boa limpeza. O filho do dono do estabelecimento não gostou da reportagem e foi tomar satisfação com o nosso colaborador. Por fim entre idas e vindas conseguimos restabelecer a paz entre as duas partes e, também, um melhor tratamento da higieneno banheiro daquele salão de bilhar.

Em Parintins, ainda, se deuo primeiro contato com a Academia, por meio das suas revistas com exemplares distribuídos entre nós peloPadre Raimundo Nonato Pinheiro, chegado à cidade para dirigir a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo. Era um dos pares mais conhecidos desta Casa. Nos domingos pela manhã após a missa, ele participava das nossas reuniões no Grêmio e um dia propôs a criação do Centro Cultural de Parintins,com a ideia de se lançar ali a semente da futura Academia Parintinense de Letras. Nos meus 18 anos eu e os meus colegas do Grêmio Estudantil Castro Alves, assumimos cadeiras no Centro. Já estava na idade adultae me lancei, também, à candidatura de um lugar na Câmara de Vereadores.Por fim, conquanto tenha conseguido uma boa votação entre os candidatos, o meu partido não obteve legenda capaz de eleger sequer um Vereador. Perdi a eleição, mas concretizei o meu sonho de vir para Manaus, trazido por meu tioJosé Feliciano Michiles, que, embora fosse filho do empresário e político José Bernardo Michiles, Presidente da Província do Amazonas em 1867,não me queria ver metido em política.

Em Manaus a minha primeira ocorrência mais séria foi assistir a uma solenidade de posse na Academia. Seu presidente, o mestre Péricles Moraes, em tom grave e solene profere um breve discurso na abertura da sessão. Mais tarde, o Dr. Djalma Batista, seu contemporâneo, contou-me que o mestre Péricles chamava esses pequenos discursos de palavras sacramentais. Em verdade ele presidia as sessões da Academia como se cumprisseum ritualsagrado. E não se tratava de um gesto gratuito, mas a expressão de uma postura simbolista em relação às letras e artes vivenciada pelo grande ensaísta. O movimento Simbolista é um fenômeno francês eclodido nos fins do século XIX e alvorecer do XX. Herdeiro do Romantismo e reformador do Parnasianismo que se fundamentava numa visão de mundo orientada pelo realismo e naturalismo, o Simbolismo valorizava o lado espiritual da vida e na literatura o sentido musical do estilo. São notáveis os poetas simbolistas, desde os franceses Baudelaire, Verlaine e Mallarmé e os brasileiros Cruz e Souza, Affonso de Guimarães e Augusto dos Anjos, este último um dos precursores do modernismo brasileiro. Não se tem às mãos, do ponto de vista histórico, nenhum prosador simbolista. Na França floresceram na prosa, figuras de divulgadores simbolistas como Camille Mauclair e Remy de Gourmont, também poetas e críticos de literatura e de música. Remy de Gourmont, com quem mestre Péricles manteve correspondência cordial,no seu francês escorreito de que era professor, é autor de uma obra intitulada Carta à Amazônia, quem sabe motivada por seu amigo brasileiro da Amazônia, embora cuide das relações entre as Amazonas mitológicas.Por sua vez, Camille Mauclair foi objeto de análise de sua obra e personalidade, num dos maisbelos ensaios enfeixados no seu livro de estreia Figuras & Sensações. Por fim, pode-se indicar o mestre Péricles como um dos raros autores que, sem ser poeta em verso, comoo Cruz e Souza de Missal, produziu prosa simbolista em seus ensaios, legitimados na concepção e no estilo musical. A música, também, foi um dos temas objeto de seus estudos.

E por aí fui, sempre correndo atrás dos meus interesses pelas letras.Integrei-meao Movimento Madrugada onde assimilei uma visão nova da literatura e a prática da poesia moderna.Tal encontro fez-me jogar no fogo uma coletânea inédita de poemas escritos sob a influência do romantismo e do parnasiano-simbolismo, ainda praticada no fazer literário de então. Observei que existia visível diferença entre os madrugadores que trabalhavam numa linha maispróxima aos Ritmos de Violeta Branca, a primeira mulher a tomar assento em uma das cadeiras da Academia, e os acadêmicos, num fenômeno acentuado mais pelo conflito de gerações, entre os novos e a velharia.Os jovens madrugadores, no entanto, faziam justiça e alimentavam respeito por muitas figuras de relevo da Academia, comoÁlvaro Maia, André Araújo, o mestre Péricles Moraes, Ramayana de Chevalier e Djalma Batista, entre outros.

