Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Livro de Daniel Levitin alia teoria e neurologia para entender o cérebro humano diante das ondas sonoras.

Ouvir música se tornou uma atividade tão banal e onipresente que é preciso esforço deliberado para perceber a complexidade cognitiva que existe por trás daquilo. Para quem deseja dar uma sacudida nessa familiaridade enganosa, o livro “A Música no seu Cérebro”, do psicólogo e neurocientista americano Daniel Levitin, é um achado e tanto.

Apesar de breve, a obra funciona tanto como uma introdução bastante didática à teoria musical quanto como apresentação dos desafios de estudar o cérebro humano. Não é pouca coisa, mas o surpreendente histórico profissional do autor ajuda.

Levitin abandonou seu primeiro curso universitário para tocar numa banda e, depois que o grupo terminou, passou uma década atuando como produtor musical nos Estados Unidos, tendo a oportunidade de trabalhar com engenheiros de som que recebiam artistas como Santana e Whitney Houston em seus estúdios. A curiosidade que ele tinha sobre questões como os detalhes finos da percepção musical, a natureza do talento e as origens da criatividade fizeram com que ele voltasse à universidade e iniciasse sua carreira acadêmica.

Como o especialista aponta, nas últimas décadas emergiu uma desconexão curiosa entre o ato de ouvir música e o de produzi-la, ao menos na maior parte do mundo. Ficou tão fácil ter acesso a “conteúdo musical” (para usar a linguagem anódina das plataformas virtuais) que a imensa maioria das pessoas apenas consome música passivamente, sem nem sonhar em tocar um instrumento ou mesmo cantar (fora do chuveiro).

Não foi assim que a coisa funcionou ao longo da maior parte da história da nossa espécie, no entanto. Tudo indica que a nossa predileção instintiva por ritmos e melodias é pelo menos tão antiga quanto a origem do Homo sapiens e, quase sempre, era algo que acontecia em contextos comunais ou familiares. Quem ouvia música também quase sempre era capaz de fazer música –cantando, batendo os pés no chão, tocando instrumentos simples ou mesmo mais elaborados.

Entenda as diferenças entre instrumentos históricos e atuais

Trompa clássica, instrumento que integra o naipe dos metais. Difere das trompas modernas por não ter válvulas, que modificam o caminho do ar Karime Xavier/Folhapress/Folhapress

Flauta transversal clássica, feita de madeira, diferentemente das flautas modernas, que são feitas de metal. Os instrumentos de madeira anti Karime Xavier/Folhapress/Folhapress

Clarinete clássico, feito de buxo, madeira mais leve e macia que o ébano, do qual são feitos os clarinetes modernos. O clarinete antigo poss Karime Xavier/Folhapress/Folhapress

Trompete natural, como o que era usado no final do século 18 e começo do século 19. Na versão antiga, não possui as válvulas que, nas versõ Karime Xavier/Folhapress/Folhapress

Com as mudanças nesse cenário, pessoas comuns passaram a se sentir cada vez menos à vontade na hora de entender como uma música funciona, e é essa barreira inicial que Levitin tenta vencer com seu curso rápido de teoria musical no começo do livro (o leitor pode ficar tranquilo: mesmo os que não sabem a diferença entre nota e acorde devem passar com tranquilidade).

Essa introdução já é o suficiente para mostrar qual o grande tema do livro: como a música funciona uma janela privilegiada para entender a capacidade de abstração do cérebro humano.

O psicólogo cognitivo Daniel J. Levitin, autor de ‘A Música no Seu Cérebro’, publicado no Brasil pela Companhia das Letras – Arsenio Coroa/Divulgação

De fato, essa é a grande mágica. Um exemplo banal: como diabos conseguimos reconhecer sempre a indefectível melodia de “Für Elise” (a música de Beethoven que antigamente era tocada por todo santo caminhão do gás Brasil afora), seja quando é gerada por um pianista habilidoso num instrumento bem afinado ou pelos sintetizadores toscos de um celular antigo?

