Quando se viaja de Manaus para Boa Vista passamos pela linha do Equador. A experiência acontece após as terras dos Waimiri-Atroari. Não se passa pela reserva indígena no período noturno. Não se pode parar na estrada nas áreas da reserva.

Houve negociação e acordos entre a União e a tribo após o triste episódio ocorrido nos anos setenta. De um lado morreram cerca de 200 soldados flechados pelos índios que não queriam a estrada. A reação do exército foi dramática e de certa forma cruel. Foram mortos mais de mil indígenas.

Passar pela linha do equador é sempre uma aventura. A paisagem sempre muda. Do nosso lado, ao sul do Equador e ainda no Estado do Amazonas, a floresta parece ser bem mais densa.

A cidade de Macapá no distante Amapá é uma das cidades do mundo em que a famosa linha está presente. Aqui na América do Sul, além do Brasil, o Equador e Colômbia tem esse privilégio geográfico. Na África ela atravessa o Congo, Gabão e Quênia, antes de chegar a Somália. E aí vai pela Indonésia, considerando-se que a maior parte da linha do Equador cruza os oceanos.

É sabido que pelos poucos países onde ela passa não existem as estações do ano. As temperaturas são constantes durante todo o ano e as chuvas são bastante constantes também.

Meu amigo Chaguinhas quando adolescente foi a Europa de navio. Não esqueceu a experiência de cruzar o Equador pelo Atlântico. Houve uma festa a bordo. E deram a ele um certificado.

Apesar do mar parecer hegemônico. Não é. Chaguinhas me disse que aprendeu lendo um livro de Amir Klink que em função das diferenças de temperatura, as massas de ar e água circulam no sentido sul-norte até a linha do Equador, e depois começam a descer pela costa brasileira.

E continuou me explicando;

-Ninguém cruza a linha do Equador impunimente. Tudo muda. A água por exemplo, escorre pelo ralo no sentido horário no Hemisfério Sul e pelo sentido anti-horário no Hemisfério Norte. O céu muda. Aqui se vê o Cruzeiro do Sul. No norte a constelação de referência é a Ursa Maior. As estações do ano são invertidas.

Há uma música de Carnaval de Chico Buarque que diz: “não existe pecado do lado debaixo do Equador”. Será?

Chico Buarque se inspirou neste ditado que segundo os historiadores, corria na Europa desde o século 17. Refere-se, obviamente, a suposta liberdade sexual havida nos tempos coloniais.

O carnaval vem aí. Mas hoje os tempos mudaram. Ou não!

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Pedro Lucas Lindoso
*Bacharel em Direito e licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Membro efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Pertence a Associação dos Escritores do Amazonas e a Academia de Letras Ciências e Artes do Amazonas. Membro fundador da Academia de Ciências e Letras jurídicas do Amazonas.

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