fernanda torres
*Fernanda Torres

É impressão minha ou abriram as portas do inferno e jogaram a chave fora?

Coronavírus, recessão mundial, geosmina no Guandu, tempestades bíblicas, mortes e o prefeito do Rio culpando a população pela própria tragédia. Marcha cívica contra o Congresso e o Supremo, dólar batendo os R$ 5, bananas distribuídas ao léu pelo presidente da República e Trump em vias de ser reeleito. Greve de policiais encapuzados no Ceará e Cid Gomes tomando tiro, munido de uma retroescavadeira.

É impressão minha ou abriram as portas do inferno e jogaram a chave fora?

A literatura tem me servido de refúgio, mas é um prazer solitário. No Carnaval que passou, preferi me valer do cinema e do sexo para aliviar as tensões.

Foi meu cônjuge quem me apresentou a “Love”, um filme de 2015 do cineasta argentino, atualmente radicado na França, Gaspar Noé.

Feito para ser exibido em 3D, “Love” narra a paixão obsessiva de um estudante americano por uma francesa ardente. O amor suicida pelas ruas de Paris faz lembrar o “Último Tango” de Bertolucci, mas é o rigor de Stanley Kubrick, a centralidade gráfica dos enquadramentos do gênio, que Noé persegue.

O filme causou furor no Festival de Cannes, devido às cenas de sexo explícito, com ejaculações em close, xoxotas peludas penetradas por paus eretos, felações, masturbações e orgias em tempo real, capazes de corar as faces do mais liberto dos cinéfilos.

“Love” provoca tesão e angústia involuntários. Eros e Tânatos bem medidos. “Eu quero fazer filmes de sangue, esperma e lágrimas”, diz o personagem principal, aspirante a cineasta, explicitando o desejo do diretor.

Cena de “Love”, dirigido por Gaspar Noé Efe

Cena de “Love”, produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira e dirigido por Gaspar Noé Efe

AomiMuyock (esq.), Gaspar Noé, KlaraKristin e Karl Glusman na projeção de “Love” em Cannes Anne-Christine Poujoulat

O filme foi tratado com desprezo na puritana América, que considera o sexo violento e a violência sexy. A crítica considerou as atuações bidimensionais, ou seja, rasas, apesar do sexo em 3D. Eu não.

Fingir orgasmos é um dos grandes constrangimentos da labuta cotidiana do ator. Já passei pela experiência, sei o que digo, e reconheço valor e coragem nos desempenhos de “Love”.

Em geral, filma-se a cópula por meio de posições mecânicas, que imitam a forma e o sentimento sem nunca alcançar a coisa em si. A maioria das películas, lá pelas tantas, deita seus heróis em lençóis macios, escondendo o membro masculino entre sombras, pelos pubianos idem, enquanto as mulheres expostas gemem um prazer hipócrita.

Cumprido o ritual, o hiato, o quase intervalo comercial, a trama retoma o curso normal. Em “Love”, o sexo é a própria essência do filme, parte inseparável do drama dos personagens, e é retratado com crueza e elegância, como poucas vezes vi no cinema.

No insuportável “9 Canções”, os atores também trepam a vera, mas o nheco-nheco é constrangedor, tedioso e vulgar. Desliguei no meio, com vergonha alheia dos envolvidos, o que não acontece com a obra de Noé.

No excelente “Azul É a Cor Mais Quente”, de AbdellatifKechiche, o sexo impressiona, é quase real, não fossem as vulvas de plástico que protegiam as atrizes. Mas o sadismo do cineasta é tamanho que o sentimento que fica é mais de desespero do que de gozo.

Em “O Último Tango em Paris”, a icônica cena da manteiga fez história, até ser condenada como estupro. Mas ela é nada, se comparada à do baile, que dá título ao filme.

Bertolucci não revela a punheta que Maria Schneider bate em Marlon Brando num canto escuro, debaixo da mesa, mas o estado de loucura que se estabelece em seguida, com os dois rodando bêbados, trôpegos, entre os pares do salão, é a mais bela trepada já registrada pelo cinema europeu. E olhe que estão todos vestidos.

“Love” não chega a tanto, e nem alcança a grandeza perturbadora de “O Império dos Sentidos”, de Nagisa Oshima. Eu ainda era virgem quando assisti a ele pela primeira vez e nunca mais me recuperei.

E para encerrar a lista de antídotos cinematográficos para o horror vigente, cito outra descoberta do meu périplo carnavalesco: o suspense de 1973 “Inverno de Sangue em Veneza”, de Nicolas Roeg.

A desenvolta, quente, longa e convincente cena de sexo entre Julie Christie e Donald Sutherland é entrecortada pela imagem do casal já recomposto, no quarto de hotel, se arrumando para sair. O silêncio e a edição estupenda transportam o ato para a memória da dupla, evidenciando a intimidade, o amor e o companheirismo dentro do casamento. É bonito pra cacete.

Encarada com naturalidade por dois atores consagrados, a cena é atestado tanto do caráter libertário da época, como do recente encaretamento geral das nações.

Para reverter o quadro, só seguindo a recomendação de Heleno. Fodam-se.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 08/03/2020.
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