Entre um extremo e outro de competência musical, praticamente tudo muda, em especial o timbre (basicamente o lado qualitativo do som, que vem da maneira como ele é produzido –pelas cordas vocais de uma pessoa ou pelas cordas de um violão, por exemplo). Mesmo assim, o cérebro consegue captar a “essência” da melodia a partir do sistema de inter-relações entre as notas (grosso modo, a variação entre notas mais graves e mais agudas ao longo do tempo) e cravar: sim, isso é “Für Elise”.

A música também abre portas importantes para a compreensão dos elos entre expectativas, memórias e emoções. É bem sabido que certas combinações de notas musicais são capazes de provocar reações emocionais distintas, e que isso ocorre de modo mais ou menos independente da cultura à qual o ouvinte pertence.

Ao que tudo indica, é o contexto emocional que faz certas músicas se tornarem tão fáceis de recordar, assim como acontece com outras memórias de tipo não musical. O porquê de fenômenos como esses terem se tornado tão importantes para todas as culturas humanas ainda é um mistério. Mas o livro é uma excelente maneira de chamar a atenção para a complexidade que se esconde por trás do mais simples dos refrões.

(Tradução Clovis Marques)

II

Cartas em tupi traduzidas pela 1ª vez mostram visão indígena sobre formação do país

Conjunto de seis cartas escritas em 1645 é um dos documentos mais preciosos do Brasil colonial.

[resumo] Conjunto de seis cartas de 1645 no idioma tupi, único registro indígena em sua própria língua nos primeiros séculos da colonização, acaba de ser traduzido integramente para o português pela primeira vez. Textos permitem enxergar pela perspectiva da tribo potiguara as batalhas dos colonos contra a ocupação holandesa no Nordeste.

“Aîmondó benhe xe nhe’enga”, ou, em português, “Envio de novo minhas palavras”: assim começa um dos documentos mais preciosos do Brasil colonial, parte de um conjunto de seis cartas no idioma tupi escritas entre agosto e outubro de 1645.

A pequena coleção de mensagens, que acaba de ser integralmente traduzida pela primeira vez, é o único registro de indígenas colocando sua própria língua no papel durante os primeiros séculos da colonização do país.

Os textos são, além disso, testemunhos de uma guerra civil que dilacerou tanto o Nordeste como um todo quanto a tribo dos potiguaras, cujo idioma materno era o tupi. Essa etnia vivia em um território litorâneo que ia da Paraíba ao Ceará, e pertenciam ao grupo os autores e os destinatários das missivas.

Brasil tupi 

Carta de Felipe Camarão a Pedro Poti, de 19 de agosto de 1645, em tupi antigo, traduzida agora para o português por Eduardo Navarro, profes Reprodução

Carta de Felipe Camarão a Antônio Paraupaba, de 4 de outubro de 1645, em tupi antigo, traduzida agora para o português por Eduardo Navarro, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP Reprodução

As cartas foram traduzidas por Eduardo Navarro, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e um dos principais especialistas em tupi antigo do país.

A pesquisa de Navarro sobre os textos deve ser publicada em breve em artigo no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. “Graças a Deus terminei”, brinca ele. “Creio que dei conta de resolver 99% dos desafios dos textos, se não todos.”

As cartas foram escritas durante a Insurreição Pernambucana, revolta organizada pelos colonos de origem portuguesa no Nordeste contra a ocupação holandesa da maior parte do litoral da região, que já durava 15 anos.

Ao longo desse período, alguns dos chefes potiguaras tinham se aliado à Holanda e se convertido ao protestantismo, enquanto outros permaneciam fiéis a Portugal e à Igreja Católica. As mensagens documentam a tentativa do segundo grupo, que contava entre seus líderes o militar Antônio Felipe Camarão (1600-1648), de convencer os demais potiguaras a abandonar a aliança com os holandeses.

Os documentos foram preservados pela Companhia das Índias Ocidentais, espécie de multinacional do comércio holandês que se apossara do Nordeste. Armazenadas na Biblioteca Nacional de Haia, as cartas são conhecidas dos historiadores brasileiros desde o fim do século 19, mas só uma delas já tinha sido traduzida integralmente até hoje.

Parte do mistério tem a ver com o fato de que, durante muito tempo, o conhecimento sobre o tupi antigo no Brasil tinha sido precário, com pouco acesso aos documentos a respeito da língua produzidos na época colonial (em geral por missionários jesuítas, como José de Anchieta) e poucos estudos sistemáticos, conta Navarro, ele próprio autor do “Dicionário de Tupi Antigo”.

“A ortografia também era instável, já que era uma língua usada quase sempre oralmente, no cotidiano. Algumas palavras que deveriam ser escritas juntas estão separadas, e vice-versa. O lado paleográfico [os maneirismos da escrita da época, como letra, abreviações e pontuação] também oferece algumas dificuldades”, explica.

O descobrimento do Brasil em 15 imagens históricas

Pedro Álvares Cabral, navegador creditado como o descobridor do Brasil Reprodução

Pero Vaz de Caminha imortalizou-se como o escrivão do documento escrito entre os dias 22 de abril e 1º de maio de 1500 e destinado ao rei de Beto Barata – 2.out.2000/Folhapress

Outro desafio é que os autores das cartas -além de Felipe Camarão, a lista inclui Simão Soares, Diogo da Costa e Diogo Pinheiro Camarão- não devem ter sido alfabetizados em tupi, mas provavelmente em português.

Isso significa que, na hora de escrever, eles parecem ter registrado seu idioma materno “de ouvido”, usando uma ortografia puramente fonética (imagine alguém que só conhece a forma falada do português escrevendo “táxi” como “tácsi” ou “táquissi”, por exemplo).

Por que, então, adotar esse método improvisado? “Porque era a língua deles, eles pensavam em tupi”, diz Navarro. Além disso, os destinatários das mensagens, como Pedro Poti, tinham sido alfabetizados em holandês (Poti chegou a passar cinco anos na Holanda antes de voltar para o Brasil com a frota que conquistou o Nordeste).

Não adiantaria, portanto, escrever para eles em português, mas o tupi continuava a ser um meio comum de comunicação entre os dois lados da guerra civil potiguara. Ironicamente, as respostas de Pedro Poti e dos demais potiguaras aliados da Holanda não foram preservadas nos arquivos portugueses.

Em suas mensagens, não por acaso, Felipe Camarão tenta apelar para o senso de identidade comum entre todos os potiguaras. “Por que faço guerra com gente de nosso sangue, se vocês são os verdadeiros habitantes desta terra? Será que falta compaixão para com nossa gente?”, questiona ele.

lustração que faz menção à ocupação holandesa na Cidade do Cabo (Àfrica do Sul) e ao estabelecimento da Companhia Holandesa das Índias Orientais no local, que abastecia navios com comida, água e remédios – Reprodução

“Nossas antigas terras, nossos velhos ritos, nossos parentes paraibanos, os de Cupaguaó, os de Uruburema, os de Jareroí, os de Guiratiamim, todos os antigos filhos dos habitantes da caatinga, tudo e todos estão sob as leis dos insensatos holandeses, assim como seu corpo e sua alma também estão”, declara Camarão em outra carta. “Eu novamente farei vocês estarem bem, perfeitamente de acordo com seu modo de vida de antigamente”, promete.

Além de permitir enxergar os detalhes do cenário histórico pela perspectiva dos indígenas, as cartas também são uma janela para entender a evolução linguística do tupi.

Um exemplo é o uso do gerúndio em construções equivalentes a “estou falando” em português. Navarro conta que o padrão original do tupi era inverter essa lógica. Dizia-se “falo estando”, com o mesmo significado de “estou falando”.

Nas cartas, porém, aparece uma construção seguindo o padrão da língua portuguesa, possivelmente por influência do idioma europeu.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 04/12/2021.
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