*Maria Hermínia Tavares

Apego a ideias arcaicas impede que o país volte a ter relevância internacional nas questões ambientais.

A vitória de Joe Biden abre uma fresta de esperança de que se possa evitar a catástrofe climática provocada pelo aquecimento do planeta. O esperado retorno dos EUA ao Acordo de Paris, a disposição da União Europeia a abraçar uma agenda de recuperação econômica verde e o compromisso unilateral da China com a descarbonização total até 2060 dão margem a moderado otimismo.

Nesse quadro, o Brasil poderia voltar a ser um ator internacional relevante, numa das poucas arenas nas quais tem trunfos consideráveis. Para tanto, porém, o governo teria de abandonar a sua tola atitude negacionista, munindo-se de ânimo e aptidão para conter o desmatamento, a fim de proteger a Amazônia e sua biodiversidade -o cerne de nossa questão ambiental.

Apesar da limitada capacidade estatal de fazer cumprir as regras existentes, o país tem um bom marco legal e bons instrumentos de monitoramento -ainda que deliberadamente debilitados pela dupla Bolsonaro-Salles. Obstáculo tão ou mais importante é a concepção de soberania nacional que enquadra o pensamento dos militares no governo em relação ao meio ambiente.

Há pouco, o Conselho Nacional da Amazônia Legal, presidido pelo vice, Hamilton Mourão, ao lado de uma agenda de temas relevantes -combate aos ilícitos ambientais e estímulo à inovação e à bioeconomia-, debateu um documento revelador. O texto fala da gula das grandes potências e organizações internacionais pelo estoque de recursos hídricos do país e o suposto conluio entre entidades ambientalistas e governos europeus. No mesmo tom, durante a reunião se propôs o controle das ações das ONGs presentes na região, em nome do interesse nacional.

Brasil em chamas

Município de Claudia no estado de Mato Grosso envolta em nuvem de fumaça causada pela queima ilegal em uma área de Reserva Ambiental, durante expedição da Rainforest Foundation para monitorar a produção de soja no Brasil e sua relação com o desmatamento. Victor Moriyama/Rainforest Foundation Norway

Morador rural do município de Claudia no estado de Mato Grosso acompanha a operação de combate ao fogo, queima ilegal em uma área de Reserva Ambiental, durante expedição da Rainforest Foundation para monitorar a produção de soja no Brasil e sua relação com o desmatamento. Victor Moriyama/Rainforest Foundation

Incêndio consome o Cerrado durante expedição da Rainforest Foundation para monitorar a produção de soja no Brasil e sua relação com o desmatamento; segundo fotógrafo o poder do fogo com o vento mostra a força da natureza. Victor Moriyama/Rainforest Foundation Norway

toda pressão externa visa o acesso a nossos recursos estratégicos e que organizações não governamentais -ou mesmo populações indígenas- estão prontas a servir à ganância estrangeira cria uma linha de defesa contra inimigos imaginários e tolhe a capacidade de mobilização necessária para uma ação eficaz.

Há no Brasil forças valiosas -na opinião pública, na sociedade organizada, no empresariado e nos governos subnacionais- capazes de dar lastro a iniciativas comprometidas com a sustentabilidade, o que transformaria cobranças em apoio externo concreto. Mas, sem aposentar ideias arcaicas, fortalecer os meios de monitoramento e controle, incorporar a experiência das comunidades locais e das organizações ambientalistas enraizadas há décadas na região, e ainda sem recursos internacionais, as vistosas operações militares e os pronunciamentos do vice-presidente serão apenas jogo de cena, em prejuízo do país.

*Professora e pesquisadora. Matéria na Folha de São Paulo. Caderno Opinião, de 12/11/2020.
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