fernanda torres
*Fernanda Torres

Garanto que museus, orquestras, grupos de teatro, circos e a dança sentem falta de uma política cultural consequente.

Hildebrando me detesta.

Hildebrando promete desistir da Folha, mas segue com a assinatura, acompanhando meus artigos para, depois, largar o dedo no teclado.

Hildebrando me xinga de esquerdopata, de inteligentinha e militante, de marxista tucano-petralha e dissimulada. Conforme escreve, a ira aumenta, retroalimentando a desancada.

“VAGA-BUNDA”, desabafou ele. Tenho quase certeza de que foi ele, ou então o Napoleão, que segue a mesma toada. Não deu para conferir, porque o texto foi removido da lista de comentários, por infringir as regras do site do jornal.

Achei curiosa a divisão das sílabas. Ela sugere uma bunda a vagar, ou uma bunda vaga, vazia. Creio que a intenção do hífen era a de esgarçar mesmo a palavra, a fim de sublinhar o desprezo que Hildebrando tem por mim. “VA-GA-BUN-DA”, foi assim que interpretei.

Hildebrando me pergunta se sinto falta da Lei Rouanet, a boa e velha Rouanet, o cala boca da classe artística.

A lei, criada para democratizar o acesso à cultura e fomentar a economia criativa, acabou por servir a interesses espúrios, não de artistas, mas dos que se dedicam a encontrar brechas na legislação para sustentar esquemas vis.

Hildebrando acredita que eu e minha mãe, sim, porque, na raiva, minha família entra toda no pacote, que eu e dona Fernanda sonhamos com a volta do PT, para continuar a mamar nas tetas.

Hildebrando não sabe que abrimos mão da Lei Rouanet há mais de 15 anos, muito antes da eleição de 2018.

Assim como as passeatas de 2013 -originadas no campo da esquerda, com protestos pelo aumento das passagens de ônibus, e findadas no pato da Fiesp-, os primeiros ataques à Lei Rouanet se baseavam numa falsa divisão entre artistas consagrados e anônimos.

A crença de que os famosos açambarcavam os recursos dos demais colegas ignorava o fato de a Lei Rouanet ter nascido para corrigir a tendência dos antigos patrocínios culturais, feitos com o dito dinheiro bom, de marketing das empresas, de privilegiar artistas renomados. Uma vez implementada, a lei direcionou todo o setor para o guichê da isenção fiscal, nos tornando dependentes do Estado.

Foi durante essa primeira onda de animosidade que desisti da Lei Rouanet, tanto por desconfiar do seu mau uso por oportunistas de ocasião sem nenhuma relação com a arte, quanto pela disseminação do discurso do nós contra eles, dos dignos contra os indignos. Com a guinada do país para a extrema direita, não tardou para que a pecha de mamadores se estendesse para toda a classe, e que a Lei Rouanet fosse usada para nos emudecer.

Não, Hildebrando, eu não sinto falta da Lei Rouanet, há tempos, procuro existir sem ela. Mas garanto que muitos museus, orquestras, grupos de teatro, circo e dança carecem desse instrumento e de uma política cultural consequente.

A cultura é um grande ativo, Hildebrando, ela é o caráter de um país. A cultura emprega, educa e gera dividendos, além de devolver em impostos, como acontece em outros setores produtivos, o crédito a ela confiado.

Diante do caos na política, na saúde e na educação, nas relações exteriores, no meio ambiente e na economia, eu nem me atrevo em falar de cultura. Eu sei que você não acredita, mas não estou defendendo o meu quinhão.

Você cita uma foto minha e de minha mãe com Sérgio Cabral. Cabral, o cleptomaníaco, corria para ser fotografado com gente idônea. Cabral surgiu depois de quase duas décadas de governo Garotinho e parecia ter um plano de recuperação para o Rio de Janeiro, mas era só outro pirata interessado em repartir o butim do erário público.

Sinto, em você, um enorme ressentimento. E ele tem razão de ser. Entra governo e sai governo não conseguimos nem sequer resolver a carência de saneamento básico. Mas, acredite, o capitão não é a solução dos seus problemas. Pior, ele os agrava.

Não é preocupante, Hildebrando, que nessa semana, com o país batendo a marca de 4.000 mortos ao dia por Covid, que o capitão, num delírio antidemocrático, tenha se voltado até contra as Forças Armadas? Ou você considera as altas patentes afastadas tão esquerdopatas quanto eu?

Quando você começou a me agredir, poucos leitores rebatiam os seus insultos. De um tempo para cá, no entanto, os comentários das minhas colunas se transformaram num debate aberto. Chamam você de gado, de minion, de zebu, bozofrênico e neandertal. Está todo mundo indignado, você não está sozinho.

Mas, se isso lhe acalma, Hildebrando, se lhe faz sentir melhor, pode me enxovalhar. Descarrega. Eu continuarei aqui, rezando para nós dois chegarmos vivos a 2022.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 03/04/2021.
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