* Clóvis Rossi 

Há relativo consenso de que a democracia corre risco.

Oliver Stuenkel, excelente analista, professor de Relações Internacionais na Fundação Getúlio Vargas, relata, em artigo para Americas Quarterly:

“Em debate em classe, um dos meus alunos notou secamente que os eleitores [brasileiros] teriam que escolher entre o terror e horror”, em referência a um eventual segundo turno entre Jair Bolsonaro  e Fernando Haddad.

É esse, basicamente, o tom que marca o olhar externo sobre o pleito brasileiro, pondo ênfase em Bolsonaro quando se trata de falar de terror.

Já não bastasse a Economist ter levado Bolsonaro à capa, faz duas semanas, com o título “A mais recente ameaça à democracia na América Latina”, vem Le Monde deste sábado com a manchete de capa: “Extrema direita às portas do poder”.

Não preciso dizer que o vespertino francês considera a extrema direita uma ameaça, tanto quanto a Economist.

Rocio Cara Labrador, que cobre América Latina para o Council on Foreign Relations, escreve: “A eleição geral no Brasil será um dos maiores testes para a sua democracia em décadas”.

Em artigo para o Projeto Syndicate, Robert Muggah, cofundador do Instituto Igarapé, belo centro de estudos especializado em segurança, prevê que os conservadores brasileiros farão “um pacto do diabo com o demagogo de extrema direita Jair Bolsonaro”, do que decorreria “pôr em risco o sistema democrático”.

Essa ideia de que a democracia está em risco com a eleição perpassa boa parte das análises externas sobre o pleito brasileiro.

Minha opinião, já manifestada uma e outra vez em colunas anteriores: o risco Bolsonaro já se manifestou, ganhe ou perca a eleição. Quando um terço ou mais dos eleitores se dispõe a votar em um candidato que faz a apologia da tortura, o Brasil retrocede vários passos  na escala civilizatória.

Se a democracia ficará ameaçada, em caso de vitória dele, é questão em aberto. Mas seria um erro eventualmente trágico se os democratas se acomodarem com a pesquisa do Datafolha que mostra recorde de apoio (69%) ao sistema democrático.

O apoio maciço à democracia não deve esconder o fato de que há profunda insatisfação com a maneira como ela está funcionando no Brasil. Numa ponta, há a corrupção tremenda, um vício antigo mas que a Lava Jato trouxe à tona de uma forma estonteante.

Na outra ponta, escreve Roberto Castello Branco, diretor do Centro de Estudos em Crescimento e Desenvolvimento Econômico da FGV, para a revista Inteligência: “O populismo do século 21 acabou por produzir a mais profunda recessão sofrida pela economia brasileira dos últimos 100 anos. A perda de produto real, de 7,2% em 2015-2016, superou a de outras grandes recessões (-3,8% em 1990/1992, -6,3% em 1981-1983 e -5,3% em 1930/1931)”. Corolário inevitável: assustadores 13% de desempregados.

Esse cenário de horror será encarado por um presidente politicamente fraco: é inédito que todos os candidatos à Presidência tenham mais rejeição do que a intenção de voto de cada qual.

Fica claro que vale a frase com que o Projeto Syndicate abre seu conjunto de artigos sobre a eleição: “O futuro do país está em jogo”.

Se o novo presidente, seja qual for, não conseguir puxar o país do poço, poderá afundar e, junto com ele, a democracia.

*Jornalista. Membro do Conselho Editorial da Folha de São Paulo. Artigo no caderno Mundo, de 07/10/2018.
Compartilhar
Autor Externo
As publicações são fontes externas de outros veículos de comunicação.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui