* Renata Rangel

Era um dia modorrento de outubro de 2011. Eu, à toa por conta do calor senegalês de Ribeirão Preto. Toca o telefone. Simone, psicóloga da Vara da Infância e da Juventude. “Como vai?”. Eu: “Esperando”. Ela: “Sua espera acabou. Sua filha chegou”.

Eu me joguei no sofá, tremendo, suando, chorando. “Que idade ela tem?”. Disse que tinha dois meses. Bebezinho! O que eu mais queria!

Uma criança de dois anos é considerada recém-nascida pelo Juizado. Portanto, difícil de adotar. Uma de dois meses é quase impossível.

Simone disse que eu deveria ir ao fórum no dia seguinte para saber a história da menina e então decidir. Fui.

Ela tinha sido abandonada ao nascer. A psicóloga perguntou se “traços negroides” eram problema. Nenhum. Então me disse que a bebê estava lá mesmo, no fórum.

Quando a vi, pensei que iria desmaiar. Tão pequenina, magra, com olheiras. Minha filha! Peguei-a no colo, fiz força para não chorar. Quando nos deixaram sozinhas, ela segurou meus dedos com força. Ficou me olhando, como se dissesse “me leve”. Sussurrei: “Você é minha filhinha do coração, sou sua mãe”. Então eu soube: estávamos predestinadas.

No pedido de adoção, o postulante diz o que quer. Cor, idade, se aceita doenças, deficiência etc. Nossas ressalvas eram só para soropositivo ou vítima de violência.

Nosso pedido foi feito no fórum central de São Paulo, onde eu vivia então. A fila era de 1.200 candidatos. Nas conversas com a assistente social e a psicóloga fomos avisados de que o processo demoraria.

Não imaginei que demorasse tanto. Foram cinco anos até minha filha surgir.

Nesse tempo, tudo mudou: me separei, voltei para Ribeirão, de onde saí aos 18. O médico me aconselhou a levar uma vida menos estressante.

A decisão de adotar surgiu por causa da minha saúde. Fiquei internada 15 dias com uma doença grave. No dia da alta, meu ex, ao lado da cama, me disse: “Não acha que é hora de fazermos algo importante?” Respondi: “Sim, adotar nossa filha.” E entramos com o processo.

Mais tarde, já separada, fui a São Paulo saber do processo. Arquivado. Fiquei seis meses pensando se o desejo de um filho era projeto só do casal ou meu também.

Pesei prós e contras de criar um filho sozinha e decidi: EU quero! Desarquivei o processo e o transferi para Ribeirão. Repetiram-se as entrevistas. Fui aprovada novamente. Recomeçou a espera.

Tenho meus motivos para crer que meu encontro com Manuela estava decidido em algum lugar do Universo.

Em agosto de 2011, fiz uma novena para Santa Rita de Cássia que incluía três pedidos: um impossível, um necessário e um de negócios. Mas só pedi pela minha filha. Pois foi em agosto, dia 4, que ela nasceu. Creio que Santa Rita a escolheu para mim.

Manuela estava em um abrigo com outros recém-nascidos. Visitei-a todos os dias por uma semana. Já no primeiro dia levei minha mãe, Jacy, que se apaixonou por ela -paixão correspondida.

Em três dias montei o quarto dela com a ajuda de minha cunhada. Berço com o anjo da guarda da família, banheira, roupinhas, tudo!

Ela chegou na manhã de 12 de outubro. Minha irmã Patrícia e as filhas vieram recebê-la. E Lucia, minha empregada e amiga, com a filha. Ambas ajudaram muito.

Recebi a guarda provisória por seis meses e depois de outros seis saiu a adoção definitiva. Está lá, na certidão de nascimento: Manuela Garcia Rangel. Minha filha!

Manuela é linda, espertíssima e, melhor, alegre. Já tem 90 cm e 11 quilos. Dorme a noite toda, acorda cantando, fala numa língua que só ela domina, corre pela casa.

Esperei cada dia desses meses todos que me chamasse de “mãe”. Em 17 de janeiro, correu em minha direção de braços abertos e gritou: “Mamãe!”. Fiquei eufórica.

Manu corre pelo quintal, gosta de dançar. Às vezes, dança segurando as pontas do vestido. Já joga charme, a danadinha. É amada e acalentada por uma trupe: mãe, vovó, Lucia, babá e pai.

Sim, surgiu um relacionamento. Vasco já vivia comigo quando Manu chegou. É louco por ela e ela, por ele. É pai de fato e será de direito. Vai entrar com pedido de adoção.

Minha vida mudou. Estou bem de saúde, calma. Minha mãe, 82, renasceu. Manuela veio para renovar a família. Quando dizem que fiz algo maravilhoso ao adotá-la, digo: não, que maravilha ela fez por mim! Tenho um anjo em casa. O meu maior amor.

*Psicóloga e analista de recursos humanos. Colunista da Folha de São Paulo. Fonte: Folha de São Paulo, Caderno Equilíbrio, página 07, edição do dia 07/05/2013.

 

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