“Só um pouquinho
De proteção
Ao maior abandonado
Teu corpo com amor ou não
Raspas e restos me interessam
Me ame como a um irmão
Mentiras sinceras me interessam
Me interessam”
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A poesia de Cazuza tem semelhanças metafóricas com a recente entrevista, dada a um canal de TV, no distrito federal, pelo general Augusto Heleno, que se manifestou a respeito de duas questões palpitantes. A primeira foi sobre o custo Amazônia, como se fosse algo insuperável e servisse como um pedido de desculpas pela ausência de um projeto nacional para a região. “…na Amazônia tudo é muito caro, muito difícil”. Cara é a opção do Brasil em contingenciar recursos da população local. A segunda diz respeito às opiniões internacionais.“Dispensamos as opiniões de estrangeiros sobre Amazônia”. Ora, general, essas opiniões importam sim. Foi por causa delas que o governo federal mudou um pouco sua política ambiental equivocada, segundo as empresas nacionais e estrangeiras e os grandes bancos que atuam no Brasil. Algumas são mentiras que acabam virando verdade se mistificadas pelo jornalismo hepático de alguns veículos. Não faz sentido separar opiniões nacionais e estrangeiras. A Democracia é um princípio universal. Internamente o país está rachado pela demagogia partidária do “nós contra eles”.

Confisco ilegal

Falando, ainda, em custo Amazônia, é amoral é ilegal que uma região tão desprovida de tudo, água potável nas torneiras, sem energia elétrica em 30% das comunidades do Amazonas, taxado de paraíso fiscal, seja transformado no Baú da Felicidade da Receita Federal? Não precisa responder, estimado general Heleno, ex-comandante Militar da Amazônia, nem tentar justificar o fato do Brasil, tratar como almoxarifado natural este seu pedaço Amazônia. Em muitos momentos, vale recordar, o ex-comandante partiu pra cima das Ong’s e da política federal indigenista. E não poupou detalhes para relatar a penúria em vários batalhões de fronteiras. Neles, militares e suas famílias vivem a léguas de distância dos centros urbanos, desfalcados de cuidados especiais de saúde, lazer, enfim, dos benefícios da civilização. Certamente não é este seu projeto de soberania brasileira sobre a Amazônia.

“É como se fôssemos uma Colônia”

Logo após seu mandato apareceu outro Comandante na Amazônia, o general Eduardo Villas-Bôas, um defensor intransigente da ordem constitucional, que jamais abdicou de manifestar sua opinião sobre a postura do Brasil central em relação à floresta. “Temos metade do nosso território a ser ocupado, integrado à dinâmica da sociedade. A Amazônia, como não está integrada ao país, não há conhecimento no sul da sua realidade, seu potencial. É como se fôssemos uma colônia do Brasil. Ela não é analisada, interpretada, estudada e compreendida numa visão centrada da própria Amazônia. Isso nos coloca numa posição periférica”.

Alfredo Lopes editor-geral do Portal BrasilAmazoniaAgora

Ação federal desarticulada

Quem distribui quantos militares devem se espalhar pelo Brasil afora? Qual é o critério? E por que apenas 7% são alocados na Amazônia? Há quatro anos, o TCU e o MPF tentam otimizar a ação federal no Estado do Amazonas, considerada por ambas como desconectada, perdulária e ineficiente. Se os militares são desprovidos de recursos, o contingente da Polícia Federal é igualmente ínfimo para uma região que é maiormaior que a Europa Ocidental, e que é um mega corredor de tráfico dos países vizinhos. No Norte, as facções criminosas comandam o interior e a capital, oferecem empregos, enfrentam a ordem pública, casam e batizam quem lhes convém. Não é esta a proposta…

O Brasil não é de esquerda nem de direita

Quanto é o Orçamento do INPA, o maior centro de pesquisas tropicais do planeta? R$ 50 milhões anuais. Soberania, por favor, é informação, Ciência, e inclusão social e prioridade nacional. Aqui está a senha das melhores respostas para as demandas mais profundas da Humanidade. Quem diz isso são cientistas estrangeiros e brasileiros, estes, vítimas de cortes ideológicos em projetos de pesquisa em nome de uma brasilidade estéril. A pátria não é de esquerda nem de direita. É um mega desafio de comunhão de propósitos que aproveitem suas potencialidades em benefícios de alcance civil. Muito curioso que o Dia da Amazônia, do Amazonas e de nossa Independência Nacional sejam quase coincidentes. Sua paixão pela Amazônia, general Heleno, é um sentimento compreensível, intraduzível e contagiante, e com certeza daí decorre sua, e a nossa impetuosidade e indignação natural.

Opiniões, apenas opiniões, despregadas de atitudes, não nos ajudam. Às vezes, porém, mentiras sinceras interessam, erros de cálculo e de pouca vivência. Melhor que utilizar as redes sociais para implodir o espírito de brasilidade, ou levar a sério as promessas de salvadores da pátria de cartola e charutão. O grande problema no país tem sido uma comunicação torta e na Amazônia a comunicação truncada ou ausente. Os cabos de fibra ótica do Programa Amazônia Conectado (PAC) permanecem, há cinco anos, no fundo do rio Solimões e afluentes. Dizem que serão (?) resgatados pelo Programa Amazônia Integrada e Sustentável (PAIS), um dos subprogramas do Programa Norte Conectado. A governança desenhada, para quem conhece a Amazônia, é proposta ingovernável. Impressão dos nativos é de que o autor do desenho funcional, como é de praxe, confundiu Amazônia com Amazonas, e colocou neste estado municípios pertencentes ao Pará, a saber, Curuá, Juruti, Óbidos, Oriximiná, Terra Santa. Para o estagiário, Boca do Acre só pode ser no Acre, mas não é. Fica no Amazonas. Supomos que essas mentiras são sinceras e, por isso, nos interessam. “Estou em frente ao seu portão!”

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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