Foi nesse Tradicional Colégio Progresso Paraense que outrora pertencera a Julia Barjona Labre, que estudou os adolescentes Israel Benchimol, Rafael Benchimol e Samuel Benchimol em Belém do Pará. 

Durante o governo episcopal de Dom Jaime de Barros Câmara na arquidiocese de Belém do Pará, promoveu-se a reforma dos estudos do seminário, adquirindo Colégio Progresso Paraense, onde estudaram os adolescentes Israel Benchimol, Rafael Benchimol e Samuel Benchimol que já moravam em Belém do Pará com sua avó (atual Colégio Santa Maria de Belém), que surgiu em 1952, a sede do Círculo Operário e o Seminário Ferial (atual Centro de Treinamento Tabor, hoje em Icoraci).

Este tradicional Colégio Progresso Paraense pertenceu a família da professora Júlia Barjona Labre, de acordo com o próprio depoimento deixado por ela. Encerrou suas atividades no começo da década de 1950. O cenário de hoje é diferente daquele período, porém, temos que destacar que ocorreram mudanças complexas e cada vez mais dinâmicas que marcaram essa atividade em todo o mundo e, que diferente daquela época hoje temos avanços vertiginosos dos conhecimentos científicos e tecnológicos, principalmente no campo da comunicação e da informática.

Foi, porém, a caminhada paciente de Israel Benchimol, Rafael Benchimol e principalmente Samuel Benchimol, comprometida com desejos e sonhos iniciados pela família naquele Colégio, que deram o ponto de partida para que as experiências daquele momento formassem os homens do amanhã. Eles venceram o desejo da formação para o futuro.

Já nessa época, os meninos Israel Benchimol, Rafael Benchimol e Samuel Benchimol davam partida em suas trajetórias intelectuais. Esta afirmação tornou-se realidade com o passar do tempo, pelos avanços e pelas conquistas obtidas. Foram todos alunos aplicados aproveitando esse bafejar da sorte. Samuel tornou-se um amazonólogo, cuja, liderança foi um modelo de inquietação em defesa da Amazônia, tornando-se conhecido mundialmente. Fez de sua vida estudantil e acadêmica um aprendizado para a ciência partilhando conhecimentos em sala de aula.

É com este traço de amor a Amazônia e de pesquisador comprometido que dividiu suas experiências como docente, fez talvez sua maior ação, dividiu-se entre as relações comerciais e a sala de aula. O Colégio Progresso Paraense, hoje Colégio Santa Maria de Belém, guarda no silêncio de suas paredes e sala de aula, momentos importantes dos meninos Israel Benchimol, Rafael Benchimol e Samuel Benchimol.

Arthur Porto (bisavô de Raul Porto) e professor do Colégio Paraense/ Acervo:

Samuel Isaac Benchimol assim relata parte de sua infância no Colégio Progresso Paraense em Belém do Pará.

“[…] Foi minha mãe quem nos salvou da morte, a mim e a meus irmãos. Uma velha máquina de costura ela confeccionava blusões e calças de brim azulão para seringueiros, e conseguiu assim reunir algumas economias, mandando-nos para Belém do Pará. Seriamos criados e educados pela avó portuguesa Alice. Tinha eu quase sete anos e, ainda não sabia ler e nem escrever. A doença não me permitia frequentar a escola. Uma humilde professora de nome Madalena vinha à nossa casa, na rua Batista Campos, nº 165, ensinar-lhe a ler e a decorar a tabuada, todos os dias de manhã. Minha avó exímia conhecedora de medicina caseira fazia-me tomar, todos os meses um purgante de mamona com calomelano; ela mesma me ajudava a engolir com auxílio de uma chave de porta, que eu apertava nas mãos. Usava ela, desse modo de uma rara intuição psicológica, para que eu pudesse suportar o gosto intragável da droga. O certo é que, com sua ajuda e do farmacêutico Josias, nosso vizinho, acabei vencendo o impaludismo.”¹ Pág. 61.

1BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: um pouco antes e além depois. ² edição, revisada. Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2010. Pág. 61 

Aula de desenho funcionando sob a direção do professor doutor Teodoro Braga/ Foto: Annais do Colégio Paraense (1907-1915)/ Álbum do Pará. Paris: Imprimerie Chaponet, s/d.

