*Giuliana Miranda 

No aniversário de 200 anos do fim da Santa Inquisição em Portugal, um movimento considerado decisivo para a ampla liberdade religiosa em território luso, foi assinado o protocolo de criação de um novo museu que contará a história dos judeus no país.

Batizado de Tikvá, que significa “esperança” em hebraico, o Museu Judaico será instalado em Belém, em frente ao Tejo.

Com uma área de quase 4 mil m2, o museu vai retratar os quase dois mil de história dos judeus em Portugal, além de assinalar a cultura e as tradições do povo.

O projeto é assinado pelo arquiteto americano Daniel Libeskind, que tem uma longa experiência no assunto.

Libeskind foi responsável pelo design dos museus judaicos de Berlim, São Francisco e Copenhagen, e também pelos memoriais do Holocausto na Holanda, no Canadá e nos Estados Unidos, além da reconversão do Ground Zero do World Trade Center, em Nova York.

As obras estão previstas para começar em 2022, com abertura em 2024.

O protocolo foi assinado nesta quarta-feira (31) pela Câmara Municipal (prefeitura) de Lisboa e pela Associação sem fins lucrativos Hagadá.

“Não é um museu de judeus, mas sim um museu português que conta a uma história específica: a vida dos judeus em Portugal, uma história judaica e portuguesa”, explica a Associação Hagadá.

O prefeito de Lisboa, Fernando Medina, afirmou que o futuro espaço faz uma “afirmação política muito clara” da defesa dos valores de convivência e respeito entre as culturas como “elemento chave de uma sociedade”.

Embora o museu judaico fosse um antigo projeto da cidade, a localização do centro de exposições foi motivo de controvérsia. A ideia original era instalá-lo na região de Alfama, onde existia o bairro judeu, conhecido como judiaria, mais antigo da cidade.

Já profundamente afetados pela atividade turística (ao menos em tempos pré-pandemia), moradores da região se mobilizaram contra o local escolhido. Associações de defesa do patrimônio também apontaram problemas. Em meio a processos judiciais, o museu foi então transferido para Belém, em uma área que já se encontra livre.

Segundo a Câmara Municipal de Lisboa, no local onde se pretendia construir o museu, será feito um memorial ao povo judeu.

LONGA HISTÓRIA

Presentes em Portugal desde praticamente sua fundação, os judeus têm uma longa tradição, e histórico de perseguições, no país.

Um dos episódios de maior violência aconteceu no centro de Lisboa, em abril de 1506, na chamada matança de Páscoa. Milhares dos chamados cristãos novos foram agredidos em mortos.

A instalação oficial da Inquisição no país, em 1536, trouxe ainda mais perseguição aos judeus.

Como forma de reparação histórica, Portugal oferece aos descendentes dos judeus sefarditas que foram expulsos de seus territórios a possibilidade de ter a nacionalidade portuguesa., uma decisão que beneficia muitos brasileiros. 

*Jornalista. Matéria na Folha de São Paulo, de 31/03/2021.
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