Marcelo Leite
*Marcelo Leite

Salles, do Meio Ambiente, não estaria satisfeito com monitoramento feito pelo Inpe.

Corre no setor de sensoriamento remoto por satélites o rumor de que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (Novo), prepara um sistema alternativo para monitorar o desmatamento no país. A assessoria de imprensa da pasta não confirma nem desmente a informação.

A senha foi dada terça-feira (27) num tuíte do ministro, dois dias antes de exonerar o fiscal do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) que ousara atuar Jair Bolsonaro por pesca ilegal sete anos atrás.

Salles escreveu: “Em reunião do Censipam – Conselho do Sistema de Proteção da Amazônia estamos delineando as estratégias e ações para monitoramento e combate ao desmatamento ilegal!”

O Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia é uma instalação do Ministério da Defesa. A iniciativa, se vingar, implicará gastos de milhões de dólares para duplicar algo que já é feito pelo próprio governo federal, e mais barato.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), subordinado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), usa satélites para medir derrubadas na Amazônia desde 1988. São os sistemas Prodes (taxas anuais oficiais de desmatamento) e Deter (mais recente, que faz alertas de curto prazo de desmates ilegais para mobilizar a fiscalização).

O Inpe granjeou reputação internacional operando essa tecnologia para extrair de imagens de satélite informações sobre mudanças no uso da terra. Na semana passada, por exemplo, o coordenador do programa no Inpe, Claudio Aparecido de Almeida, estava em Montpellier (França) para dar palestra sobre os sistemas.

O Deter, que deu agilidade à fiscalização do Ibama na Amazônia e agora cobre também o cerrado, utiliza imagens dos satélites sino-brasileiro CBERS, que são gratuitas. No Prodes se empregam dados da série Landsat, ao custo aproximado de US$ 150 mil (R$ 585 mil) anuais.

Corre que o sistema almejado por Salles envolveria imagens da empresa americana Planet, que já pôs em órbita 331 satélites e tem hoje cerca de 150 em operação. A resolução espacial oferecida pela Planet vai de 3m a 5m, contra 30m e 64m no Prodes e no Deter, respectivamente.

Só que essa acuidade toda tem um custo. Alguns usuários da Planet, a depender do pacote contratado, pagam coisa de um dólar por quilômetro quadrado. Numa conta de mesa de botequim, cobrir o território nacional inteiro implicaria gastar a cada ano US$ 8,5 milhões (R$ 33 milhões).

Vale dizer, uma despesa 55 vezes maior que o gasto atual do Inpe. Com a diferença de que o instituto deixa as imagens à disposição de toda a comunidade de sensoriamento remoto e sistemas geográficos de informação.

À primeira vista, uma resolução melhor permitiria detectar mais áreas de desmatamento, aquelas de tamanho inferior à resolução do Deter e do Prodes. Só que faz mais sentido pôr a fiscalização no encalço dos maiores devastadores, e o Inpe já demonstrou que, com os sistemas atuais, consegue identificar onde ocorre mais de 95% da área devastada.

Salles, condenado em dezembro por improbidade na Justiça de São Paulo, por interferir no manejo de áreas de várzea do rio Tietê, deveria pensar duas vezes antes de lançar-se nessa aventura de pagar caro para duplicar o que próprio governo federal já faz.

Seu colega de gabinete no MCTIC, o ex-astronauta Marcos Pontes, deveria vir a público dizer o que pensa dos planos do MMA de controlar o monitoramento da devastação, sabotando o trabalho de décadas do Inpe.

*Jornalista. Articulista da Folha de São Paulo, Caderno Ilustríssima, de 31/03/2019.
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