Drauzio Varella
*Drauzio Varella

Por capricho do destino, os últimos movimentos perdidos foram os do polegar, do indicador e do dedo médio da mão direita.

O nome é forte, inesquecível. O dono dele, ainda mais.

Eu o conheci no início dos anos 1980, quando começou a namorar a também jornalista Marta Góes, amiga inseparável da Regina, minha mulher.

Naquele dia, não imaginei que a amizade das duas nos aproximaria pelo resto da vida.

Fomos amigos íntimos por quase quatro décadas, período em que acompanhei sua passagem pelos jornais e revistas mais importantes da nossa imprensa. Entre os pares, seus textos eram reconhecidos como dos mais brilhantes do jornalismo brasileiro. Só ouvi elogios dos que trabalharam com ele.

Quatro anos atrás, num jantar em casa de amigos, ele falou de problemas nos joelhos e no quadril resistentes às infiltrações que o ortopedista aplicava. No fim, Regina e eu demos carona para ele e Marta. Ele desceu do carro apoiado no ombro dela, com passos trôpegos. Não gostei. Já vira aquela marcha em afecções neurológicas.

No dia seguinte, pedi que consultasse um neurologista.

O diagnóstico foi o de uma doença degenerativa conhecida como ELA (esclerose lateral amiotrófica), caracterizada por perda progressiva da atividade motora, alterações de sensibilidade, fraqueza muscular e restrição dos movimentos.

Os tratamentos são paliativos. O curso é variável. Vai do caso do marido de uma de minhas pacientes que, entre cair antes de chegar na bola para bater um pênalti e o dia da morte, passaram-se dez meses, ao do físico Stephen Hawking que conviveu com as limitações físicas durante décadas.

Nos meses seguintes, a marcha se tornou mais desequilibrada, com tropeços que o fizeram ir ao chão algumas vezes. Para ter mais firmeza, passou a andar de bengala, costume que acrescentava certo charme à figura do homem bonito que era.

O perigo das quedas o levou a comprar uma cadeira de rodas para sair à rua, que logo seria necessária para os deslocamentos em casa.

Nos quatro anos seguintes, a motricidade foi debilitada de forma gradual até comprometer a capacidade de se manter em pé, movimentar braços e pernas do lado esquerdo ou virar o corpo na cama. Mesmo afetados, os membros do lado direito resistiram mais. Passava os dias na cadeira de rodas elétrica, dirigida com o que lhe restava de movimento na mão direita.

Impiedosa, a degeneração chegou aos músculos da fala. Articulava as palavras como se estivesse bêbado, a única que ainda o compreendia era Marta, companheira atenta e amorosa. Alguns meses mais, nem ela.

O jornalista Nirlando Beirão

O jornalista Nirlando Beirão no coquetel de lançamento do Wine Club do Brasil, no Baretto, em SP, em outubro de 2006 João Sal/Folhapress

Ricardo Ohtake, Marcy Junqueira e Nirlando Beirão durante jantar na casa do então embaixador da Espanha, Ricardo Peidró, em São Paulo, em maio de 2007 João Sal/Folhapress

Nirlando Beirão no lançamento de seu livro “Meus Começos e Meu Fim”, em maio do ano passado Marlene Bergamo/Folhapress

A paralisia da musculatura da deglutição o obrigou a aceitar a sonda gástrica. Perdeu o prazer dos vinhos de que mais gostava.

Em contraste com a devastação motora, na ELA a cognição permanece intacta.

O paciente assiste à paralisação dos músculos, à incapacidade de articular as palavras, de engolir sem engasgar e de realizar as tarefas mais insignificantes sem o auxílio de cuidadores, com o entendimento claro de tudo o que se passa com ele e os que o cercam.

Enquanto a doença apertava o cerco, Nirlando manteve a racionalidade e a consciência de que era preciso viver sem levar em conta as amarguras que a sorte lhe reservara. Por capricho do destino, os últimos movimentos perdidos foram os do polegar, do indicador e do dedo médio da mão direita que, apesar de combalidos, permitiram que escrevesse o livro “Meus Começos e meu Fim” e as colunas da Carta Capital, revista em que ocupava o cargo de redator-chefe.

Nunca ouvi um lamento, queixa ou comentário negativo a respeito da condição em que se encontrava.

Para falarmos das limitações que a doença impunha, eu precisava insistir, jamais partia dele a iniciativa.

Com os três dedos da mão direita que teimavam desobedecer ao comando cerebral, conseguiu escrever até minutos antes da crise definitiva de falta de ar.

Quanta coragem, querido amigo, quanto discernimento e sabedoria para extrair do mistério de estar vivo o último fiapo de prazer intelectual.

*Médico e escritor. Colunista da Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 10/05/2020.
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