Drauzio Varella
*Drauzio Varella

Falta de pesquisas é reflexo do valor que a sociedade dá ao sofrimento das mulheres.

Menstruar é uma característica humana, raríssima entre os mamíferos. Menstruam as mulheres, as chimpanzés, as fêmeas de algumas espécies de morcegos e do musaranho-elefante, animal africano do tamanho de um rato.

Enquanto nas demais espécies a camada que reveste a parte interna do útero (endométrio) é absorvida no fim de cada ciclo e a fase fértil é exibida por meio de inchaço dos genitais externos, alterações comportamentais e odores que atraem os machos, nas mulheres a ovulação é mantida em segredo. O único sinal visível de fertilidade é o sangramento vaginal, estrategicamente exposto nos dias em que não há óvulos a fecundar.

Virginia Sole-Smith faz uma revisão na revista Scientific American, na qual explica que o endométrio se espessa no decorrer do ciclo, em preparação para aninhar os óvulos fecundados. Mantê-lo nutrido indefinidamente em condições ideais para a nidação exigiria gastos metabólicos permanentes, evitados ao eliminá-lo para reconstruí-lo no ciclo seguinte.

A menstruação sempre foi cercada de tabus que dificultaram a realização de estudos dos transtornos causados por ela.

Publicada em 2018, uma pesquisa com 738 mulheres da Arábia Saudita revelou que 91% delas referiam pelo menos uma queixa menstrual: irregularidade, interrupção, dores, sangramento abundante.

Levantamentos conduzidos em outros países mostraram que: 1) Uma em cada cinco mulheres tem cólicas menstruais fortes, a ponto de limitar as tarefas diárias. 2) Uma em cada 16 mulheres sofre as dores intensas da endometriose, doença em que sangue menstrual e restos de endométrio migram para o interior da cavidade abdominal, instalando-se nos órgãos pélvicos, nos intestinos e no peritônio. 3) uma em cada 10 mulheres apresenta a síndrome do ovário policístico, capaz de provocar irregularidades nos ciclos, problemas dermatológicos e infertilidade. 4) Cerca de 80% das mulheres se queixam de sintomas do transtorno disfórico pré-menstrual (TPM) – irritabilidade, depressão, ansiedade – na semana anterior à menstruação, que persistem até o segundo ou terceiro dia depois que o sangramento se instala.

Menstruar 12 vezes por ano, durante anos consecutivos, é fenômeno moderno. Antes da segunda metade do século 20, as mulheres engravidavam cedo e as taxas de natalidade eram altas. Somados aos nove meses de gravidez os períodos de amamentação, cada filho significava dois a três anos de amenorreia. Estima-se que durante a vida fértil uma mulher do passado menstruasse cerca de 100 vezes, número incomparável à média de 400 menstruações atuais.

Além da tendência moderna de engravidar mais tarde e de dar à luz menos vezes, as meninas de hoje menstruam mais cedo. No Brasil e em muitos países, a menarca ocorre em média aos 12 anos de idade. Há apenas 20 ou 30 anos, acontecia seis meses mais tarde; no início do século 20, aos 14 anos.

Dietas com densidade calórica alta, obesidade infantil, sedentarismo, estresse e até fatores ambientais, como a exposição aos bisfenois e ftalatos contidos nos plásticos, explicariam essa precocidade.

O tabu da menstruação vem de longe. Em 1920, o húngaro Béla Schick assegurou ter observado que buquês de flores murchavam mais depressa em mãos de mulheres menstruadas. Concluiu que o sangue menstrual conteria uma espécie de veneno. Na Amazônia, há quem jure que o boto-cor-de-rosa ataca as canoas que transportam mulheres “naqueles dias”.

Nos anos 1950, pesquisadores da Universidade Harvard injetaram sangue menstrual em animais. As mortes ocorridas não foram interpretadas como resultantes de infecções bacterianas, mas provocadas por improváveis substâncias tóxicas, às quais deram o nome de menotoxinas.

Associar a menstruação às impurezas é crença presente em diversas culturas. O mesmo preconceito está por trás da dificuldade que as mulheres têm em tocar nesse assunto, em geral restrito à intimidade entre elas.

A falta de pesquisas para desvendar a natureza de um fenômeno biológico que interfere com o cotidiano de metade da população mundial, durante décadas, é reflexo do valor que a sociedade atribui ao sofrimento das mulheres e do comportamento autoritário que os homens insistem em manter para subjugar os desígnios do corpo feminino.

Se sofrêssemos, prezado leitor, as cólicas e os desconfortos comportamentais do período menstrual, aceitaríamos com passividade a justificativa de que “isso é coisa de homem”?

*Médico e escritor. Colunista da Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 26/05/2019.
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