*Basílio Tenório

O presente texto, procedente de narrativas coletadas no Distrito de Barreira do Andirá e respectivo entorno, ou ainda na fronteira entre os municípios de Parintins e Barreirinha. Ele se funda na mitologia cabocla entrelaçada à história da Colônia Modelo de Andirá e, por conseguinte, à história da Colonização Japonesa dos anos 1930, na Amazônia.

O bicho feio comedor de gente

Mito ou espécie rara fato é que, segundo as narrativas, ele existia ou existiu. Pois é, mas só ouviu-se falar dele depois que os jesuítas chegaram no Amazonas para organizar os primeiros “descimentos indígenas” para a Missão de Tauacuéra, no Rio Uaicurapá, onde se iniciou o processo civilizador onde seria Parintins.

Em favor da civilização ocidental nas Américas conforme o processo civilizador sob a égide da Companhia de Jesus, nações indígenas ou etnias tantas eram convencidas a descer das suas malocas localizadas no alto dos rios medioamazônidas para viverem em confinamentos. No litoral, esses confinamentos eram as reduções; no Brasil central e no vale do Amazonas eram os descimentos que, à revelia de acordos que os fizeram realidade, acabou conflitando com os interesses da própria colonização. Anos depois, com os interesses do extrativismo pioneiro no Amazonas, mas o maior conflito foi com os interesses daquele bicho feio comedor de gente, uma vez que lhe tirava da mata a sua principal fonte de alimento; os índios sateré.

Séculos depois, mais precisamente em 1929, chegavam os japoneses. O governo do Amazonas lhes concedia um milhão de hectares de terras entre os municípios de Parintins e Barreirinha onde tão logo o Governo japonês assentaria entre cinco a dez mil famílias de colonos japoneses. Em função daquele ideário foi instalada a “Colônia Modelo” de Andirá; em Parintins, na exata embocadura leste do paraná do Ramos foi erguida a Vila Amazônia. No município de Barreirinha, precisamente em Vila de Barreira do Andirá, na exata embocadura do Rio Andirá à margem direita do Paraná do Ramos, ali foi instalado o complexo administrativo da citada “Colônia Modelo”.

O referido complexo administrativo resumia-se um aglomerado de residências entresemeaduras, depósitos, oficinas, posto médico, prisão, cemitério e o entreposto comercialdenominado: “Venda”. Isso tudo se voltava para os colonos assentados ao longo da “Estradados Japoneses”.

A “Venda” era o marco zero da “estrada dos Japoneses”, uma reta que rasgava a matavirgem entre a embocadura do Rio Andirá e o médio Rio Uaicurapá e que bifurcava para SantaLuzia, no rio Uaicurapá, para a cabeceira do Laguinho do Andirá e para o Rio Doce, tambémafluente do Rio Andirá. Estrada que viabilizava o escoamento de tudo que se produzia naqueles imensos campos de arroz. Estrada por onde também transitavam os coletores de frutos da floresta, particularmente da castanha da Amazônia, que era comercializada na“Venda” ou em Parintins. Estrada onde tantos coletores e trabalhadores da Colônia Modelodesapareceram sem deixar rastros, senão a trilha de sangue rumo ao centro da mata.

Contam que, por conta da abundância humana na Colônia Modelo de Andirá aquele“bicho feio” passou a caçar naquela estrada e que quando farejava gente emitia gritospavorosos; que gritando ia em busca de sua presa. Foi justamente na “Estrada dos Japoneses”que desapareceram: o ermitão Antônio Digo Mesmo e João de Amaro, coletor de essênciasflorestais com ênfase em castanha da Amazônia.

Antônio digo mesmo

“Antônio digo mesmo” era um homem alto, corpo atlético, que também viera do estado do Pará para trabalhar com os japoneses quando nas primeiras grandes derrubadas.

Não quis renovar seu contrato pois em função do que a floresta lhe oferecia preferiu viver um eremitério no centro daquela mata, rente ao límpido e piscoso córrego do Matsuí, que cruzava a Estrada dos japoneses. Antônio era o seu nome de batismo, sobrenome não se sabe, “digo mesmo” vinha do hábito que ele tinha quando a conversar: “Eu digo mesmo” que… Daí o apelido: “Antônio Digo Mesmo”.