Enfim, no troarde polêmicas acirradas e nos aplausos e afagos entusiasmados, as gerações em conflito fizeram as pazes eos madrugadores passaram a integrar esta Casa, chegados em revoada.Verificava-se a controvérsia num ponto de confrontação estética nem tanto mais radical. É mais forte na Academia o pensamento simbolista e houve poetas como Genésio Cavalcante e TH. Vaz, que publicaram poemas em verso livre na primeira edição da revista da Academia em 1920, o verso livre convertido em bandeira dos poetas da Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922. Havia uma disposição de não hostilizar as novas tendências de pensamento e do fazer literário. A Academia era, sim, uma instituição representativa de nossa cultura. O Acadêmico André Araújo foi quem fez o prefácio de Aparição de clown, livro de poemas do madrugador L. Ruas. Tomei posse no dia 3 de fevereiro de 1969, na cadeira no. 12 de Olavo Bilac, quando ainda repercutiam, no meio intelectual amazonense, os festejos dos 50 anos do Silogeu amazonense. Fui trazido pelas mãos do Dr. Djalma Batista e recebido pelo Professor José Lindoso.Muito aprendi no convívio com os meus novos pares. O mestre José Lindoso mantinha vivos o pensamento e a mensagem de Álvaro Maia,defensor dos princípios de valorização do homem amazonense e da sua caboclitude, na política e na literatura. Genesino Braga me disse uma vez que escrevia a lápis, geralmente à noite, com uma borracha por perto. Grafava e apagava repetidamente palavras, frases ouperíodosinteirosno preparo dos seusescritos, à procura da expressão que lhe respondesse ao raciocínio ou à emoção sobre o tema e o motivo de realização do texto. Foi um excelente exemplo do aspecto artesanal utilizado na criação literária. Acompanhei ospassos do Dr. Djalma Batista na realização doseu livro clássico O complexo da Amazônia: análise do processo de desenvolvimento.Segui de perto osprocederesdeacabamento datilográfico dos seus originais. Testemunhei a primeira providência do Dr. Djalma ao levantar a imensa bibliografia de tudo o que se tinha escrito sobre a Amazônia na elaboração do livro de sua vida.Utilizou-se de sua própria biblioteca e da biblioteca do INPA, o maior acervo brasileiro sobre temas amazônicos, contando para isso com a assessoria da notável bibliotecária Algenir Ferraz. Tomei consciência do sentido profissional da atividade literária, que me vinha na cabeça desde o alerta de minha mãe ao me indagar se eu ganhava alguma coisa com aquilo, ao manusear o meu segundo livro de poemas e do modo como se comportava o meu amigo e confrade Luiz Bacellar, ao conceber a atividade literária como uma profissão.

No Clube da Madrugada e na Academia, vim sedimentando a consciência do papel da literatura na sociedade. Tomei ciência da visão da poeta portuguesa Natália Freire, no poema A defesa do poeta, expressa em seus dois últimos versos:

“Ó, subalimentados do sonho!
A poesia é para comer”.  

Percebi, no entanto, que há outras dimensões noconhecimento da poesia.A poesia constitui um processo de transformação da realidade. É a expressão de ideais e de ideias. E, por esse meio de procedimento a poesia despoja-se dos sonhos convencionais alimentados pelos desejos puramente individuais, para revelar as aspirações e os conflitos da sociedade. Como instrumento de realização individual o exercício da poesia aparelha a imaginação de novos instrumentos de entendimento dos fatos e da paisagem real onde se movem. Se tudo andasse bem na vida não havia necessidade do poema.  A insatisfação com as coisas é que move a máquina da poesia.Lembra-me da experiência daquele homemque, ao descobrir o sentido de poesia, passou a ver a paisagem como se fosse do avesso, do seu lado ainda desconhecido e aconteceu de usufruir de uma nova experiência de vida.

