*Luiz Felipe Pondé

Vivemos num ambiente em que a privacidade morreu. Qualquer um pode te filmar, gravar, fotografar em qualquer situação privada sem que você saiba.

Sendo você uma pessoa pública, o risco é evidentemente maior, mas, mesmo sendo você alguém absolutamente anônimo, o risco permanece. Uma pessoa pública hoje deverá evoluir para uma atitude monástica em relação à sua vida privada, às suas opiniões em âmbito privado e às mídias sociais. Ou ela praticará “fake ethics” como forma de segurança.

Para entender como entramos na era do “fake ethics” você deve ter sempre esse fato diante dos seus olhos e do seu coração. O linchamento hoje é uma garantia de que a mentira moral atingiu níveis nunca “dantes” vistos no mundo.

Mentira moral é algo conhecido por qualquer pessoa que tenha se dedicado ao estudo da moral. Nelson Rodrigues costumava dizer “mintam, mintam por misericórdia”. Isso quer dizer: a vida em sociedade sem uma certa dose de mentira é insuportável. Somos muito frágeis para viver à base da verdade 100% do tempo. Uma vida “transparente” seria irrespirável.

A morte da privacidade via mídias sociais é essa transparência. E, quando a vida se torna transparente, o nível de mentira tende a crescer, do contrário todo mundo será linchado por algum grupo o tempo todo.

O nível “saudável” de mentira sempre foi guardado para pequenas opiniões em jantares de Natal ou reuniões da “firma”. Agora, com o politicamente correto e a transparência das mídias sociais, a mentira se tornará marketing ético.

Quem estiver discutindo qualquer assunto mais complexo ou delicado mentirá para passar a ideia de que tem a opinião correta. E terá medo.

A mentira com a intenção de passar a imagem de que você só tem opiniões corretas é “fake ethics”. Você ficará preso nessa ética falsa, do contrário você estará perdido publicamente. A inquisição se tornou moto contínuo no mundo das mídias sociais.

A substância da moral pública sempre foi, em alto grau, a hipocrisia. Negar isso é politicamente correto. E hoje, se você não for politicamente correto, você é linchado, perde amigos, empregos, contatos, sofre processos.

Quer ver como sempre existiu um nível razoável de mentira na sociedade? Se sua cunhada fez um regime e ainda assim engordou, você só dirá que ela engordou se for um escroto. Se um amigo seu pintou um quadro e você achou horrível, você só dirá que acha horrível se for um escroto. Esses exemplos nada têm a ver com a “fake ethics”. Esses são exemplos de mentira misericordiosa.

“Fake ethics” é a prática profissional e pública da opinião politicamente correta a fim de conseguir trabalho, amigos, seguidores, patrocínio, contratos, contatos, sexo, enfim, um “futuro”.

Qualquer coisa que dependa da sua imagem pública exigirá de você uma postura “fake”. Se praticar “fake news” é ruim para o receptor de qualquer mensagem –pecado capital no jornalismo–, praticar “fake ethics” barateia o debate, atrofia a reflexão, nega a ambivalência da realidade, as sombras que nos cercam, a violência do “bons”, as taras silenciosas, enfim, a “cola” da própria vida, que são os pecados, as inseguranças, os fracassos, os impasses que toda experiência humana, histórica e civilizada implica.

Exemplos: tudo será racismo, tudo será assédio sexual, tudo será homofobia, LGBTQfobia, tudo será feminicídio, tudo será machismo, tudo será desigualdade social, tudo será contra os direitos dos trabalhadores, tudo será contra a causa indígena, tudo será contra as vítimas sociais ou contra a democracia.

A culpa toda será da Igreja. Logo, você, com medo, praticará “fake ethics”. E, com o passar do tempo, sem mesmo se dar conta, perderá a capacidade de reflexão pública em nome do sucesso e da segurança. Essa é a morte do debate público.

*Filósofo e escritor. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada C6, de 04/12/2017.
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