Ermitão, sim, mas a necessidade sempre o fazia descer da mata para se abastecer na “Venda” ou em Barreira do Andirá e quando o fazia, mesmo porque quase nada tinha para contar, aproveitava para contar sobre o tal bicho feio comedor de gente:

-Eu digo mesmo, seu mano, eu vi o bicho e o bicho é feio.

-E, como ele é? – perguntavam os curiosos.

-Eu digo mesmo, seu manos, que o bicho é semelhante a um homem muito alto emuito forte e também caminha igual a gente. Agora diferente, porque a cabeça dele é mais oumenos como a cabeça de porco queixada; é peludo que nem macaco, pelos compridos,fedorento que nem a “mãe da pantanha” e emite gritos horríveis rastejando a embiara. Se aembiara é gente, pior ainda porque é impossível se esconder nos buracos da terra, que nempaca. A pessoa não lhe escapa, a não ser por uma providência divina.

Dia desses eu o vi, assim, com estou vendo você. Eu me encontrava juntando uns uixisquando ouvi gritos pra cima da terra: Oh! Pensando ser alguém perdido gritando por ajudaresolvi responder. Ouvi novamente os gritos e pensando ser de resposta voltei a responder.

Silencio. Um silencio que durou alguns minutos, que eu pensava ser porque a pessoasupostamente perdida me havia localizado… Esperei então. De repente aqueles gritos que pareciam destroçar a mata, agora sequentes, pavorosos foi quando compreendi que era o bichofeio comedor de gente.

Ele me havia localizado, seu mano, e vinha rasgando a mata em minha direção; evinha que vinha. Pensei então: serei a boia deste bicho se não achar uma forma de escapar.Então apressei o passo rumo a um igarapé que eu sabia existir mais à frente e aquele bicho feiovinha palmo em cima.

É o fim, pensei. Por sorte havia um cipó bastante grosso logo à frente e tratei de subirpor ele até o galho mais alto daquela mesma árvore onde se agarravam os galhos daquele cipó.Coisas da providência divina! Uma vez ali cortei rapidamente aquele cipó, cujo pedaço que oligava à terra se estatelou no chão; e lá vinha o bicho feio comedor de gente. Vinha no meurastro, seu mano, e eu agora o via de frente.

Ele trazia um porco caititu embaixo do sovaco, não lembro se direito ou esquerdo e acada grito pavoroso ele dava uma dentada naquele porco, que tirava pedaços de mais oumenos um quilo e que iam sendo mastigados e engolidos. Pegou o cipó, levantou à altura daspróprias narinas e saiu cheirando até onde eu o havia cortado. Ele parou, cheirava o ar,emitindo ao mesmo tempo aqueles gritos pavorosos, como se comunicando aos ermos quehavia perdido o meu rastro. Entretanto, rondou o perímetro em volta, cheirou o tronco daquelaárvore e eu pensei: “ele vai subir, vai me matar e vai me comer aqui mesmo no galho do pau…

Ele havia perdido o meu rastro, mas sabia que eu estava por perto. Sabia porque escondeu-se junto a um troco de árvore caída e ali ficou por longo tempo esperando por ummovimento meu.

Naquelas alturas o dia já caminhava lá p’ras quatro da tarde e eu lá em cima, comsede, com vontade de urinar e aquela enorme vontade de peidar. Mas se eu soltasse o peido obicho me localizava, com certeza. Enquanto isso minha barriga roncava, empaxada1. Euagüento, disse a mim mesmo; e que aguentar peido, seu mano, não é fácil e não sendo fácilnão é pra qualquer um. Lá pelas cinco da tarde o bicho feio comedor de gente foi emboragritando para o centro da mata.

Assim Antônio Digo Mesmo finalizava sua narrativa e já se pondo a caminho rumoao seu barraco, às margens do córrego do Matsuí.

