“Na direção da Companhia estava o mago Contrando Pichhi e sua Rosa, mantendo a tradição, encantando adultos e crianças, fazendo   sucesso e, mais que isso, realizando sonhos”

Cutucado com vara curta por Mirtyl Levy, colecionador de artes e meu amigo de longa data e de família, desde o seu avô Domingos De Masi que brincava brigue Independência com meu amado pai, andei à cata nos meus apontamentos antigos qual a companhia de marionetes que fez apresentações no Teatro Amazonas pelos anos 1970, aquela que deixou marcas vivas na memória do Mirtyl.

Antes dela outras companhias de marionetes e fantoches estiveram por aqui fazendo brilhar o palco do nosso Teatro, ainda no período áureo da fase artística iniciada em 1897. A primeira delas foi a Companhia de Marionetes Modernos e Fantoches Cantantes, em novembro de 1909, sob a direção de Enrico Salici da empresa E. Bosi, com ingressos à venda na Agência Teatral de Deolindo Pimentel, situada na Rua Henrique Martins. Algumas das peças levadas à cena não eram novidade para o público local porqu Juca Carvalho havia apresentado pouco antes. As diferenças eram a música do maestro Sidney Ione e a direção de Alfredo Santos, além da participação dos irmãos Salci que faziam sucesso.

A que encantou o meu amigo foi a Companhia Internacional de Marionetes “Rosana Picchi“, que se apresentou em novembro de 1970 sob o patrocínio do governo por meio da Secretaria de Educação, em benefício das obras assistenciais organizadas pela primeira dama, Violeta Areosa.

Não era uma companhia qualquer. Tratava-se de uma empresa fundada há mais de 270 anos, portanto desde o século XVIII, voltada para crianças e adultos e que tratava os temas apresentados com poesia e umanismo e exibia dezenove números, tais como o palhaço Vagalume, o maestro Paradessi, violinista Kubelicha interpretando Cezar de Monti, além do diálogo entre o Pato Donald e o Zé Carioca, tudo com belo jogo de luzes e sombras, com efeitos em fosforescência e alto relevo. Os bonecos de madeira movidos com cordéis de sessenta centímetros até quatro metros se utilizavam de quinze a vinte fios presos a um balancim posto na altura de três metros, de maneira própria para serem movimentados com maestria.

Todos os mecanismos, peças, luzes e cenários foram carregados do Sul para Manaus em navio da ENASA chegando a compor cerca de seis toneladas de material cênico, além de cinco personagens apresentados pela companhia, depois de grande sucesso em Belém do Pará, ao tempo do Círio de Nazaré.

Era o governo Danilo Areosa e na Secretaria de Educação que era a promotora do evento estava o poeta e escritor Elson José Bentes Farias, nascido em Itacoatiara e que atuava com o apoio do ministro Jarbas Passarinho.

Na direção da Companhia estava o mago Contrando Pichhi e sua Rosa, mantendo a tradição, encantando adultos e crianças, fazendo sucesso e, mais que isso, realizando sonhos e empolgando com a manifestação de várias artes como sucede sempre com o bom teatro de marionetes e fantoches quando levados por mãos de gênios como sucedia naquela ocasião, verdadeiros ases em manipular bonecos e bonecas que cantavam, contavam estórias, dançavam, e, acima de tudo, animavam os espíritos de quantos se dedicavam a assistir os espetáculos muito bem compostos.

Que voltem os sonhos mostrados pelo palhaço Vagalume, falante e alegre, com toda a felicidade dos seres apaixonantes e pregador de bons exemplos, sempre recitados em várias cenas para educar pelas artes.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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