fernanda torres
*Fernanda Torres

O mar na América Latina não está para peixe.

“Moby Dick”, o romance imorredouro de Melville, passou anos na minha mesa de cabeceira. Li e reli o “tratem-me por Ishmael” da abertura incontáveis vezes, mas não conseguia avançar. Assisti a Gregory Peck desaparecer no mar, acorrentado ao dorso do monstro; li reduções da história para meus filhos, mas só agora fui fisgada.

Agora, no momento em que Lula é solto, depois de passar 580 dias numa sala da Polícia Federal de Curitiba.

E, ao assistir ao discurso do ex-presidente em frente ao Sindicato dos Trabalhadores, no ABC, foi impossível não pensar em Ahab, o capitão atormentado pela vingança de Moby Dick, a besta branca que, no tormentoso Horn, arrancou-lhe uma perna, reduzindo-o a “uma carcaça”.

Depois de cumprir o longo percurso de volta a Nantucket amarrado a uma maca, o amputado Ahab afunda em muda depressão, só quebrada em sua próxima viagem, quando, nas águas plácidas do Atlântico tropical, ele revela aos marujos sua verdadeira intenção.

“Foi para isso que embarcastes, marinheiros! Para perseguir essa baleia branca nos dois lados da Terra, e por todos os lados do globo, até que ela solte um jato de sangue preto e boie com as barbatanas para cima. Que dizeis marinheiros, estareis unidos nessa empreitada?”

A Moby Dick de Lula atende pelo nome de Sergio Moro. A ferida aberta pelo conturbado processo que levou à amputação de sua terceira candidatura à presidência e à condenação a mais de dez anos de cadeia por corrupção jamais será curada.

No palanque, Lulinha Paz e Amor não se fez presente. Ahab da Silva prometeu percorrer todos os cantos do país e, citando o Chile, levantar as hostes do povo oprimido pelo livre mercado, pela mira na cabecinha das milícias e pela mídia oficial, até trazer o PT de volta ao Planalto.

Cada oponente desta batalha discursa para o terço garantido de seu eleitorado. Sim, porque para além dos vagalhões tempestuosos, um outro Ahab, detentor de outro terço das intenções de voto, ostenta a facada que quase o levou à morte e também jura vingança, identificando, no cetáceo esquerdista, o monstro marinho a ser arpoado.

E em meio às ondas que separam as duas naus, inofensivos jet skis de feira náutica de Araruama, conduzidos por Dorias, Ciros e, quiça, Lucianos, tentam formar um centro pífio e isentão na República.

Os leões que sonham com a volta do AI-5, já prevendo a decisão do STF sobre a inconstitucionalidade da prisão em segunda instância, anteciparam o grito de guerra em resposta à soltura da hiena da caatinga.

A oposição, acuada desde a eleição de Messias, festeja o retorno da voz que não teme indagar o porquê do sumiço de Queiroz, que não mede palavras contra a milícia, o Ministério Público, a Polícia Federal, a república de Curitiba, a TV Globo e Moro, Moro, Moro… Moro Dick.

“Isso, isso!”, gritam os arpoadores, correndo para perto do velho agitado: “Uma visão afiada para a baleia branca, uma lança afiada para Moby Dick!”

Ahab da Silva não evitou nem mesmo a menção à Venezuela. Venezuela, gatilho capaz de fazer com que o eleitor incomodado com o “terraplanismo familiocrata” do atual presidente volte a apertar 17 em 2022.

E, na fragata Aliança, comandada por Ahab Jair, 01, 02 e 03 lideram os botes, enquanto, no porão, já circulam áudios e vídeos de WhatsApp – vi e ouvi três deles – conclamando o exército de patriotas verde e amarelo a tomar as ruas em prol da intervenção militar.

O artigo 142 da Constituição garantiria às Forças Armadas, sob a autoridade suprema do presidente da República, a missão de defender a pátria, a garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem, podendo, inclusive, julgar com celeridade e condenar em definitivo a Lula gigante, antes que o Kraken estique os tentáculos.

O mar na América Latina não está para peixe.

As manobras de Evo Morales para se manter no poder comprovam, na cabeça de Ahab Jair, a necessidade patriótica de livrar o Brasil da “esquerdopatia petista”. Já as manifestações populares chilenas embasam a certeza de Ahab da Silva de que o ultraliberalismo econômico do oficial Guedes é uma máquina de moer pobres.

E assim, dependendo do ângulo de quem vê, Moby Dick e Ahab, Ahab e Moby Dick, acorrentados ao corpo um do outro, embicam em direção à profundeza azul.

Quanto a nós, náufragos espectadores não binários, tratemo-nos todos por Ishmael.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 17/11/2019.
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