Um mês se passou e Antônio Digo Mesmo não apareceu na “Venda” nem pelastabernas em Barreira do Andirá. Mas aquilo não era novidade, uma vez que ele era ermitão.Outro mês se passou e nada do Antônio Digo Mesmo aparecer. Resolveram então procurá-lo.

Primeiro os seus amigos, depois o povo da vila e tinha até japonês entre aquelesprocurando o Antônio Digo Mesmo. Foram ao barraco dele, rente ao córrego do Matsuí, mastudo ali era abandono. No entanto, estava a sua rede de dormir, suas roupas, seus documentos,tudo dele estava nos conformes só faltava ele próprio. Então, a notícia se espalha na vila.

-O Antônio Digo Mesmo desapareceu, esta gente!

-Ele foi comido pelo bicho feio comedor de gente, afirmou alguém.

-Que nada, o tal bicho feio comedor de gente era lorota dele.

-Mas o bicho existe, muita gente tem ouvido o grito dele na Estrada dos japoneses,muita gente já desapareceu nessa mesma estrada e até hoje não foi encontrada. Sabe de umacoisa, vamos procurá-lo…

Constituídas as turmas, nem foram tão longe. Há mais ou menos cem metros dobarraco encontraram logo a espingarda dele. A coronha havia sido quebrada, mas haviacartuchos deflagrados pelo chão e aquele também deflagrado no cano da espingarda,afirmativa de que Antônio Digo Mesmo havia sido atacado, dentro ou quando saia do seubarraco; que havia lutado com o seu agressor. Outros metros adiante encontraram o seu crânioe ainda outros metros, lá estava a pouca ossada que restou dele…

João de Amaro

João de Amaro residia em uma das cabeceiras do Laguinho do Andirá, que desaguajunto à embocadura do Rio Andirá. Tinha esposa, filhos e ganhava a vida com produtosoriundos da floresta como: cipó titica, sorva, filamentos de açacu da terra-firme e a castanhada Amazônia. Sua lide, como a de tantos outros extrativistas coletores acontecia paraleloàquela Estrada dos japoneses. Segundo as narrativas, ele não só teria visto como também foracomido pelo tal “bicho feio comedor de gente”.

Certa feita, em razão do paneiro bastante pesado com a fava da castanha daAmazônia, que teria que carregar por alguns quilômetros, ele havia deixado a sua pedra deamolar ali mesmo onde embaixo das árvores havia quebrado os oriços de castanha. Erasemana santa, dias de retiro e penitencias, fato é que ele resolveu buscar a referida pedrajustamente na sexta-feira da paixão.

Paralelo à estrada dos japoneses havia celeiros, plantação de bambus e aquelesgrandes bananais dos japoneses. Segundo as narrativas João de Amaro caminhava por aliquando, de repente, aquele panavueiro medonho entrelaçado aos gritos de agoniaprovavelmente, em razão da dentada de misericórdia que quebrava o pescoço da sua presa.Coisa rápida, e o silencio em seguida.

João de Amaro resolveu se aproximar pensando consigo: é onça matando uma caçagrande e eu vou já tomar dela. Então, apressou o passo. Devagar, por sorte contra o vento e láestava o tal bicho feio comedor de gente rasgando a dentadas uma anta já de bom tamanho.

Pasmo ante o que via, João de Amaro estacou. Medo, olhos arregalados de pavor,coração acelerado, mas ele precisava ficar quieto, do contrário ele também iria parar no “buchodaquele bicho feio”, como aquela anta. O bicho não o farejou, certamente, uma vez que comos restos daquela anta debaixo do sovaco deixou o bananal e se embrenhou na mata, emitindoaqueles gritos pavorosos.

Fato foi que João de Amaro retornou da Estrada dos Japoneses sem trazer a sua pedrade amolar. Em casa ele contou para sua esposa, que contou para a esposa do vizinho, quecontou… No dia seguinte a notícia chegava à “Venda e às tabernas em Barreira do Andirádespertando medo e curiosidade. Medo de que o tal bicho feio comedor de gente viesse comergente naquela vila. Curiosidade, de saber tin-tim por tin-tim e do próprio João de Amaro oque ele havia visto.

