Mudanças de novo século
Mudanças de novo século

“Aqui pelas nossas bandas não foi diferente, muito mais do que costumam referir; pois costumam destacar apenas a água encanada, telefone, energia elétrica, esgotos, bondes elétricos, porto flutuante, particularmente a contar de 1892”. 

Tem sido comum haver grandes transformações na passagem de século. Assim sucedeu nos primeiros anos do século XX no qual a paisagem urbana, social, política e religiosa foi completamente alterada, alcançando os hábitos e costumes. O cotidiano, o mundanismo, as modas e modos, os passeios, o comércio, tudo mudou.

Aqui pelas nossas bandas não foi diferente, muito mais do que costumam referir, pois costumam destacar apenas a água encanada, telefone, energia elétrica, esgotos, bondes elétricos, porto flutuante, particularmente a contar de 1892.

As residências das famílias, conforme as condições financeiras eram nas ruas 24 de Maio – nos casarões os mais abastados e em algumas vilas um pouco da classe média que depois se esparramava por outras vias como a Lauro Cavalcante e Joaquim Nabuco, deixando para as bandas da Cachoeirinha, Flores, Vila Municipal e Entroncamentoas chácaras e os chalés. Mais adiante estavam São Raimundo e as colônias

João Alfredo, Maracaju, Campos Salles, Franceses e Oliveira Machado, como se fossem zona rural, fornecendo a mandioca, carvão e abacaxi para consumo da população.

As línguas inglesa e francesa estavam por toda a parte, até nos nomes dos comércios, clubes, cavalos de corrida, do que são exemplo Stude Amazonense eStude Fluminense e os cavalos Destroyer, Herodes, Rajad, Nero, Cordon Rouge, Mondetour, La Villete. Estavam nas bebidas como cerveja Bock Ale e Pilsener, e locais de encontro e lojascomo o ChaletJardim, o Transmontano, café Avenida, Degas, Parc Amazonense, Armazém Paris na América, a Casa Phenix, a La Ville de Bordeaux, os Armazéns Andersen, Scolcz& Cia, E. Kingdon& Cia., S Gunbacher, Kiernan e Petters, a loja Aux 100.000 Paletots, de Levy & Cia.

Foi o tempo de usar óculos, pince-nez, binóculos, óculos de alcance, o homem negro, o bacharel em direito, o alferes, e o negociante passaram a se destacar com dente de ouro e fotografias de luxo na foto Alemã. As novidades eram o candeeiro a querosene, o. mosqueteiro, o espartilho, as luvas, o tamanco, a bengala, o chapéu de sol, o guarda-chuva, o xarope contra a tosse, o cavalo, a máquina de costura o cinema, o circo, a substituição das latrinas de barril e do pinico do tigre pelo water-close à inglesa, o bidê, o chuveiro nas residências mais ricas, o sumiço das escarradeiras, e o começo do jogo do bicho.

Entre as coisas novas estavam o porta-retratos, a pistola Mauser, o revólver Colt, a Emulsão de Scott, Água de Florida, Elixir, cadeira de balanço, mesa de jantar elástica, a árvore de Natal e o Papai Noel, a gilete, as ceroulas curtas, a datilografia, os sapatos, a caneta-tinteiro, a serpentina, confete, chope, o Charuto, o luto fechado e o aliviado, as amantes francesas e polacas, o engraxate no meio da rua e os pijamas no lugar das camisolas.

Os nomes dos filhos passaram a ser: Ulysses, Ceci, Peri, Pedro de Alcântara, Garibaldi, Amélia, Isabel, Teresa, Lourdes, Maria do Carmo e a tomar a benção, ter padrinhos, usar medalhas de santo. Sepultamento nos cemitérios, casamento civil, hotel, cinema Alcazar, bacharéis na política em lugar dos coronéis, e o protestantismo e o espiritismo ganharam força no interior do país. Foi tempo da substituição dos empregados negros, escravos ou africanos livres pelos portugueses e italianos.

O mais alarmante foi a mudança econômica, sentida e ressentida durante anos, especialmente após 1913 e por muito tempo, quando Manaus quase se transformou em cidade fantasma ganhando a fama de “terra do já teve”, ditado que, infelizmente,de vez em quando volta a ter razão de ser utilizado.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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