*Djamila Ribeiro

Simone de Beauvoir refutou, em seu monumental ‘O Segundo Sexo’, o argumento de Sigmund Freud.

O empobrecimento pela crise civilizatória da humanidade, em que o Brasil está inserido como colônia, trouxe a grupos vulneráveis uma situação ainda mais dramática de dependência econômica e política.

As filas para um prato de comida ocupadas por mulheres pretas com seus filhos no colo ou as filas quilométricas de desempregados aprofundam a vulnerabilidade desses grupos e são marcas de um tempo pandêmico acelerado por um projeto político reacionário.

As mulheres negras, indígenas, ou mesmo brancas pobres, que são impactadas por programas sociais, se veem nesse contexto sem fontes fundamentais de autonomia e passam a depender do grupo social vulnerável mais próximo. Homens em geral, negros, indígenas, descendentes de orientais e brancos pobres.

Como aponta o IBGE, a maioria dos casamentos é intracomunidade de classe e de raça.

Inseridos em um contexto de falta de humanidade às mulheres, que se traduz em altas taxas de feminicídio, violência doméstica e falta de oportunidades, muitas mulheres ficam ainda mais dependentes e sem ter aonde ir, sobretudo as que experienciam a pobreza como um legado da escravidão.

Outras mulheres chefiam o lar desde sempre, sendo a única presença masculina aquela que fez os filhos e foi cair no mundo, quando muito contribuindo com uma quantia de nada, que não paga nem o gás.

Neste país tem sido assim desde sempre que se entende por colonização, mas em situações de crise, as dependências aumentam ainda mais.

É claro que, para muitos casais, isso não é problema, e muitas relações são guiadas pelo respeito, mas é preciso dizer da falta de apoio e do ódio de homens a mulheres com quem se relacionaram e que gozam do privilégio do sistema patriarcal.

Por isso, em contexto tão desfavorável, é realmente incrível ver mulheres que largaram os seus maridos e seguiram em frente melhores emocionalmente e sem dependência financeira do homem.

É antiestrutural e causa ódio em quem sempre gozou de uma situação social superior.

Muitos homens sentem ranço em ver que a tentativa de destruir a mulher não deu certo, sejam eles brancos ou negros, ricos ou pobres.

A vida de uma mulher seguir depois de um relacionamento, sem que eles participem, é motivo de crueldade sem limites.

É a hora que, no que puder, o ex-companheiro vai dificultar, boicotar, diminuir.

Para afirmar sua masculinidade, muitos diminuem as mulheres e, quando quebram a espinha dorsal de uma mulher forte, o prazer é ainda maior.

Em andanças pelo Brasil, comecei a ficar chocada ao reencontrar mulheres que eram verdadeiras rainhas de cabeça erguida, pingando vermelho no chão e exalando perfume, mas que se transformaram em mulheres sem brilho nos olhos, sem sal, açúcar, pimenta ou dendê. E percebia que muitas se diminuíram para caber em relações nas quais o homem em si não era nada de mais, era apenas homem.

Quando Freud escreveu que a mulher sentia inveja do pênis, muitos acharam uma pérola a virar um postulado geral.

Em 1949, Beauvoir escreveu sua monumental obra “O Segundo Sexo”, em que refutou esse argumento, pois as mulheres não sentem inveja do pênis, mas do que ter um pênis significa.

Filósofos e escritores existencialistas

A escritora francesa Simone de Beauvoir, autora de um dos maiores clássicos do movimento feminista, “O Segundo Sexo” Reprodução/Reprodução

Escritor e pintor alemão Hermann Hesse, que escreveu livros como “Demian”, “Sidarta” e “O Lobo da Estepe” Reprodução/Reprodução

Capa da edição de 2018 do livro “The Thief’s Journal”, de Jean Genet Reprodução

Jean Cocteau em 1916, no front da Primeira Guerra na Bélgica, quando serviu na Cruz Vermelha. Reprodução/Reprodução

Então, muitas mulheres, após o término, sentem raiva imensa do homem, o perseguem em busca de um retorno e não se conformam. Pois além da injustiça que, na maioria, envolve os termos finais de uma separação, para o homem seguir a vida é muito mais fácil; afinal ele tem um sistema patriarcal desenhado para o receber.

No caso da mulher branca, sim, é muito difícil, mas a família herdeira do colonialismo angariou com o passar das gerações mais condições materiais de suporte. Já a mulher negra, sem suporte de tempo, por trabalhar no serviço doméstico sem descanso e com pouco dinheiro, fazendo malabarismo para botar água no feijão para os filhos, muitas vezes só terá sua mãe para a receber, mãe que passou por violências semelhantes na idade da filha.

E muitos homens, mesmo em condições mais favoráveis para seguir a vida, preferem fazer a rota por cima da mulher, dificultando mais ainda. Como cantou Mateus Aleluia, “meus traumas Freud não explica”.

Quando uma mulher, então, vindo de lugares tão inóspitos para que seguisse, refaz sua vida e segue independente do ranço patriarcal, saiba que junto a ela estão as sociedades ancestrais de mulheres que fortalecem cada uma de nós que as honramos e que nos farão seguir, apesar de tudo, por todas nós.

*Mestre em filosofia. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 27/05/2021.
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