* Phillippe Watanabe

Releitura de obra de Portinari faz homenagem a brigadistas que enfrentam o fogo pelo país.

Andando pelo centro da cidade de São Paulo você pode se deparar com cinzas da floresta amazônica, do Pantanal, do cerrado e da mata atlântica. Elas estão no mural cinza feito com uma aquarela de cinzas idealizado pelo artista e ativista Mundano, em uma releitura do quadro de 1934 “O Lavrador de Café”, de Cândido Portinari, que destaca o trabalho dos brigadistas que enfrentam as chamas pelos biomas do país e, ao mesmo tempo, serve de crítica para a situação ambiental brasileira.

Além do brigadista no lugar do lavrador, há um esqueleto de jacaré sobre um chão trincado -visto no Pantanal seco-onde, na obra de Portinari, havia um montinho; ao fundo, caminhões levando toras de madeira, ao invés de um trem. Por fim, no céu, a fumaça que parece formar nuvens também deixa uma mensagem.

Há um elemento, porém, praticamente inalterado entre as obras: o toco de árvore cortado ao lado do brigadista/lavrador.

“A obra do Portinari tem uma árvore decepada. Isso me chamou muito a atenção, porque não é um tema comum nas obras modernistas, a obra mostrando destruição ambiental, que naquela época era pelo agronegócio, o café”, afirma Mundano.

Em 2021, a situação não é tão distante. O monitoramento constante da Amazônia mostra que o agronegócio é um dos principais fatores de desmatamento na Amazônia brasileira.

E, costumeiramente, desmatamento e queimadas andam juntos, com as chamas sendo usadas para finalizar a derrubada, “limpando” o local.

Sobre esse fogo agem os brigadistas, entre eles Vinicius Curva de Vento, da Brigada Voluntária de São Jorge, que combateu recentemente as chamas na Chapada dos Veadeiros e serviu de inspiração para o mural. Mundano diz ter ficado impressionado com o quão pesado é o trabalho dos brigadistas, um esforço invisível principalmente para pessoas de grandes cidades, como São Paulo.

Após o fogo, restam as cinzas, que resultaram, literalmente, no “Brigadista da Floresta”.

Mural no centro de SP é feito com cinzas de queimadas

Mural do artista Mundano se encontra no centro da capital paulista AMANDA PEROBELLI/REUTERS

Mural teve como inspiração e faz releitura do quadro “O lavrador de café”, de Cândido Portinari AMANDA PEROBELLI/REUTERS

Artista e ativista Mundano testa diferentes tons de cinza, feitos com cinzas das matas brasileiras AMANDA PEROBELLI/REUTERS

Mundano junto a sua uma equipe levaram cerca de duas semanas para concluir o mural AMANDA PEROBELLI/REUTERS

O artista foi atrás do fogo em municípios da Amazônia, do Pantanal, no cerrado e na mata atlântica. Segundo Mundano, foram 24 dias e cerca de 10 mil km, acompanhando com sua equipe os satélites do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e da Nasa, atrás de carvão e cinzas. Algumas, diz, ainda quentes o suficiente para derreter o local onde eram armazenadas. Outras que, ao serem peneiradas, revelavam restos de animais.

“É a floresta em pó”, diz o ativista.

As cinzas e o carvão foram transformados em pigmento, que, com auxílio de verniz fosco à base de água, ficará na empena de um prédio no centro de São Paulo. Segundo o artista, é a primeira vez esse tipo de técnica é usada nessa escala, em um mural de cerca de 1.000 m², com necessidade de repassar a tinta várias vezes.

Mundano já tem experiência em transformar restos de tragédias em arte para conscientização. Há mais de um ano, o artista fez o mural “Trabalhadores de Brumadinho”, em homenagem às 270 vítimas do rompimento da barragem com resíduos de minério da Vale, em 2019. A obra, que relê o quadro “Operário” de 1933, de Tarsila do Amaral, foi feita com lama e lodo coletados no local do rompimento.

Se você já se deparou com alguma obra ou grafite de Mundano, sabe que o trabalho dele -em diversas ocasiões ligado a trazer atenção para alguma questão- costuma ser cheio de cores vibrantes. Ele é o fundador, por exemplo, da ONG Pimp My Carroça, que, através do grafite nos carrinhos de catadores, entre outras ações, busca dar visibilidade a esses trabalhadores.

Por isso, um mural cinza feito de cinzas em uma cidade com tons predominante cinzas traz um desafio, ainda mais quando o objetivo é chamar a atenção para uma questão.

“Eu nunca fiz um mural preto e branco em escala de cinza”, diz o artista, no 14º dia de pintura do mural. “Eu cheguei no meio do processo a pensar em colocar o brigadista colorido para dar mais visibilidade. Mas como eu vi que a gente também está virando cinza e a beleza desse mural cinza numa cidade cinza…estou subindo no andaime e consigo ver o prédio do lado mixando com o cinza que estamos pintando. Aqui no centro de São Paulo, ganha uma força maior. Apesar de acabar compondo com o cinza dos prédios, tem uma estética dramática.”

Segundo André Firmiano, uma das pessoas que pinta o mural junto com Mundano, trabalhar a estética grafiteira com esses tons é algo que foge um pouco do que se está habituado.

QUEIMADAS

A obra de Mundano representa uma realidade crescente no país. A expansão das queimadas em diversos biomas brasileiros.

O cerrado, por exemplo, tem tido o pior ano de queimadas desde 2012, quando houve 70.620 focos de fogo. Até o fim de setembro, o bioma já registrava 51.505 focos de calor, segundo dados do programa queimadas, do Inpe.

Já a Amazônia tem tido um ano, até aqui, um pouco melhor (com 56.169 focos) em comparação aos altíssimos níveis de queimadas registrados nos últimos dois anos. Em 2019, inclusive, as queimadas tomaram proporções ao nível de virar a atenção internacional para o modo como a floresta está sendo conservada. Vale lembrar também que o bioma é úmido e incêndios não costumam acontecer naturalmente, ou seja, são fruto de ação humana e costumeiramente ligados ao desmatamento -também com crescimentos acentuados desde o início do governo Jair Bolsonaro (sem partido).

Pantanal, por sua vez, viveu os piores incêndios já registrados na história em 2020.

Além do mural, a documentação feita durante a expedição atrás das cinzas (que além de Mundano teve participação de André D’Elia, Silvano Macarrão e Subtu) dos biomas nacionais virará o minidocumentário “Cinzas da Floresta”, dirigido por André D’Elia, e que deve ser lançado no fim de 2021.

O projeto Cinzas da Floresta, realização do Parede Viva e Cinedelia, teve a parceria do WWF-Brasil, Greenpeace, Be the Earth e Bem Te Vi Diversidade, além de apoio do IPAM, Fundação Mais Cerrado, SOS Pantanal, ISA, Sinal de Fumaça, ClimaInfo, SOS Mata Atlântica, Masp, Fundação Portinari, Museu Portinari e da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Também participaram Rede Nacional de Brigadas Voluntárias, Brigada São Jorge, Brigada Colinas, Brigada Rede contra o Fogo e Brigada Voluntária Ambiental de Cavalcante.

COMO VER O MURAL

O mural de cinzas está na Avenida Prestes Maia, de frente para o início da rua 25 de Março, na região central de São Paulo.

*Jornalista. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Ambiente, 15/10/2021.
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