-Mas, João de Amaro, a tua pedra de amolar?

-Eu vou buscar, eu preciso dela…

-Olhe, se eu fosse tu eu não ia…

Mas João de Amaro e por isso palmilhou novamente a Estrada dos Japoneses embusca de sua pedra de amolar. Ele foi, mas não voltou.

Também saíram para procurá-lo, pensando que ele se havia perdido na mata. Maspassando por aquele mesmo bananal alguém da turma resolveu pegar um cacho daquelasbananas, já bem macias, mas entrar no bananal a surpresa: lá estava o paneiro, a espingarda,o terçado e o crânio de João de Amaro.

Pois é, ele também foi comido pelo tal bicho feio comedor de gente.

O sumiço do bicho feio comedor de gente

Se aquele bicho feio comedor de gente era único ou foi embora dali se morreu ou seo mataram, não se sabe. Sabe-se, entretanto, que logo depois de ele haver comido o João deAmaro, um caboclo lá do “Castanhal”, vilarejo logo acima do Laguinho do Andirá, encontrouum barreiro propício para espera de caça e convidou seu irmão para, ali, fazer um muitá.Vamos chamá-los de Pedro e de Paulo.

Feito o muitá, os irmãos escolheram o dia e foram lá pro barreiro. Cada um com suaespingarda calibre 16 subiram no muitá, se agasalharam e esperavam. Chegou um porcocaititu, que Pedro fez mira para atirar, mas Paulo argumentou com gestos ser pequeno ocaititú, que seria melhor esperar um pouco mais. Mal que terminou de gesticular o caititugritou, instante em que se ouviu o estalado da dentada. Fora o tal bicho feio comedor de genteque havia caçado aquele porco.

Os irmãos se assustaram, o bicho os viu, soltou a presa e partiu para cima deles. Osirmãos se atiram ao chão e se afastaram um do outro; Pedro correu para trás de uma árvore ePaulo para trás de outra. O bicho feio comedor de gente, indeciso, não definia se ia para esteou para aquele entre os irmãos. Estrondou o primeiro tiro: Pou!!!!. O bicho estacou e voltou-separa onde viera aquele tiro. Estrondou o segundo tiro: Pou!!!! e o bicho se virou, agora para olado de onde viera aquele outro tiro.

Fato foi que entre fogo cruzado, se o bicho partia para cima de Pedro, Paulo mandavachumbo. Se ele partia para cima de Pedro era Paulo que mandava chumbo. Mas o bicho nãocaia, aliás, parecia até muito mais feroz.

Terminou a munição de Pedro, o mais velho, que agora se defendia driblando o bichoao redor da árvore onde se encontrava. Paulo mandava chumbo nas costas, na cabeça do bicho,mas ele não caia e nem corria. Foi tanto chumbo que só lhe restava um cartucho. A espingardaestava quente que nem o inferno. Mas ainda assim Paulo levantou a chumbeira, dormiu namira e solta o gatilho Pou!!!!, e conseguiu o objetivo porque o bicho feio comedor de gentesentiu a pancada. Sentiu porque largou da perseguição a Pedro e saiu quase se arrastando pelamata adentro.

Pedro e Paulo também seguiram para a canoa e retornaram ao Castanhal ondecontaram o acontecido. No mesmo dia a notícia fascinava os japoneses no entorno da “Venda”e a cabocada pelas tabernas em Barreira do Andirá; no dia seguinte se esparramava pelaadjacência. Fato é que a partir de então nunca mais se ouviu os gritos daquele bicho feiocomedor de gente ao longo da Estrada dos Japoneses.

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1Infecção intestinal; excesso de gazes; de flatos fedorentos; de peidos.

*Amazonense de Urucará. Professor, memorialista, pesquisador e escritor. Licenciado em História, pela UEA. Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, pela UFAM. Fundador e ex-presidente do Instituto Geográfico e Histórico de Parintins (IGHP).
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