*Juca Kfouri 

Torcedores do Flamengo estão à espera do Dia do Fico de dois ídolos.

Mais dois anos e lembraremos, em 9 de janeiro, o bicentenário do Dia do Fico, aquele em que o príncipe regente D. Pedro desobedeceu às ordens da matriz lusitana e resolveu permanecer no país. Daí para o 7 de setembro de 1822 foi um pulo, e ele logo proclamou a independência do Brasil.

Se foi ruim ou bom são outros 500, mas até hoje há quem pregue e espere a volta da monarquia.

Ficar ou não ficar é quase um ser ou não ser.

Dúvida individual entre ir ou não ir.

Quando vontade coletiva, voltada para alguém que se quer que fique, ou vá para bem longe como certos obscurantistas fascistoides.

Os santistas queriam a manutenção de Jorge Sampaoli, não deu certo, e agora torcem para, daqui a um ano, quererem a permanência de Jesualdo Ferreira -e que ele não seja tão enigmático como o conterrâneo Jorge Jesus.

A maior torcida brasileira roga: JJ, fique.

Ele retribui com palavras gratas ao tratamento dado pela nação, mas parece se achar mais importante que o clube da Gávea e brinca de vir e ir.

Enquanto isso, Sampaoli costeia o alambrado, à espera de algo inesperado para já ou, talvez, para maio, quando termina o contrato do português.

Os jornalistas da Terrinha (atenção: expressão carinhosa e aqui usada por neto de avó materna de Trás-os-Montes) que o conhecem, e admiram, há mais tempo dizem ser colossal a vaidade de JJ e ele ter a característica de estressar seus grupos.

Em meio ano de ótimos serviços prestados ao time rubro-negro, a vaidade ficou clara, mas, em vez de grupo estressado, ele montou foi uma equipe forte e confiante, “em outro patamar”, no dizer simplório, e verdadeiro, de Bruno Henrique.

Vaidade dentro de limites não chega a ser pecado, principalmente se não se transformar em arrogância.

Jorge Jesus deve entender que sua inestimável contribuição ao Flamengo, por maior que tenha sido, e foi, ainda é menor que a contribuição do clube a ele. Jamais estaria passando por sua cabeça eventuais convites da dupla de gigantes espanhóis, Real Madrid e Barcelona, não fosse o destaque obtido pelas conquistas flamenguistas.

Ações e expressões de Jorge Jesus à beira do gramado

No dia primeiro de junho de 2019, o Flamengo anuncia a contratação do técnico português. Antes, em 2018, ele treinou o Al-Hilal, da Arábia Saudita, sua primeira experiência fora de Portugal Diego Vara – 28.ago.2019/Reuters

Jorge Jesus esbreveja à beira do campo na vitória do Flamengo sobre o Cruzeiro por 2 a 1 no Mineirão Washington Alves/21.set.19/Reuters

Após a goleada de 5 a 0 sobre o Grêmio e a vaga garantida na decisão da Libertadores, Jesus saúda torcida com os jogadores no gramado do Maracanã Sergio Moraes/23.out.19/Reuters

E quando diz preferir a Espanha à Inglaterra, não é porque Madri e Barcelona ficam um pouco mais perto de Lisboa, mas porque omite a razão principal da preferência, o fato de não falar inglês, pecado mortal para o europeu -e a mesma barreira também para os monoglotas treinadores brasileiros, entre outros motivos.

Se não bastasse a dúvida sobre o futuro do misterioso Jesus, e ser preciso vê-lo desembarcar no aeroporto do Galeão para dissipá-la, há ainda Gabriel Barbosa, o Gabigol.

Depois de quebrar a cara ao ir para Inter e Benfica, e brilhar ao voltar para Santos e Flamengo, o artilheiro sente a vontade de tentar novamente. É compreensível, embora o mais sensato seja ficar, amadurecer, tirar a máscara, diminuir o nível de irresponsabilidade em campo, lutar por vaga na Copa do Mundo e, depois de virar adulto, buscar novos espaços onde quiser.

Registre-se a atitude da direção rubro-negra ao buscar possíveis substitutos à altura de Gabigol e a confiança absoluta na volta de JJ, pelo menos até maio.

Lembremos, no entanto, na gestão anterior, do colombiano Reinaldo Rueda, que acabou por deixar o Flamengo a ver navios.

Que JJ seja leal e, como Pedro, não o Rocha que já está, mas o de Alcântara, fique.

*Jornalista esportivo. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno de Esporte, de 09/01/2020.
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