Luiz Felipe Pondé
*Luiz Felipe Pondé

Só acredita que as coisas sejam óbvias quem leu pouco, seja de que assunto for.

Algumas palavras devemos usar com cuidado hoje em dia, devido ao ruído contínuo em que vivemos. A palavra “mística” é uma delas. Ela tem raízes no grego e, segundo o maior historiador da mística cristã em atividade, Bernard McGinn, sua primeira aparição no mundo cristão está associada à busca dos primeiros monges e padres gregos da Igreja como Clemente de Alexandria (150 – 215) e Orígenes (184 -253) pelas camadas interpretativas escondidas (aqui estaria o sentido originário grego) na Bíblia.

A palavra seguirá seu curso até chegar, por volta do século 16, a ter o sentido que mais comumente se aplica nos estudos de espiritualidade na atualidade – experiência direta de Deus. Isso não significa que já no século 13 ou 14 não existissem pessoas na Europa (e não só nela ou no cristianismo), ou mesmo antes, que relatassem alguma forma de “cognitio Dei experimentalis”, ou seja, um conhecimento de Deus baseado numa experiência, e não no “mero” estudo das sagradas escrituras.

A aceitação desses relatos pela hierarquia da Igreja era objeto de dúvida, de discussão, ou mesmo de condenação pela Inquisição.

O fato é que a interpretação de um relato desse tipo por quem o ouve não necessariamente o ratifica como sendo o que a pessoa mística diz que é. Dito de outra forma: não é evidente que quem ouve o místico falar acredite no que ele está dizendo. A literatura especializada está cheia de casos em que, ao contrário do que as místicas diziam, seus interlocutores entendiam que elas, na verdade, tinham uma experiência direta com o Diabo, e não com Deus.

Só acredita que as coisas sejam óbvias quem leu pouco, seja de que assunto for. Por exemplo, você pode achar, vendo um filme, que a pessoa que ouve o relato de uma jovem mística em Paris, em pleno século 14, evidentemente teria que acreditar nela. E se não o faz é por questão de gênero, de classe social ou de raça. A redução das dificuldades de interpretação de relatos místicos por parte de quem os ouve a categorias de poder político e econômico é típico de espíritos pobres de espírito (redundância proposital).

Não. Você pode se considerar a pessoa de cabeça mais aberta do mundo, mais sem preconceito, mais liberal em sentido moral, mais bem informada, e tudo mais de “bom”, e ouvir um relato hoje que se enquadra perfeitamente no tipo de relato místico feito na Idade Média por mulheres místicas, e achar que a pessoa diante de você é uma mentirosa, ou, na melhor das hipóteses, uma louca.

Se a Idade Média queimava místicas, hoje nós as impregnamos de medicação psiquiátrica. Mesmo os inteligentinhos da esquizo-análise pensariam haver ali algo de “regressivo”.

Pelo menos, os medievais julgavam haver ali uma verdade (o Diabo), nós achamos haver ali apenas a miséria de um cérebro desordenado. Nesse caso, Deus está de fato morto.

Este é um exemplo crasso da secularização. O sobrenatural migrou pra periferia do mundo cognitivo. Claro que nas instituições religiosas como a Igreja Católica permanece havendo espaço para as místicas e místicos. Mas, fora de instituições religiosas, entendemos que relatos do tipo “Deus fala comigo” ou “Sinto a presença de Jesus aqui nessa sala” são menos objeto de crença do que uma conversa tipo mesa branca “tem um encosto nessa sala”.  É mais fácil acreditar num Preto Velho à la Kardec do que na presença de Jesus nalgum lugar.

Há também a suspeita de que quem fala uma coisa dessas está fazendo proselitismo: está querendo levar gente para a igreja dela e faturar uma grana. Ou se aproveitar sexualmente de alguém. Ou é uma coitada vítima de pais opressores e perversos.

O fato é que se você defender o uso, por exemplo, da maconha, você pode ser visto como alguém que está prestando alguma forma de serviço aos jovens. Se você defender a transexualidade você estará trabalhando pela liberdade. Agora, se você defender “a palavra de Deus”, você estará sempre delirando ou se aproveitando dos outros. O fato é que o preconceito contra os místicos existe até hoje, só que agora ele é “científico” e progressista.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 09/12/2019.
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