Compreendi, então, que a poesia não é feita só para comer, numa atitude racional, mas, também, é feita para transformar as coisas nos impulsos da emoção.

É tudo isso que está dito agora no livro Águas do dia e da noite, uma coletânea de ensaios a ser lançada amanhã, de autoria de membros desta casa e dos Cursos de Letras das Universidades do Amazonas.

Permitam-me dar uma informação sintética sobre os autores do livro.

Pela ordem apresentada está a introdução à coletânea assinada por minha irmã, a Profa. Dra. Maria do Socorro Santiago. Sobre o livro de memórias cuida o Acadêmico e Prof.M.E Zemaria Pinto.A poesia está sendo interpretada pelos seguintes especialistas: a Profa. e M.E Maria Luiza Germano de Souza; a Profa. Dra. Nicia Petreceli Zucolo; o Prof. Dr. Allison Leão; o Acadêmico e Prof. Dr. Marcos Frederico Krüger; o Prof. Dr. Fadul Moura; e a Profa. Dra. Rita Barbosa de Oliveira. A prosa de ficção está sendo apreciada pelo Prof.M.E José Benedito dos Santos e o Prof. Dr. Paulo Cesar Thomaz. O estudo sobre a literatura infanto-juvenil é assinado pela Profa. Dra. Auricléa Oliveira das Neves. A ensaística é analisada pelo Prof. Dr. José Aldemir de Oliveira e a Profa. M.E Hellen Caroline de Jesus Braga. Finalmente, encerrando o volume o Acadêmico, Prof. M.E Tenório Telles apresenta uma carta sobre poesia ou um devaneio sobre a poética no mundo.

Estou profundamente agradecido por fazer jus ao saber e a atenção dos professores e pesquisadores dedicados ao estudodos meus textos, integrando-os ao corpo do conhecimento examinadosob as luzes da ciência da literatura.

Agradeço aos confrades da Academia, por sua generosidade em aprovar o registro do meu Jubileu de Ouro Acadêmico nos anais da Casa, num gesto efetivo de fraternidade, que ratifica o conteúdo fraterno de confrade, com que nos conduzimos no relacionamento de uns com os outros, palavra derivada de irmão.

Agradeço a dedicação da confreira Marilena Correa,do confrade Sérgio Cardoso, que realizou um belo filme sobre o evento, e, mais uma vez do confradeZemaria Pinto,que organizou a coletânea Águas do dia e da noite.

Eles, enfim, constituíram a comissão designada para coordenar o evento pelo Presidente Robério Braga, afinal o fazedor deste momento. O atual gestor da Academia é um dos mais reconhecidos administradores de iniciativas artísticos de alto nível como o Festival Amazonas de Ópera. É de justiça reconhecer em seu trabalho, o seu esforço de homem de governo na criação de instituições dedicadas à formação de artistas e a formulação de políticas destinadas a valorizar e conservar o nosso patrimônio histórico e cultural.

Estamos todos muitoreconhecidos: a minha esposa Roseli, companheira e colaboradora de todos os momentos, aquela que ao cuidar mais de perto da educação e manutenção da família, ainda reserva tempo dedicado a revisar os meus escritos. Falo em nome dos meus filhos Marcelo, Klarisse e José Eugênio e dos netos Elson José, Vicente Roberto, Marcelinho, Marcela, Pedro e José Filipe.

Podeis acreditar Senhor Presidente Robério Braga, senhoras e senhores acadêmicos, minhas senhoras e meus senhores, que estamos todos profundamente agradecidos.

*Poeta e ensaísta. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores do Amazonas e da Academia Amazonense de Letras. Nascido em Itacoatiara é uma das glórias dessa cidade.
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Elson Farias
*Poeta e ensaísta. Ex-presidente da União Brasileira de Escritores do Amazonas e da Academia Amazonense de Letras. Nascido em Itacoatiara é uma das glórias dessa cidade.

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