*Marcelo Viana 

No século 20, foi reinventada como precursora do feminismo; antes havia sido símbolo do cristianismo e do iluminismo.

É celebrada como a primeira matemática da História. Mulher de forte personalidade que, numa sociedade masculinizada, reuniu à sua volta um círculo brilhante de discípulos que a admiravam. Quem foi Hipátia de Alexandria?

As fontes históricas são escassas. Pior, sua vida e as trágicas circunstâncias de sua morte fizeram dela ícone de causas diversas, até contraditórias, nas quais ela, provavelmente, não se reconheceria. A lenda ocultou os fatos.

Para os filósofos pagãos da fase final do império romano, representou a resistência ao cristianismo. Na Idade Média, foi convertida em símbolo do cristianismo: aspectos de sua vida foram incorporados à lenda de Santa Catarina de Alexandria (que dá nome ao estado brasileiro). Para os pensadores do Iluminismo, simbolizou a oposição ao cristianismo. No século 20, foi reinventada como precursora do feminismo.

Hipátia foi assassinada em 415, mas o ano do seu nascimento não é conhecido: estima-se que tenha sido por volta de 355. Era filha de Téon de Alexandria, matemático e astrônomo de renome e diretor do Mouseion, prestigiosa escola de elite onde era ensinada a filosofia neoplatônica.

Boa parte do pouco que sabemos sobre Hipátia chegou pelos escritos de seus discípulos. Ela atraía admiração generalizada, tanto pelos ensinamentos quanto pela autoridade moral, inclusive a frugalidade de sua vida e vestimenta, e a virgindade que teria mantido durante toda a vida.

Não há evidências de que alguma vez tenha deixado Alexandria. Não era um ambiente democrático: em consonância com o pensamento de Platão, professores e alunos do Mouseion evitavam contato com as massas, que consideravam incapazes de compreender o conhecimento elevado.

Acredita-se que parte do “Almagesto” do astrônomo Ptolomeu que chegou até nós é de autoria de Hipátia. Ela também escreveu comentários à “Aritmética” de Diofanto e aos trabalhos de Apolônio de Perga sobre seções cônicas, que se perderam.

A vida e obra de Hipátia foram ofuscadas por sua trágica morte. Logo após ascender ao bispado de Alexandria, o futuro São Cirilo perseguiu os que não seguiam o cristianismo ortodoxo. Quando se voltou contra os judeus, estes contaram com a proteção do prefeito (governador militar) Orestes, talvez porque ele se ressentisse do poder crescente do bispo.

No conflito entre os dois, Orestes foi apoiado por personalidades influentes de Alexandria, com destaque para Hipátia. Acusada de ser obstáculo à reconciliação, denegrida por propaganda entre as massas populares (por quem nunca se interessara), em março de 415 ela foi atacada na rua por partidários de Cirilo. Os relatos de seu assassinato às mãos da multidão variam, mas todos são muito violentos.

Apesar de embaraçoso para a Igreja, o episódio não impediu a canonização do bispo.

*Diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Ciência, de 06/02/2019.
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