Instado a escrever sobre meus lugares preferidos nessa Manaus de encantos – a mesma sobre a qual há o peso da modernidade nem sempre desejada -, antes de tudo conversei demoradamente comigo procurando recompor o tempo que a vida levou e os caminhos que andei percorrendo, para depois escolher os recantos que o coração recomenda.

Mesmo com os seus defeitos – e ninguém e nada é perfeito nesse mundo de meu Deus -, Manaus mora em mim, como diz o poeta, sendo berço e esperança, por todo o tempo e para sempre. Depois de experimentar a tenra idade na Av. Airão, comecei a caminhar pelas ruas tomado pelas mãos de meus pais e irmãos e os primeiros passeios foram ao porto flutuante para esperar ou despedir meu querido marinheiro. Era caminho abençoado. Sentia-me seguro, mesmo quando me punha em desabalada carreira em busca do abraço forte do velho Braga, que afinal era meu porto seguro. Depois, mais crescido, ia ao cais para sentir a brisa dos fins de tarde e apostar com minha irmã Ana Maria qual navio apontava ao longe, conforme as luzes dos mastros que apareciam no horizonte.

Outro caminho que não me sai da lembrança era o descer a Rua de Marcílio Dias em direção à estação de ônibus, com olhar curioso para os belos azulejos do prédio dos Correios. Depois, atravessar a praça da Matriz com aquele movimento intenso e ver a elegância dos bancos de concreto, dos postes e das fontes antigas até esbarrar no Pavilhão Universal, o que sempre era motivador.

Acompanhado da professora e mãe, seguia todo fagueiro com a lancheira na mão, boné na cabeça e calças curtas de suspensório em direção ao grupo escolar. Um dia tornou-se mais feliz: foi quando fiz a foto desejada com o lambe-lambe preferido porque tudo se vestiu de luz especial naquela tarde, de tal modo que nunca mais saiu de mim a alegria daquele momento e a beleza daquele lugar.

Na mesma época de menino bem pequeno, lembra-me o coração agitado pela saudade, fui conhecendo um caminho que nunca mais deixaria de me encantar: aquele que conduzia ao Teatro Amazonas. Todos os domingos, no meio da tarde, fosse chuva ou sol, com roupa engomada com carinho, poesia na ponta da língua ou discurso escrito em papel almaço, eu seguia entre feliz e nervoso ao encontro do Vovo Branco, e, mesmo ambientado como Teatro desde muito cedo, todas as vezes que era chamado ao palco sentia frio na barriga e respirava fundo. Depois, subia na cadeira para alcançar o microfone, fazia pose e declamava procurando dar maior elegância às palavras, afinal, era o orador oficial do programa e o orgulho dos meus pais.

Tempos depois o prazer se completava ao caminhar despreocupado em direção do Instituto de Educação, logo após o almoço, para experimentar a boa convivência na Praça do Congresso, ver o desfile das estudantes enrolando o coes das saias para mostrar ao menos os joelhos, participar das conversas de cada grupo e falar de política estudantil, sempre do sempre com o caderno enrolado no bolso da calça que eu achava suficiente para cumprir todas as aulas e por ser incapaz de atrapalhar as brincadeiras levadas nos corredores do prédio por entre as repreensões de dona Valentina, dona Santa, tia Lila e outros anjos que nos guardavam.

No começo dos anos 1970 o caminhar era mais longo, em busca da igreja dos Remédios. As preocupações começavam a retirar a paz tão própria dos sonhos da juventude. Mesmo assim, olhar o rio de perto na frente do mercadão e subir as escadarias da vetusta Faculdade de Direito tornou-se momento preferido, encantado pelo desejo de tornar-me profissional respeitado ao modo dos meus irmãos e irmãs, cujo tempo exemplo maior me acolhera no primeiro dia de aula: O João, mestre de tantas gerações. Eu queria ser advogado do Júri Popular, que nem ele: elegante no falar, técnico no exame das provas, contundente no discurso em defesa do constituinte, singelo na postura, modesto na convivência, gigante no cumprimento do dever.

Anos mais tarde, deram-me o Teatro Amazonas sob minha responsabilidade e dele cuidei com desvelo, mas, ainda assim, tanto tempo passado, todas as vezes que caminhava em direção ao palco no cumprimento de dever de ofício, sentia o mesmo frio na barriga e respirava fundo, como nos tempos de menino. Foi em passeios e caminhos pela vida que encontrei minha Rosa, e eles jamais se perderam de mim como ela não se perderá, e vamos seguindo juntos nessa Manaus dos meus encantos e sonhos de amor e felicidade.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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