“[…] Quando melhorei e com a mesada que recebíamos de nossos pais, que ficaram lutando nos seringais, foi matriculado no Colégio Progresso Paraense, do professor e desembargador Artur Porto, onde minha tia Anita Siqueira ensinava. Ali comecei meu aprendizado e fiz o curso primário em companhia de colegas paraenses, a maioria de humildes e pobres como eu. Recordo-me de alguns entre eles: Aluísio Chaves, mais tarde governador do Pará, José Augusto Borborema, que mais tarde seria meu colega de magistério como professor da Faculdade de Direito e desembargador do Tribunal de Justiça, cuja, morte prematura tanto me comoveu. Isaac e Mário Assayag, hoje empresários e lutadores na Amazônia Ocidental e, Isaac Farache, um executivo de alto nível.” ²Pág. 61.

2BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: um pouco antes e além depois. ² edição, revisada. Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2010. Pág. 61 

“[…] Evoco do fundo de minha memória a imagem do venerando desembargador Artur Porto, diretor de nosso colégio e, parece que ainda ouço os sons dos cavos de seus passos arrastados. Tinha ele um defeito na perna e, isso e mais a sua idade anunciavam de longe a sua presença trôpega nos corredores, fazendo cessar as nossas travessuras na sala de aula. Tínhamos por ele o máximo respeito.” ³ Pág. 62..

³BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: um pouco antes e além depois. ² edição, revisada. Manaus: Universidade Federal do Amazonas, 2010. Pág. 62. 

Manaus, 1939, Samuel, Rafael e Israel/ Acervo: Memória Fotográfica da Família Benchimol

O professor Arthur Theodulo dos Santos Porto nasceu no dia 4 de abril de 1966, na cidade do Recife, Pernambuco, sendo seus pais o Conferente de Alfândega Coronel João dos Santos Porto e dona Emília dos Santos Porto. Fez seus primeiros estudos em sua cidade natal ingressando por fim, na tradicional Faculdade de Direito de Recife, tendo sido aluno de Tobias Barreto, entre outros mestres de excepcional talento.

Concluído o curso jurídico, viajou para o Estado do Pará, onde exerceu primeiramente o cargo de Promotor de Justiça da Comarca de Bragança. Por ocasião de um dos pleitos eleitorais da Província veio a denunciar diversas fraudes o que lhe valeu uma perseguição implacável contra sua pessoa por parte da facção dominante. Em face de sua atitude corajosa, o então governador do Estado doutor Justos Chermont, foi pessoalmente à Bragança apurar os fatos e verificando que, no caso em apreço, nada mais fizera a que cumprir estritamente o próprio dever com risco da sua vida, convidou-o para ser Oficial de Gabinete função que desempenhou até 1890, quando retornou a Pernambuco.

Voltou para o Estado do Pará no ano seguinte, para casar-se com a jovem Júlia Pinheiro, filha do ilustre Coronel José Caetano Pinheiro, Senador da República e um dos líderes políticos de maior prestígio em toda a zona de Bragança e, assentar banca de advogado dedicando-se então a profissão que tão bem soube honrar durante muitos anos de intensas atividades, não só no Fórum de Belém, defendendo causas cíveis e criminais, como na imprensa local, onde por vezes teve de sustentar polêmicas memoráveis abalizados juristas da época, entre os quais o brilhante e conhecido causídico doutor Mac-Dowell. Instalou o seu escritório de advocacia à travessa sete de setembro n° 50, primeiro andar, em Belém, onde logo se instalaram também, os ilustres bacharéis doutor Euládio Lima, Alfredo Souza, José Carneiro da Gama Malcher e o Solicitador Euzébio Cardoso. No desempenho de tão rosa carreira distinguiu-se pelo brilho de seu talento e pela elevação moral de seu caráter criando por isso, uma sólida posição social e grande conceito como jurista.

Foi professor a Cadeira de Geografia do antigo Liceu Paraense e posteriormente de História Universal da Escola Normal do Pará, onde disputou e obteve Cátedra dessa disciplina em 1893, em brilhante concurso ao qual se candidataram fortes concorrentes, entre os quais, Raimundo Beleza e Antônio Passos de Miranda.

