Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Brasileiros desvendam rede ecológica que une morcegos e plantas nas florestas tropicais.

Esta não é uma coluna de Halloween, apesar da proximidade da data e da presença de morcegos no elenco. Nada mais injusto, aliás, do que o medo e a repulsa que a visão desses mamíferos voadores provoca no respeitável público.

Raríssimas espécies do grupo são realmente “vampiras”, sugadoras de sangue. É muito mais comum que os morcegos sigam uma dieta diversificada, na qual os vegetais são um componente importante. Muitos deles são pacatos comedores de frutos e degustadores de néctar, equivalentes noturnos dos passarinhos e das abelhas.

Isso significa que os chamados quirópteros (algo como “asa nas mãos”, em grego) desempenham papéis ecológicos importantíssimos, transportando pólen e sementes florestas afora e revitalizando a mata. Um novo estudo, publicado por pesquisadores brasileiros, conseguiu mapear com precisão inédita a trama complicada de relações entre 73 espécies de morcegos e mais de 400 espécies de plantas, espalhadas por todas as regiões tropicais das Américas, inclusive no Brasil, revelando como esses bichos se tornaram cruciais para a saúde dos ecossistemas em que vivem.

O trabalho acaba de ser publicado na revista científica Nature Ecology & Evolution e é fruto de uma colaboração entre biólogos e ecólogos – pesquisadores como Marco Mello, do Instituto de Biociências da USP, Gabriel Felix, da Unicamp, e Rafael Pinheiro, da UFMG – e especialistas em ciências exatas, como Francisco Rodrigues, do ICMC (Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação), na USP de São Carlos.

Com efeito, um dos aspectos inovadores do trabalho é analisar a miríade de relações entre espécies de morcegos e plantas com ferramentas computacionais, mais ou menos como quem estuda as múltiplas conexões entre pessoas num aplicativo de rede social. Para isso, os pesquisadores usaram dados coletados em campo sobre a dieta dos bichos para montar várias camadas de redes de interação. Uma dessas camadas corresponde às mais de 900 interações morcego-planta em que há frugivoria (consumo de frutas); outra equivale a 301 interações em que há consumo de néctar; e assim por diante.

Além disso, os pesquisadores também levaram em conta a história evolutiva e o grau de parentesco entre as diferentes espécies, bem como a distribuição geográfica de bichos e vegetais. O mapeamento multicamadas que resultou desse esforço mostra, entre outras coisas, quais as espécies que funcionam como as figuras mais “populares” da “rede social” ecológica – mais ou menos como o sujeito com milhares de amigos ou seguidores cuja conta conecta as pessoas mais disparatadas entre si.

Os morcegos mais conectados, porém, têm um papel muito mais relevante que a mera popularidade. Ao interagirem com grande quantidade de espécies vegetais, eles atuam como pedras fundamentais de seus ecossistemas, ajudando a espalhar pólen e sementes de muitas árvores, por exemplo.

E o interessante é que a análise de redes permite traçar o perfil desses morcegos ultraconectados. No caso das espécies frugívoras, em geral estamos falando de bichos de porte modesto e de mordida poderosa, o que facilita o acesso a frutos de diferentes tamanhos e texturas. Já os morcegos mais conectados entre os que sugam néctar também têm maior porte, mas mordida fraca, o que lhes permite acomodar na boca a língua comprida especializada para acessar o líquido dentro das flores.

Informações como essas são cruciais para priorizar a conservação de espécies e os serviços ambientais – proteção do clima, produção de água e muitos outros – trazidos pelos ecossistemas naturais. Morcegos conectados merecem nossa gratidão.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 03/11/2019.

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