*Sylvia Colombo

O cineasta argentino Fernando Solanas morreu na madrugada deste sábado (7), em Paris, aos 84 anos. Ele estava internado havia mais de uma semana depois de contaminar-se com o coronavírus. Por uma triste coincidência, morreu na cidade que foi cenário de uma de suas mais lindas produções: “Tangos – O Exílio de Gardel” (1985), um musical que trata da vida de um grupo de argentinos exilados na França na última ditadura militar (1976-1983).

Solanas sempre foi um artista engajado e preocupado com as questões políticas do seu tempo. Seu cinema foi marcado pela denúncia, tanto da repressão, nos anos da ditadura, como da situação de pobreza em que viviam muitos argentinos durante a democracia, especialmente depois da crise de 2001. Também o moviam questões ambientais, e realizou filmes que denunciavam a exploração de recursos naturais de modo irregular.

Ex-candidato a presidente, ex-deputado e ex-senador, Solanas estava na França como embaixador da Argentina frente à Unesco. Seu último ato oficial foi uma visita ao papa Francisco, no Vaticano, para falar de pobreza e mudança climática.

Seu primeiro filme é considerado um clássico do cinema argentino do século 20. “La Hora de los Hornos”, de 1968, trata da Argentina sob a ditadura de Juan Carlos Onganía (1966-1970). Proibido em seu próprio país, foi projetado de modo clandestino entre grupos de amigos, centrais sindicais, favelas e igrejas. O filme chamou a atenção do general Juan Domingo Perón, que na época estava exilado em Madri. Solanas viajou à Europa e se aproximou de Perón, gravando um depoimento dele sobre o golpe militar que o havia tirado do poder e seus planos de retorno ao país.

O exílio fez parte de sua vida em mais de um momento. Na ditadura de Onganía, passou um tempo na Espanha. Na dos anos 1970, radicou-se na França. Voltou a seu país-natal de modo definitivo junto com a democracia. A Argentina sempre foi seu principal tema, e com o filme “Sur” (1988), que tem na trilha sonora Fito Páez e Astor Piazzolla, foi escolhido melhor diretor no Festival de Cannes, no mesmo ano.

Nos anos do “peronismo liberal” de Carlos Saúl Menem (1989-1999), posicionou-se abertamente contra a política de privatizações do governo. O período o inspiraria a produzir uma série de documentários sobre como estas medidas haviam levado o país a uma crise terrível. Solanas, então, viajou pela Argentina para retratar seus efeitos nas províncias. Algo que era quase inédito inclusive para o jornalismo local, muito centrado nos acontecimentos de Buenos Aires e que pouco retrata o interior do país.

Em 2004, lançou “Memorias del Saqueo”, em que apresentava sua versão da decadência argentina por conta de escolhas políticas tomadas depois da redemocratização do país. O filme foi apresentado no festival de Berlin e elogiado pela crítica. Foram seguidos de outros dois documentários, “La Dignidad de los Nadies” (2005) e “Argentina Latente” (2007). Compõem uma trilogia crítica da situação argentina na década passada.

Desiludido com o peronismo, deixou o partido e fundou o Proyecto Sur, pequena agrupação de esquerda, pela qual elegeu-se deputado, senador e depois tentou chegar à Presidência. Depois de ser um duro crítico da gestão dos Kirchner (2003-2015), voltou a apoiar esse grupo, entrando para a aliança que elegeu o atual mandatário, Alberto Fernández, em 2019.

Solanas havia criado uma espécie de “liga” de cineastas comprometidos com a política e a denúncia das desigualdades, chamada de Tercer Cine. Junto a ele estavam o boliviano Jorge Sanjinés, o cubano Tomás Gutiérrez Alea, o chileno Patricio Guzmán e outros. Esteve no Brasil em mais de uma edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Sua obra, marcada pela coerência e o compromisso político, é um belo retrato crítico de seu tempo.

*Correspondente em Buenos Aires. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Mundo, de 08/11/2020.
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