1932- Samuel, Rafael, Alberto ( no colo), Alice, Israel, Robine, em Belém do Pará/ Acervo: Memória Fotográfica da Família Benchimol.

Ocupou diversas vezes cargos importantes na Administração Pública Estadual, como Procurador Fiscal da Fazenda, Procurador-Geral do Estado, Membro do Conselho Superior de Ensino e Secretário-Geral do Estado no Governo do Doutor Emmiliano de Souza Castro a quem sucedeu interinamente no Governo do Estado. Ainda exercia altas funções quando em 1927, foi nomeado para o Tribunal Superior de Justiça por merecimento, na vaga aberta pelo falecimento do Desembargador Alfredo Barradas, tendo sido presidente do Egrégio Tribunal de Justiça.

Sobrevivendo a Revolução de 1930 e aposentado como Desembargador o Professor Arthur Theodulo dos Santos Porto passou a dedicar-se inteiramente as atividades pedagógicas no conceituado Colégio Progresso Paraense que foi fundado em 03 de julho de 1907, pela família de Júlia Barjona Labre, sob os melhores auspícios e que dirigiu com proficiência até 1942, ano em que veio falecer.

O regime escolar era duro, como, aliás, em todas as escolas primárias do Brasil na década dos anos trinta. A palmatória, a sabatina e o boato de que nos colocavam uma famosa mascara de “orelha de burro”, na porta do colégio, para que os pedestres da rua Mundurucus testemunhassem o nosso desamor ao estudo, serviam de instrumentos de pressão para que estudássemos as lições e exercitássemos nossa inteligência e memória. Não guardo testemunho de que algum colega tenha ficado frustrado, criando complexo ou sofrido neuroses devido ao rigor do ensino de então, face aos novos e modernos métodos pedagógicos de liberdade e permissividade da educação atual. A disciplina era rígida, inflexível, o asseio corporal exigido de cada aluno. Tínhamos revista diária nos sapatos, verificavam se estavam engraxados; como não tínhamos dinheiro para graxa, lembro-me que defronte do colégio, na Praça Batista Campos, havia papoulas no jardim; então eu e outros íamos colhê-las para passar nas nossas botas, torná-las negras, luzidas, tirando assim das marcas dos chutes nas pedras soltas das calçadas. À tarde, íamos caçar borboletas com puçá, ao término das aulas. Foi o nosso primeiro “hobby” de colecionador e muitas vezes nos serviu para ganhar algum dinheiro vendendo-as a um antiquário amigo. Para poupar as nossas botas, usávamos ferradura na ponta e no calcanhar e depois de gastas, tínhamos ainda o recurso da meia-sola e da sola inteira. ( )

(BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: um pouco-antes e além-depois. 2.ª ed. revisada. Manaus: Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2010. Pág. 61 e 62).

(Os dados biográficos do professor Arthur Theodulo dos Santos Porto (1866-1942), foi fornecido pelo seu filho Raul Porto, de Belém do Pará).

(Annais do Colégio Progresso Paraense (1907-1915). Belém: Grêmio Literário “Joaquim Nabuco 1915).

(Álbum do Pará. Paris: Imprimerie Chaponet, s/d.)

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Abrahim Baze
*Amazonense de Manaus. Graduado em História pelo Centro Universitário do Norte e pós-graduado em Ensino à Distância pelo Centro Universitário UNISEB-COC, de Ribeirão Preto/SP. Recebeu o título de Notório Saber em História, pelo CIESA, de Manaus/AM. Fundador e organizador dos museus da Sociedade Beneficente Portuguesa do Amazonas, Luso Sporting Clube, Rede Amazônica, Memorial e Biblioteca Senador Bernardo Cabral, Centro Cultural Luso Brasileiro do Amazonas, Centro Universitário Luterano de Manaus, Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos e do Atlético Rio Negro Clube. Diretor do Instituto Cultural da Fundação Rede Amazônica e apresentador dos Programas de TV: Literatura em Foco e Documentos da Amazônia. Autor de mais de 65 títulos sobra História da Amazônia. Membro da Academia Amazonense de Letras, Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, Academia de História do Amazonas, Academia de Medicina do Amazonas, Academia Maçônica de Letras do Amazonas, Associação Nacional de Escritores (Brasília), Associação dos Escritores do Amazonas e Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas.

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