Drauzio Varella
*Drauzio Varella

Pressão descontrolada traz complicações graves.

Todo mundo tem alguém com pressão alta na família.

É uma epidemia. Não poupa ricos, pobres, velhos, moços, magros, gordos, negros ou brancos. Como em qualquer outra, sofre mais quem não têm dinheiro nem acesso à assistência médica de qualidade.

A doença é tão prevalente, que já perdemos o respeito por ela. Encontro o amigo, pergunto pela mãe, ele responde: “Está ótima, aquele jeitinho dela, pressão alta, meio chata de controlar…”.

Sinto vontade de dizer: “Sua mãe está mal, eventualmente péssima”.

Pressão descontrolada traz complicações graves: infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência renal crônica e insuficiência cardíaca entre outras.

O desconhecimento faz menosprezar os riscos, conduta que não poupa os médicos, costumeiramente apegados aos diminutivos quando não querem preocupar seus pacientes: “Sua pressão está um pouquinho alta, vou receitar um remedinho”.

Quem recebe o tal remedinho sem ter noção clara do mal que o aflige desconsidera a importância do tratamento e do controle sistemático dos níveis pressóricos. As consequências são:

1. Não é todos os dias que os hipertensos lembram de tomar os comprimidos. Quando viajam, esquecem de colocá-los na bagagem. Alguns tomam apenas quando sentem dor de cabeça ou tontura.

2. Abandono do tratamento por conta própria assim que surgem os primeiros efeitos colaterais, entre os quais a tosse seca associada a uma das classes de drogas e, especialmente, a dificuldade de ereção relacionada com outra. Sem contar aqueles prontos a jogar a culpa de qualquer mal-estar nas costas das medicações.

3. Como ninguém gosta de tomar remédio pelo resto da vida, ao constatar que a pressão caiu para 12 x 8, muitos se consideram curados e param com tudo.

Para agravar, existe a crença generalizada de que pressão alta provoca dores de cabeça, dor na nunca, pontos brilhantes na visão, tonturas e outros achaques. Quem não sente nada não vê razão para se tratar. A fama de matadora silenciosa fica restrita ao ambiente médico.

Com base em aproximações estatísticas, foi criada a regra empírica dos 50%. Segundo ela, 50% dos hipertensos ignoram sua condição. Dos que receberam o diagnóstico, apenas 50% começam a tomar medicamentos. Destes, 50% não aderem a eles ou o fazem com irregularidade. Como a matemática nos ensina que 50% de 50% de 50% são 12,5%, concluímos que apenas a minoria segue o tratamento com disciplina.

Entre estes, no entanto, muitos não conseguirão manter a pressão controlada porque as drogas prescritas podem ser ineficientes ou perder a eficácia com o tempo.

Esse é o cenário responsável pelas complicações cardiovasculares e renais que superlotam as unidades de pronto-atendimento e os serviços de cardiologia, neurologia e nefrologia, drenando recursos do SUS e dos planos de saúde.

Nós, médicos, imaginamos que os hipertensos tomarão a medicação prescrita e farão medições periódicas da pressão para nos mostrar na consulta seguinte. De ilusão também se vive. Meses mais tarde, eles retornam – – quando retornam -, com informações tão imprecisas que acabamos sem dados para avaliar o resultado do tratamento.

Não somos nós os profissionais indicados para acompanhar a evolução dos hipertensos. As enfermeiras fazem esse trabalho com muito mais competência. Com um aparelho em casa e acesso ao WhatsApp, o paciente pode enviar a elas os controles semanais.

Tem cabimento uma pessoa hipertensa não ter o aparelho e passar semanas sem uma medição sequer? Os aparelhos estão cada vez mais baratos, o SUS tem condição de entregá-los aos mais pobres.

As farmácias espalhadas pelos quatro cantos do Brasil são obrigadas a manter em suas dependências um farmacêutico diplomado. Muitas vezes, um profissional que passou quatro anos na universidade acaba relegado a formalidades burocráticas, quando poderia orientar os pacientes a anotar os valores da pressão, ensiná-los a usar o aparelho, aconselhá-los a aderir à medicação e a voltar ao médico quando houvesse picos hipertensivos.

A farmácia é o lugar ideal para fazer esses controles, pela simples razão de que é lá que as pessoas compram os anti-hipertensivos todos os meses.

Nós, médicos, deveríamos deixar de lado o corporativismo antiquado, praga que infesta nossa profissão, e entregar para outros profissionais o trabalho que não temos condição de realizar ou que fazemos mal feito.

*Médico e escritor. Colunista da Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 27/10/2019.
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